sexta-feira, 18 de maio de 2012

O CABO-DE-GUERRA DA PIRATARIA E ANTI-PIRATARIA


Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, alguns nomes conhecidos do brega-popularesco ou de simpatizantes "performáticos" afirmaram que "gostariam de ser pirateados". A defesa escancarada da pirataria acaba sendo o mote desses intérpretes, uns ligados ao coletivo Fora do Eixo e outros ligados a tendências brega-popularescas, como Mr. Catra.

É muito delicado falar na questão da pirataria, uma vez que o que vemos, na verdade, não é um maniqueísmo para o qual os anti-pirateiros são "o mal" e os pirateiros são "o bem", ou vice-versa. Trata-se, na verdade, de um cabo-de-guerra onde quem sofre, além do cidadão comum, é o verdadeiro artista brasileiro, que, diferente do ídolo brega-popularesco ou de seu simpatizante "performático" - sejam rappers, músicos de MPopB ou performáticos "pós-modernos" - , não encontra o mercado de portas abertas para ele e está à margem de qualquer benefício, seja no mercado formal, seja no mercado informal e até no clandestino.

Nós, cidadãos comuns, estamos num meio-termo entre a urgência de comprarmos CDs de software piratas porque os originais custam muitíssimo caro e o desejo de comprarmos CDs musicais originais, que possuem encartes com letras e selo personalizado. E somos vítimas desse cabo-de-guerra que envolve, de um lado, os mais selvagens pirateiros, e, de outro, os mais neuróticos anti-pirateiros.

Sabemos que o comércio pirata de CDs estimulou muito o sucesso do brega-popularesco e praticamente massacrou a MPB autêntica, que com seus discos caros vendidos no mercado legal perderam terreno para os ídolos neo-bregas que, com seus discos mais baratos e mesmo com sua gritante mediocridade musical, despertaram curiosidade numa classe média menos exigente, que decidiu comprar seus discos porque as músicas pareciam "mais divertidas".

Isso fez com que o quadro da música brasileira mudasse completamente. E para pior. E pouco adiantou, e podemos até dizer que nada adiantou, os ídolos brega-popularescos gravarem covers de MPB na tentativa de associarem suas imagens à música de qualidade, porque o que se viu foi o contrário, a banalização de certos clássicos da MPB em gravações oportunistas, tendenciosas e inferiores, em qualidade, às versões originais.

O QUE É MESMO PIRATARIA?

A ideia original de pirataria, conforme registra a História, está relacionada a roubo, a saques, a apropriações indevidas de um bem. Mas será que as ações clandestinas de qualquer natureza podem ser consideradas "pirataria"?

As fronteiras que separam o comércio informal e o mercado clandestino nem sempre podem ser facilmente definidas. Da mesma forma, há uma grande diferença entre a mera pirataria digital e a rebeldia de movimentos como Anonymous que poucos conseguem compreender.

Isso faz com que posições extremistas, seja contra ou a favor, sejam adotadas, uns necessariamente vendo o que entendem como pirataria como uma "conspiração revolucionária", outros como uma "ameaça catastrófica".

Afinal, de um lado há a ação rebelde de pessoas que, insatisfeitas com os preços dos bens culturais ou coisa parecida, apelam para baixar gratuitamente cópias clandestinas daquilo que querem obter, de outro está casos bem diferentes de máfias que simplesmente vendem cópias piratas para movimentar financeiramente as finanças da criminalidade.

Afinal, é nos lados extremos que se encontram procedimentos e iniciativas onde o "idealismo" dos pirateiros e a "moralidade" dos anti-pirateiros são meras retóricas vazias, e à sua maneira promovem injustiças sociais e exploração dos trabalhadores, em muitos casos com igual índice de escravidão.

QUANDO A PIRATARIA É "SOPA"

O que é o mercado de camelôs que vendem produtos contrabandeados ou CDs piratas, incluindo aí títulos de brega-popularesco lançados originalmente no mercado legal? Por debaixo dos panos, insere-se nesses mercados discos de gravadoras pequenas, que alimentam os mercados regionais de brega-popularesco.

Essas gravadoras pequenas são falsamente definidas por muitos como "independentes", porque não há nelas o idealismo caraterístico das indies, mas a mesma mentalidade mão-de-vaca das grandes gravadoras, com a diferença de que não possuem grande estrutura empresarial e nem escritórios ou representantes em Miami, Los Angeles e muito menos na Avenida Paulista, em São Paulo.

Há muita gente trabalhadora que opta por esse mercado porque não tem outro trabalho a fazer. O mercado de trabalho, para elas, é muito injusto. Essas pessoas têm baixa escolaridade e as escolas públicas, deficientes, não ajudam. Por isso acabam indo para o subemprego, seja nos camelôs, na prostituição e mesmo no entretenimento, quando se tornam músicos ruins a serviço de cantores medíocres, num ganho apenas fictício das adulações da intelectualidade associada.

Isso quando a intelectualidade se lembra daquele percussionista do grupo de forró-brega que aparece apenas nas fotos atrás dos demais integrantes. E isso quando o percussionista em questão pode aparecer nas fotos porque ele, apesar de se comportar funcionalmente como integrante de banda, é muitas vezes reduzido a mero empregado, enquanto a "banda" se reduz ao mero fetiche de um vocalista e duas cantoras-dançarinas.

E qual é a diferença dos músicos de brega-popularesco reduzidos a empregados de seus grupos - cujos cantores já são, por sua vez, empregados do empresário dono de cada grupo - e os empregados da grande indústria fonográfica, da grande indústria cinematográfica, dos EUA?

Qual a diferença entre um percussionista ou um guitarrista que se reduz a um mero "empregado" de um grupo de forró-brega controlado, por sua vez, pelo seu empresário no Pará, e o roteirista e produtor que vê seus projetos de seriado serem sucessivamente rejeitados pelos executivos de Hollywood, porque, apesar de bem feitos, não garantem retorno financeiro?

E qual a diferença entre a grande corporação de Hollywood que criminaliza o download gratuito de filmes difíceis de serem encontrados no mercado e, quando o são, custam muito caro, e a máfia chinesa que extermina desafetos e denunciantes a sangue frio? Em ambos os casos, aparentemente diferentes, há a ganância cruel e vingativa, em nome do poder econômico.

ESTRANHEZAS E PREJUÍZO AOS AUTORES DAS OBRAS

O deslumbramento com qualquer ação de pirataria, por um lado, e a histeria por ações de combate contra tudo que sair ao largo do mercado legal, por outro, deixam vazar algumas estranhezas.

Uma delas é ver que o famigerado guru das chamadas "mídias livres", o professor de Tecnologias da Informação da Fundação Getúlio Vargas, Ronaldo Lemos, estar empenhado num grupo de combate à pirataria. Sim, o próprio divulgador do tecnobrega, cujos "artistas" afirmaram gostar de ser pirateados, indo contra a causa que eles e, aparentemente, o próprio Ronaldo, parecem à primeira vista defender.

Mas o que chama a atenção é que, no caso dos direitos autorais, tanto a pirataria quanto a anti-pirataria atuam em prejuízo aos próprios autores ou responsáveis pelas obras, que não veem a cor do dinheiro de uma forma ou de outra.

Seja ele o mecânico de borracharia que compôs um baião meio cafajeste e decidiu vender para o empresário de um grupo de forró-brega para ordenar este a gravá-lo, mas não recebe o dinheiro arrecadado pela veiculação de sua obra, e o músico contratado pela grande gravadora que vê quase todo o seu dinheiro parar nas mãos de seu empresário e dos editores de copyright.

Se na grande indústria são os grandes empresários, executivos e editores que acabam levando boa parte do dinheiro arrecadado pelo mercado formal de difusão de bens culturais, no mercado informal são os "pequenos" empresários e seus associados (mídia, política, poderio econômico regional) que ficam com boa parte da grana obtida pelo mesmo processo, mas num contexto bem diferente.

Com isso, é igualmente equivocado considerar os primeiros como "paladinos da moralidade", numa visão, e os segundos como "batalhadores da liberdade", numa outra visão, simetricamente radical. A ganância no mercado formal e informal é igual e o processo de exploração dos trabalhadores subordinados não chega a ser muito diferente, salvo a peculiaridade de cada contexto.

No fim, tanto perdem aqueles que, nesse bate-boca, correm o risco de não poderem sequer gravar fotos na Internet para ilustrar seus textos em blogues, como aqueles que correm o risco de terem seus computadores danificados por conta de gravações suspeitas em CD. O que mostra que, nas duas pontas do mercado, existe gente igualmente gananciosa e exploradora, ainda que uns usem o pretexto da moralidade e outros da rebeldia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...