terça-feira, 15 de maio de 2012

A MÚSICA DITA "SERTANEJA": CONSERVADORA E PIEGAS


Por Alexandre Figueiredo

A Música de Cabresto Brasileira, divisão musical do brega-popularesco, por sua vez o "popular" comercial e midiático do Brasil, tem dessa aparente polaridade.

De um lado, tem-se a pseudo-audácia do "funk carioca", supostamente revolucionário e transgressor, mas que pega pesado na transmissão dos mais baixos valores morais na sociedade.

De outro, tem-se a pseudo-sofisticação do breganejo, a dita "música sertaneja" supostamente "elevada" e que, todavia, pega pesado na pieguice e no mais rijo conservadorismo moral na mesma sociedade.

A opinião pública média de esquerda foi tomada tanto por um e por outro nas pegadinhas que a seduziram a apoiar a mediocridade cultural brasileira, expressa no brega e em todos os seus derivados. Do "funk carioca", tinha-se a falsa impressão da "abertura" de valores morais, da "liberdade" e da "modernidade". Do "sertanejo", tem-se a falsa impressão da "saudade" de valores sagrados, como o amor, a família, a infância.

O Brasil anda vivendo uma fase esquizofrênica e até agora não reencontrou o caminho cultural perdido em 1964. A mediocrização cultural em ritmo acelerado, crescente e descontrolável encontra seu ponto extremo nos dias de hoje, em que o brega-popularesco já não conhece mais os seus espaços, num processo de megalomania mercadológica e midiática.

Por outro lado, virou moda qualquer um, seja intelectual, sindicalista, político, celebridade etc adotarem algum ídolo brega, como se fosse uma mascote de estimação. E gente inimaginável, que parecia ter alguma visão crítica da cultura brasileira, de repente adota um breguinha para sua estima condescendente.

No meio do caminho entre a "ousadia" funqueira e a "tradição" breganeja, muitos ídolos brega-popularescos, de Waldick Soriano a Leandro Lehart, foram de uma forma ou de outra adotados. Já se falou, erroneamente, que a música brega e seus derivados estavam fora da mídia, numa verdadeira falta de percepção de seus defensores.

Afinal, o que é a mídia para quem vive dentro de sua bolha de plástico? Para muita gente hoje, infelizmente, a mídia é seu mundo, não há mais uma diferença explícita entre um quintal cenográfico de uma novela e o quintal da infância de seu espectador. Daí, muitas vezes, a boa-fé no apoio ao brega-popularesco, uma "cultura popular" de proveta, de cativeiro, forjada pelo mercado e pela mídia durante a ditadura militar.

E isso o breganejo, estilo considerado bastante conservador e falsamente tradicional, consegue muito bem aproveitar. Se o "funk carioca" seduz pelo discurso pseudo-militante, o "sertanejo" seduz pelo discurso pseudo-tradicionalista. E como o Brasil vive muito de memória curta, os breganejos dos anos 90, conhecidos pela deturpação mais grotesca do estilo, hoje são vistos erroneamente como "música de raiz".

De repente, aqueles ídolos acusados de destruir a música caipira, como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo e João Paulo & Daniel, só para citar os principais da "geração 90", hoje são vistos como se fossem "ícones da música brasileira de raiz".

Vieram coisas piores, como Bruno & Marrone, César Menotti & Fabiano, Luan Santana, João Bosco & Vinícius - com direito a um nome artístico (eles juram ser de batismo) que parodia artistas de MPB - e agora Michel Teló, Gusttavo Lima e agora João Lucas & Marcelo (do tal sucesso "Ela Quer Tchu, Eu Quero Tcha"), a aquela turma dos anos 90, os deturpadores da época, agora são vistos falsamente como "gênios" e até como "MPB".

Só que, numa análise mais cuidadosa, os "simpáticos" breganejos de 1990-1997 gravavam músicas mal arranjadas, não tinham uma noção exata do que era a cultura rural, mas também até para modernizar a música caipira preferiram seguir a via mercantilista da deturpação de ritmos caipiras com arremedos de boleros, música country e mariachis, com vozes esganiçadas e tudo.

MPB DE MENTIRINHA

Mas, com o tempo, os próprios breganejos foram amestrados por arranjadores profissionais de plantão nas grandes gravadoras, e eles, junto com os ídolos do "pagode romântico", o sambrega, tiveram que ser lapidados para preencher, na visão dos executivos fonográficos, o nicho deixado pelo êxodo dos grandes nomes da MPB, que deixaram as grandes gravadoras para assinar com selos como Biscoito Fino e Trama.

Desse modo, criou-se uma "MPB de mentirinha", um breguinha tratado com luxo e pompa, e os breganejos em boa parte foram usados nessa manobra, que faz com que as pessoas de classe média mais condescendentes achassem que isso é "genial", "cativante" e que "é MPB, sim", com aquela noção duvidosa de que a "verdadeira MPB" se faz tão somente com lotações de plateias e vendas de discos.

Com isso, o breganejo tenta aproveitar o desgaste do "funk carioca", cada vez mais repetitivo, e enganar a opinião pública com sua suposta nostalgia. Seus intérpretes destruíram a música caipira, mas, quando lhes foi conveniente, eles mesmo foram gravar covers de música caipira original encomendados por grandes gravadoras e redes de TV.

E, quando vivem seus dramas pessoais, coisa que qualquer um vive, independente de que perfil for, eles são superestimados como se fossem "gênios da música". Ninguém vira genial porque sofreu, passou fome ou teve filho ou irmão agonizando nos hospitais. Dramas pessoais apenas são dramas pessoais, nada têm a ver com qualidade artística. Cantores medíocres continuam sendo cantores medíocres mesmo vivendo dramas pessoais, e por mais que os respeitemos como pessoas, ainda devemos pôr em dúvida a qualidade artística dos mesmos.

Mas o Brasil sucumbe à pieguice, ao sentimentalismo e a uma espécie de sensacionalismo emocional. Isso não ajuda a entender nossa cultura com mais justiça. Pelo contrário, dilui a chamada "cultura de massa" num festival de mediocridade renovada através da exploração midiática da emotividade coletiva. E, no caso do "sertanejo", os valores conservadores ligados a ele, desde sua concepção moralista de família até o lamentável "esporte" dos rodeios, esse sensacionalismo emotivo ganha ainda maior impulso.

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