domingo, 6 de maio de 2012

A "MÚSICA CAIPIRA", SEGUNDO A REVISTA VEJA


Por Alexandre Figueiredo

A revista Veja, encrencada com as suspeitas de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, também faz das suas na editoria cultural.

Desta vez, a revista traça aquilo que denomina "linha evolutiva da música sertaneja", aproveitando tanto a notícia do falecimento do cantor Tinoco, ao "sucesso" do cantor Michel Teló, fenômeno do jabaculê exportação.

Como se "sertanejo" fosse uma questão de usar determinados tipos de chapéus, sejam de couro ou de palha, ou de colocar algum som de acordeon nas músicas, Veja minimiza o poder diluidor dos ditos "sertanejos" da geração 90 - na verdade, existentes desde os anos 80, tipo Gian e Giovani e a própria dupla Chitãozinho & Xororó - , chamados agora "sertanejos dor de cotovelo". Breganejos, segundo Veja, só dos "universitários" e "pegadores" em diante.

Ou seja, numa época em que o mercado e a velha mídia tenta reabilitar os breganejos dos anos 90, agora promovidos a "geniais modernizadores da música de raiz", tenta-se criar uma "revisão histórica" da música caipira, num contexto em que qualquer brega mais antigo é tido por muitos como "genial".

Para Veja, que acredita que trabalho produtivo é sinônimo de sobrecarga horária e modernização é sinônimo de privatização, faz sentido vestir a camisa e a jaqueta dos breganejos. Depois da ressaca intelectualoide que promoveu o brega-popularesco como se fosse o "novo folclore brasileiro", tentando em vão colocar matizes "socialistas", a publicação mais conservadora da imprensa brasileira não deixaria de defender o mais conservador dos ritmos brasileiros.

Desse modo, as diluições que descaraterizam a música caipira são vistas como se fossem um "progresso" e não um retrocesso. Não bastassem os "hoje geniais" ídolos breganejos, que diluíram a música rural brasileira num engodo que mistura o brega setentista (sobretudo Waldick Soriano e Amado Batista) com caricaturas de música country, mariachis e boleros, a geração mais recente dos ditos "universitários" (Michel Teló, João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano, Gusttavo Lima, Luan Santana, Fernando & Sorocaba) se comporta como se não fosse muito além de uma versão folk do Restart.

Só que, hoje em dia, os breganejos mais antigos, que animaram a vitória eleitoral de Fernando Collor em 1989, são vistos como "geniais" às custas da exploração midiática de seus dramas pessoais, trabalhados com pieguice e um certo apelo marqueteiro, além dos covers oportunistas que eles, que destruíram a música caipira, tendenciosamente gravam. E até o Clube da Esquina sofre nas mãos deles.

Para uma revista que defende o interesse dos latifundiários, gente que mal consegue entender de agricultura e pecuária, jogando todo o trabalho para terceiros, faz sentido a defesa de um "estilo musical" que nada tem de cultura regional, de vida rural, ou nem mesmo das relações naturais do povo rural com as zonas urbanas.

Além disso, Veja faz um erro histórico, dizendo que a música caipira surgiu em 1910. Ela teria cem anos antes, através de uma evolução de catiras e cateretês, ritmos populares do Brasil colonial. E, certamente, Veja não data o fim da música caipira como 1977-1978, quando a ganância da indústria fonográfica priorizou formas diluídas impulsionadas sobretudo pela música brega que dizimou a cultura de raiz no Brasil ditatorial.

Pode ser uma mera coincidência que o Goiás de Carlinhos Cachoeira, tão amigo de Demóstenes Torres, Marconi Perillo e, quiçá, de Roberto Civita, seja o mesmo Estado de boa parte dos breganejos. A propina destes pode não ter a ver com a do bicheiro goiano, pelo menos é o que parece, mas com o jabaculê das rádios e TVs brasileiras. Mas um ritmo conservador, como o breganejo, sempre encontra espaço na mídia conservadora. Ele interessa ao mercado e todos seus interessados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...