quarta-feira, 30 de maio de 2012

INTELECTUAIS ETNOCÊNTRICOS: OS NOSSOS "SACERDOTES MEDIEVAIS"


Por Alexandre Figueiredo

Há uma grande analogia entre a Idade Média e a nossa "idade mídia". Um dos críticos da chamada "cultura de massa", Umberto Eco, é especializado em Idade Média e havia escrito um romance ambientado na época, O Nome da Rosa.

A Idade Média na Europa foi uma época de obscurantismo cultural, enquanto havia elites detentoras de poder político, econômico e religioso, ou até mesmo intelectual, que exerciam um domínio, que chegava ao ponto da crueldade, sobre as classes populares.

Na "idade mídia", também temos essas elites. São os tecnocratas que promovem desde a privataria das estatais até uma concepção autoritária de mobilidade urbana baseada na padronização visual dos ônibus, que veda a identidade visual das empresas para os cidadãos comuns. Puro obscurantismo sobre rodas.

Há também a velha grande imprensa, que hoje está temerosa de perder todo o controle da opinião pública, que hoje ela apela para a intelectualidade, ao menos, defender a mediocrização cultural como forma de, ao menos, domesticar a maioria das classes populares, neutralizando o poder dos ativistas o máximo possível.

São estes intelectuais os equivalentes dos antigos sacerdotes medievais. São possuidores de "segredos", se apropriando de um passado da cultura popular que as gerações mais recentes dentro do povo pobre estão privadas de saber. Estas não podem mais ter contato com a cultura de seus tataravós, mas estão submetidas ao jugo dos programadores e produtores de rádio FM e da TV aberta.

Esses "modernos sacerdotes", com suas modernas "missas" das palestras "fora do eixo" e similares, com o "confessionário moderno" dos microfones abertos para os quais só está vetada a análise crítica da realidade, prometem o milagre do Brasil atingir o Primeiro Mundo com o entretenimento fácil do brega-popularesco.

Deixem para museus, antiquários e outros ambientes privativos todo o patrimônio cultural das classes populares do passado (leia-se antes de 1967). O "patrimônio" do povo agora é o que o produtor de rádio FM decidir, o editor do jornal popularesco impuser e o executivo de televisão divulgar. E a intelectualidade medievalmente pós-moderna ainda diz que isso é a "cultura das periferias".

Aos Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Ronaldo Lemos e Hermano Vianna da vida, ou alguém que lhes seguir, o cidadão comum ou mesmo o cidadão de classe média ainda sub-intelectualizado não podem exercer o senso crítico. Eles que exerçam sua profissão de fé a esses sacerdotes pós-modernos.

Nessa profissão de fé, que tenhamos que aguentar todo o calvário da degradação cultural, todo o suplício da mediocrização e da cafonice dominante, tidos como pecados originais das classes populares escravizadas pelas mídias regionais.

Aguentemos tudo isso, sorridentes, até que a classe média, representada sobretudo pelos artistas pós-tropicalistas, ícones de uma MPB mais obediente com o mercado, vá em socorro solidário aos cafoninhas de plantão, permitindo a eles uma pseudo-sofisticação artística às custas de muita pompa, muito luxo e muitos covers de sucessos alheios.

Ou então são as sessões "sofisticadas" com as mulheres-frutas fantasiadas de Marilyn Monroe, Betty Boop, Audrey Hepburn. Ou são os apresentadores de noticiários brucutus transformados em animadores de programas de calouros.

Assiste-se a cafonice e acoberta-se a mediocridade cultural com todo o apoio paternal da intelectualidade "sacerdotal". E, em vez de melhorarmos o país e darmos qualidade de vida para o povo, a intelectualidade lhes oferece meras esmolas "culturais" cuja diferença se fará no futuro, quando teremos celebridades amestradas em vez de grandes artistas, grandes atores e grandes pensadores.

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