segunda-feira, 21 de maio de 2012

E SE VEJA FOSSE EXTINTA?


Por Alexandre Figueiredo

Vários periódicos foram extintos, por circunstâncias diversas. E ontem uma dessas revistas, de uma trajetória brilhante no jornalismo brasileiro, foi lembrada. E foi justamente a Senhor, revista cuja trajetória ando pesquisando para um livro que está em andamento.

Ontem, a Folha de São Paulo, num dos momentos excepcionais em que se livra das garras urubólogas, fez o caderno Ilustríssima reviver os tempos da antiga Mais! - que outrora era o único lugar que FSP reservava para o pensamento de esquerda - ao encomendar uma ilustração a Claudius Ceccon e um texto a Ruy Castro, para celebrar uma publicação sobre a revista Senhor pela Imprensa Oficial.

Claudius Ceccon foi um importante cartunista no final dos anos 50 e começo dos anos 60. É remanescente daqueles desenhistas com traços simples, geralmente sem colorir suas tirinhas - embora eventualmente o façam e Claudius o faça atualmente - , como Appe e Borjalo, já falecidos. Aliás, Borjalo fazia suas charges na Cruzeiro e Claudius na Manchete. Hoje Claudius desenha para a última página de Caros Amigos.

Já Ruy Castro é um jornalista com ênfase na análise cultural, e um dos grandes repórteres e de uma geração que veio nos anos 60, comprometida com a informação honesta e com a criatividade editorial. Ele havia feito parte da equipe do Correio da Manhã, jornal carioca que fazia oposição à ditadura militar.

Claudius desenhou a capa de Ilustríssima com a estética inspirada nas capas de Senhor. Ruy, por sua vez, escreveu um longo texto sobre a revista, marcada pela sua linha editorial sofisticada, sem compromissos ideológicos - não era de esquerda nem de direita - mas que teve como ênfase o jornalismo cultural e as análises refinadas sobre diversos assuntos.

Havia poesia também. Havia crônicas, seção de humor, arte visual e até mesmo sessões sensuais leves, dessas em que as mulheres não aparecem nuas, mas com uma sensualidade mais sugerida e sutil, que servia como um complemento para o perfil de muitas enfocadas, que eram atrizes, escritoras, musicistas etc.

A Senhor - que na capa aparecia, às vezes, com o nome SR - foi uma grande revolução editorial que durou de 1959 a 1964. Tempos em que o mundo vivia grandes transformações e que a vanguarda cultural eclodia de forma ímpar, até hoje insuperada. Como no caso da visão sobre cultura popular no Brasil, carente de grandes analistas que unam visibilidade diante do público e coerência de visão.

Só que a Senhor, como muitas publicações, faliu não por causa de escândalos, mas por pressões de ordem econômica. Apesar das últimas edições enfatizarem a visão do esquerdista ISEB sobre nacionalismo e cultura popular - em que pese a revista ser, nessa época, editada pelo Grupo Gilbert Huber, de um dos fundadores do direitista IPES; mas eram épocas em que a mídia direitista poderia empregar jornalistas de esquerda - , Senhor não faliu por motivos políticos, já que janeiro ainda não sinalizava uma tendência golpista da direita, embora o assunto já estivesse em pauta nos debates militares da "Rede da Democracia" (pool de pregações midiáticas comandado pelas Organizações Globo, Diários Associados e Sistema Jornal do Brasil).

E hoje, numa época de mediocridade cultural, quando os intelectuais da cultura popular mais badalados são aqueles que se limitam a fazer proselitismo do mercado brega-popularesco, a nossa "grande revista" é Veja e o nosso "grande imortal" é Merval Pereira, que só lançou coletâneas de artigos.

E há o grande medo da sociedade mais reacionária de que Veja seja extinta de repente. Tivemos o exemplo da revista O Cruzeiro, extinta depois de vendida para um outro grupo empresarial, em meio ao desentendimento dos herdeiros de Assis Chateaubriand, seus antigos funcionários mais destacados. Mas nada comparável ao que Veja sofre hoje, quando a publicação do Grupo Abril é tomada pelo mais psicótico surto do reacionarismo mais nervoso.

Ver que um Reinaldo Azevedo agora escreve com ódio nas veias é sintomático. Nem Diogo Mainardi nas suas histerias chegava a tanto. A raiva toma conta da redação de Veja há um bom tempo, são nuvens pesadas que assustam até um de seus mais moderados editores, Roberto Pompeu de Toledo, conservador mas competente, que há muito alongou a periodicidade de seus artigos. E Millôr Fernandes, no final da vida, já havia sentido o peso das páginas vejistas.

A podridão envolvendo Policarpo Júnior e um conhecido grupo de "amigos seus" - que sabemos ser a quadrilha de Carlinhos Cachoeira - , sob o sorriso de aprovação de Roberto Civita, já é um escândalo pior do que aquele envolvendo Rupert Murdoch e seu News Of The World.

Murdoch, ao menos, fazia do seu News Of The World o equivalente aos nossos Meia Hora, Expresso (das Organizações Globo) e Supernotícia, publicando fofocas e notícias sobre aberrações. Criou, de fato, mecanismos pouco honestos e outras ocorrências infelizes e até trágicas. Foi de fato um escândalo gigantesco, gravíssimo, lamentável e que acionou a Justiça e o Parlamento britânicos a investigar, julgar e condenar Murdoch. E fechar o News Of The World, há muito de má fama, pois até o Queen gravou um LP com o título do infame jornal.

Mas se News Of The World foi fechado por um escândalo já de extrema gravidade, o caso de Veja é ainda muito, muito mais grave. Imagine uma revista de informação de Chicago, há cerca de 80 anos, envolvida com perigosas quadrilhas mafiosas? É o que ocorre com Veja, nas negociações de pauta feitas com Carlinhos Cachoeira e seus comparsas.

Isso é muito grave. E como Veja tem coragem de evocar a Constituição? Que liberdade de imprensa é essa cuja pauta é negociada com bandidos? Só essa prática covarde já faz Veja merecer sua extinção, tese que conta com o apoio explícito até mesmo do antigo editor da revista, Mino Carta, hoje responsável por Carta Capital.

Lendo os textos de Mino Carta, sabe-se muito bem que Veja já morreu faz tempo. O reacionarismo de Veja a matou, só falta a revista ser enterrada. E Mino, creio, gostaria de ser o primeiro a jogar a pá de cal na Veja, se caso ela for extinta.

É bom que a famiglia Civita se lembre do que ocorreu com suas revistas culturais, extintas de forma escandalosa. A revista Geração Pop, ou Pop, revista cultural que havia sido publicada nos tempos em que eu era criança, nos anos 70. A revista criou umas falsas reportagens, uns factóides sobretudo sobre o punk rock, fazendo com que sua credibilidade caísse e a revista tivesse que ser extinta, em 1979.

A Abril levou seis anos para lançar outra revista, Bizz, depois empastelada por outros motivos (a "urubologia" de André Forastieri, Carlos Eduardo Miranda e cia.). E a Bizz, depois transformada na horrível Showbizz de 1995-1998, tentou voltar as origens, mas estava fraca demais para se manter em pé. Foi extinta, tentou regressar em 2004, mas depois saiu de cena.

As duas lições podem envolver publicações de perfil diferente de Veja. Mas mostram que, em muitos momentos, a cultura e a política se interrelacionam. As más políticas de Pop e Bizz ensinam muito à cultura de Veja, no que se refere aos erros mais grosseiros.

Por esses fatores, a extinção de Veja, se houver, causará um violento impacto no mercado editorial, por ser uma publicação abjeta mas dotada de defensores fanáticos e temperamentais.

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