quarta-feira, 9 de maio de 2012

DEPOR TAMBÉM É, DE CERTO MODO, INFORMAR


Por Alexandre Figueiredo

Há um grande medo, um violento pavor, entre os comentaristas da velha grande mídia, de que o magnata das Comunicações do Brasil, o chefão do Grupo Abril Roberto Civita, seja convocado a depor na CPMI sobre o caso do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Apavorados, os urubólogos de plantão, não sem certa raiva, afirmam que as relações entre Cachoeira e Policarpo Jr., o chefe de redação da sucursal brasiliense de Veja, são "pura amizade" e ocorre "dentro dos padrões da legalidade democrática".

Só que está muito claro que não são
"relações dentro da legalidade" as negociações para calúnias travestidas de reportagens, num processo claramente criminoso, de derrubar equipes ministeriais pelo simples prazer de derrubar e cometer o mais rabugento anti-jornalismo até na busca de informações, atropelando os limites da privacidade de quem quer que seja, tudo para alimentar o denuncismo mais feroz.

Não há erro algum em chamar o proprietário da Editora Abril, que publica Veja, o ítalo-brasileiro Roberto Civita, para depor na CPMI. Primeiro, porque ele já se comporta de maneira conivente com o escandaloso envolvimento de seu pupilo de Brasília com o crime organizado. Segundo, por muitos fatos nebulosos, trevosos até, envolvendo Veja, como a participação acionária de um grupo fascista e a própria linha editorial marcada por verdadeiros atos contra a ética jornalística.

A princípio, a convocação para depoimento tem como objetivo obter informações sobre o que está acontecendo com Veja. Isso porque, de acordo com a lei, são apenas suspeitas, embora potencialmente prováveis, do envolvimento de Civita com o esquema de Carlinhos Cachoeira. Por isso, nada como a convocação dele, de Policarpo Jr. e de qualquer outro jornalista que aparecer, para que se prestem informações relativas aoque se é denunciado.

Neste sentido, no Reino Unido o magnata e amigo de Civita, Rupert Murdoch, e seu filho James, aceitaram prestar depoimentos relacionados ao maior escândalo midiático dos últimos tempos, que custou a publicação de News Of The World.

Embora o formato do extinto jornal britânico esteja mais próximo do Jornal Expresso, do Rio de Janeiro, no sentido de publicar fofocas e notícias sobre aberrações, é inegável que muito de seu "profissionalismo" encontra afinidades claras com Veja, que, em tese, é uma revista de informações gerais, como Isto É e Carta Capital (esta, no contexto de esquerda).

E olha que Murdoch, que nem é um empresário britânico, mas um australiano radicado nos EUA com negócios em várias partes do mundo (inclusive o Brasil), também se comportou de forma arrogante, de início, contra a justiça britânica. Mas, uma vez convocado a depor, teve que ir.

Se Roberto Civita está realmente envolvido com os fatos denunciados, o problema é dele. Ele terá que depor, seja para dar informações sobre o caso, seja para admitir seus erros. Isso é o que os urubólogos da mídia tanto temem, daí o clima de nervosismo e as desculpas feitas para que não sejam convocados o empresário e o jornalista da Veja em Brasília para deporem na CPMI.

O medo é de que a corrupção da velha grande mídia possa comprometer, mercadologicamente, seus maiores veículos. Imagine o Grupo Abril cancelar várias de suas franquias, inclusive Playboy e Caras, por conta da repercussão da corrupção de Veja. Imagine o êxodo de milhares de anunciantes, horrorizados em ter que divulgar seus produtos e serviços para uma editora sem a menor credibilidade. Será o fim.

Só que a fúria dos comentaristas políticos da velha grande mídia - para quem procura o Google, estamos falando de Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede, Miriam Leitão, Merval Pereira, Augusto Nunes, Josias de Souza e outros - é como derramar querosene para apagar um incêndio. Só complica ainda mais as coisas.

Afinal, são artigos rancorosos, do mais abjeto mau humor, de quem sabe as consequências que sofrerá e se recusa a admiti-las em público. Eles sabem muito bem que levar Roberto Civita para os tribunais poderá representar o fim de uma era da grande mídia brasileira, e a possível falência de Veja, consequência natural dos escândalos e encrencas em que a revista se envolveu, poderá soar como um incômodo alerta para outros veículos de similar comportamento da grande mídia.

As denúncias contra Veja, uma vez divulgadas por uma rede de televisão que, em muitos momentos, obtém liderança de audiência e que mesmo na vice-liderança ameaça a Rede Globo, já vão muito além dos círculos ligados aos que a urubologia reinante define como "blogueiros chapa-branca", que nem sempre são ligados ao PT e nem a qualquer partido político, mas têm um compromisso com os movimentos sociais e com o hoje injustiçado e menosprezado interesse público.

Isso, juntado com os comentários desequilibrados dos seus articulistas, sobretudo um Reinaldo Azevedo à beira de um violento ataque de nervos, pode mais uma vez definir os rumos da situação. Melhor que esses comentaristas aceitem a hipótese de verem seu colega Policarpo comparecer a depoimentos na CPMI e de seu "líder" Roberto Civita fazer a mesma coisa.

Afinal, os dois, ao darem explicações sobre o caso, estarão prestando um grande serviço de informação. É o direito público saber disso. Se Veja se envolveu nos escandalosos acordos com Carlinhos Cachoeira, é bom que isso deixe claro. O público cobra isso. Isso é que é direito de informação, a liberdade de se informar realmente sobre o que ocorre, doa a quem doer. E ainda que doa mais nos bastidores da velha mídia.

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