quinta-feira, 17 de maio de 2012

CULTURA: PIADA DE PORTUGUÊS OU DE BRASILEIRO?


Por Alexandre Figueiredo

O Ministério da Cultura do Brasil vive uma crise conhecida entre nós, e que divulgou a imagem nefasta da atual gestão do ECAD e suas relações com a ministra Ana de Hollanda, irmã de Chico Buarque.

Mas em Portugal o mesmo ministério tornou-se extinto, substituído por uma Secretaria de Estado que mal consegue ter representatividade no cenário cultural português.

Para se ter uma ideia, o secretário de Cultura, Fernando José Viegas, tem sérias limitações políticas pelo fato de não ter status de ministro e não tem sequer cadeira no Conselho de Ministros português. Essa limitação o impede de participar de muitos debates ministeriais, que envolvem políticas orçamentárias. Que, por sinal, também acabaram, com o fim de muitos editais para a cultura daquele país.

Fala-se em crise da cultura num continente em crise. A Europa procura rever seus valores, o Velho Mundo reavalia suas identidades sócio-culturais, sua auto-estima em baixa, as relações conflituosas entre o novo e o velho, entre as políticas socialistas e os movimentos de extrema-direita, entre políticas de assistência às classes populares e projetos neoliberais excludentes.

Nesse contexto, a União Europeia, que deveria unir os vários países do continente, agrava as contradições entre eles. O poderio daex-primeira-ministra alemã Angela Merkel e do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, derrotados por socialistas, é um reflexo da crise do neoliberalismo europeu.

Em Portugal, artistas veem espaços se fecharem, pela falta de subsídios para as expressões artísticas. A crise, em primeira instância, parece asfixiar a cultura portuguesa, mas seus artistas, como cineastas, músicos, artistas plásticos, escritores e atores teatrais, como em toda a crise, tentam driblar as dificuldades com criatividade.

Essa crise, portanto, pode ser entendida como um cenário fértil para as expressões culturais europeias. Que, no caso da música, passam longe do hit-parade continental e mesmo de influências externas como Lady Gaga, Beyoncé Knowles e até mesmo Michel Teló. Como, no cinema, elas passam longe do comercialismo hollywoodiano. O fim do Ministério da Cultura português pode dificultar a efetivação de políticas em prol da cultura daquele país, mas como em toda crise impulsiona reações férteis de artistas e intelectuais portugueses.

A BLINDAGEM INTELECTUAL À MEDIOCRIDADE

No Brasil é que "cultura" virou uma grande piada. Não que inexistam manifestações culturais de grandiosa relevância, elas existem, sim. Mas além de sofrermos a hegemonia de expressões de gosto e credibilidade duvidosos, dotados de uma estrutura empresarial impecável que contrasta com seu nível artístico pouco expressivo, essas "expressões" ainda são blindadas por uma intelectualidade influente que desempenha seu péssimo exemplo à opinião pública.

Sim, porque é uma intelectualidade que, em vez de estimular o pensamento crítico, o combate. Não querem discussões estéticas, que preconceituosamente veem como "preconceito". Seus "pensadores" apenas são propagandistas do mercado brega-popularesco que se servem de uma retórica sofisticada, nos mais habilidosos recursos áudio-visuais em que misturam, a um só tempo, metodologia científica, jornalismo, publicidade e literatura.

Sim, porque para defender a mediocrização cultural que toma quase todos os espaços do país, jogando a MPB ao quase ostracismo e o antigo folclore brasileiro ao confinamento dos museus, esses intelectuais badalados mas pouco confiáveis usam de todos os discursos, da linguagem documentarista europeia até o recurso jornalístico do New Journalism e da abordagem histórica da História das Mentalidades.

A mediocrização cultural, que transforma as classes populares em "gado" para eventos de "cultura de massa", não raro a reboque da degradação de valores sócio-culturais a elas associados, é assim defendida numa campanha feita por intelectuais de elite para manter a manipulação midiática sobre o povo.

Com sua retórica sofisticada, a um só tempo, junta-se Tom Wolfe e Marc Bloch para defender, até mesmo, o que há de pior no "funk carioca", com reportagens escritas como se fossem romances e os ídolos funqueiros tratados historicamente como se fossem personagens saídos do anonimato.

Além disso, invertem-se os valores, classificando como "valores positivos" todos aqueles valores retrógrados conhecidos, mas vistos nas classes populares. Se o machismo, o racismo, a pedofilia, a narcofilia e o não-policiamento são negativos para as classes abastadas, eles são "positivos" quando situados no contexto das classes populares.

Em outras palavras, as classes pobres não podem ser gente. Quem pode ser "gente", dentro das periferias, é apenas uma pequena classe média recém-emancipada pela cooptação do mercado e da politicagem.

Fora isso, tanto faz haver muitos Pinheirinhos desalojados pelo mesmo "poder público" que patrocina seminários "fora do eixo", ou muitos Morros do Bumba deslizando e matando, que estando o mercadão popularesco a salvo, para a intelectualidade "divinizada", está tudo bem.

Enquanto isso, o que entendemos oficialmente como "cultura das periferias" não passa de mero empreendimento de empresários inescrupulosos que usam gente oriunda das classes populares para serem fantoches de ritmos e danças bastante duvidosos, que servem como "prato principal" de todo um triste espetáculo de mediocrização sócio-cultural que manipula ideologicamente as classes pobres, transformando-as em caricatura de si mesmas.

Em Portugal, talvez nem as tendências mais comerciais da música tenham o pretensiosismo pseudo-cultural que têm o comercialismo brega-popularesco brasileiro. É um fato tristemente inédito ver que tendências meramente comerciais da música brasileira tenham essa arrogância de se acharem "o novo folclore", "a verdadeira cultura", "o novo ativismo social", quando nada de tais "finalidades" chega sequer a cumprir.

Mediocridade cultural tomada de pretensiosismo e arrogância. Intelectuais badalados que se dizem "preconceitos" com muito preconceito contra o debate estético. E, quando a periferia ganha voz no establishment midiático, é através de ex-pobres cooptados pelo "sistema". Isso é Brasil. E, se descuidarmos, nossa cultura pode virar mais uma piada de português.

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