quinta-feira, 24 de maio de 2012

A CULTURA BRASILEIRA NÃO NASCEU EM 1967


Por Alexandre Figueiredo

Lendo os textos da intelectualidade divinizada, aquela que defende a "cultura de massa" como se fosse o "novo folclore multi-hiper-conectado e trans-meta-mundi-brasileiro", sabe-se que, quando ela evoca a MPB autêntica, ela dá prioridade às expressões que se deram depois de 1967.

Já mostramos que Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, é discípulo de Francis Fukuyama. E, se Fukuyama elegeu a queda do Muro de Berlim, em 1989, como o marco para sua tese de "fim da história", Sanches elegeu o Festival da Música Popular Brasileira, de 1967, para dar o seu "fim da história" para a MPB.

O próprio Sanches fala na ruptura do "muro de Berlim" que, de acordo com sua abordagem, separa o "popular" do "culto". Mas seus fãs, ingenuamente, imaginam que, depois de cair o muro de Berlim, aparecerá o socialismo trotskista, zapatista e guevariano. Não. Até aqui há uma analogia com Fukuyama. Se, depois de cair o Muro de Berlim, veio o neoliberalismo, na "queda do muro" de Sanches veio também o neoliberalismo na forma do brega-popularesco e da MPB "obediente".

Nota-se nos textos não só de Sanches, mas de outros similares, uma preocupação em abordar a história da MPB apenas a partir de 1967. Ou seja, para esses intelectuais, tidos como "unanimidade" por seus fãs, o nosso rico patrimônio cultural não tem mais de 45 anos de existência.

E o resto? Claro, os intelectuais etnocêntricos, com seu discurso habilidoso, vão arrumar desculpas e dizer que também valorizam a cultura anterior a 1967. Vão até estufar o peito e argumentar que temos mais de 500 anos de cultura. Mas eles sempre deixam claro, de uma forma ou de outra, que a sua "história da MPB" - ou melhor, o "fim da história" - não vai antes de 1967. Vejamos por que:

1) As manifestações artísticas que servem, para esses intelectuais, como ponto de partida para a cultura moderna e presente são aquelas que surgiram no bojo do Tropicalismo ou do ocaso da Jovem Guarda, referências utilizadas por eles.

2) Os artistas ou músicas anteriores a 1967 valorizados por esses intelectuais são aqueles que, pelo menos, gravavam discos nos anos 70 ou, no caso das músicas, eram gravadas por gente surgida no pós-Tropicalismo. Um exemplo: "Brasil Pandeiro", de Assis Valente (1911-1958), original de 1940 gravada em 1972 pelos Novos Baianos.

A intelectualidade, a partir dessa limitação cronológica, estabelece uma "pré-história" da MPB, lembrando que o "fim da história" fukuyamiano reduz a História a uma segunda pré-história. Assim, a "pré-história" da MPB é anterior à indústria do disco, e a "história" fukuyama-sancheana da MPB seria aquela situada entre 1900 (ano de surgimento da indústria fonográfica brasileira, através da carioca Casa Edison) e 1967.

POR QUE A MEMÓRIA CURTA?

O que leva esses intelectuais festejados e badalados a ver a cultura brasileira dessa forma não é difícil entender. Afinal, pensar a cultura para além dos limites retroativos de 1967 significa revelar segredos que comprometam a validade de visões como as de Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo, que claramente colocam o mercado em detrimento da sociedade.

Afinal, é dentro dos limites cronológicos dos últimos 45 anos que definem também os limites artísticos tolerados pela "segura" pregação ideológica desses intelectuais. Limites que envolvem, por exemplo, a noção de que as classes populares estão submetidas hoje a uma pretensa cultura imposta pelo rádio, TV e imprensa conservadores e voltada para interesses meramente comerciais.

Dessa forma, o povo pobre deixa de estar associado a um patrimônio cultural rico,  coisa que ficava clara sobretudo no século XIX pontuado de inúmeras rebeliões populares, ou então no período de 1930 a 1964, quando a música das classes pobres - de excelente qualidade, vale frisar - expressava um projeto de país nacionalista e popular.

Com o isolamento cronológico do que havia antes de 1967, oculta-se essa fase do povo pobre, enquanto se cria uma dicotomia entre as excentricidades performáticas pós-tropicalistas e o conservadorismo coitado dos bregas. E só isso cria um elitismo que permite a relação entre a mediocrização cultural dos povos pobres e o assistencialismo paternalista dos intelectuais defensores.

Há uma classe intelectualizada e criativa, cheia de músicos dotados de muita informação cultural, mas obedientes aos mecanismos da cultura de massa, para a qual exercem uma função de reforma, mas nunca de ruptura.

Por outro lado, há uma classe meio ingênua, artisticamente medíocre, que são os bregas, tolerados pela intelectualidade e pelos artistas de classe média e formação universitária, que, condescendentes com a mediocridade dos outros, os apoiam com o intuito, um tanto aproveitador, de promover sua vaidade através do respaldo paternalista.

Usam-se como pretextos a modernidade urbana do Brasil, que "não comporta" mais abordagens "velhas" de cultura popular, ou de perspectivas nacionalistas supostamente superadas.

Falam isso como se o brega não fosse velho, não fosse antiquado nem desenvolvido dentro de uma perspectiva provinciana. Mas o brega é feito com o povo olhando para baixo, do contrário da antiga cultura popular, em que o povo olhava para a frente, de peito erguido.

Mas, com esse exemplo a mais da memória curta, o mercado e seus intelectuais que, sem querer querendo, defendem tão somente as paradas de sucesso, o povo pobre vira refém de sua própria mediocrização cultural. Que, por sua vez, cria um círculo vicioso com o apoio, condescendente e paternalista, de intelectuais e artistas melhor informados.

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