quarta-feira, 16 de maio de 2012

A CRISE DE VEJA E AS CLASSES POPULARES


Por Alexandre Figueiredo

A revista Veja possui uma grande penetração nas classes populares. Sua enorme tiragem faz com que seus exemplares se espalhem não só nos ricos condomínios, mas mesmo nos conjuntos habitacionais populares.

Além disso, quando a edição de Veja torna-se datada, passando uma semana depois de editada, suas cópias passam a fazer carreira nos consultórios médicos, nas barbearias, nos salões de beleza, nas clínicas médicas, nas escolas.

Nem todo mundo tem consciência da crise ideológica que vive Veja. Roberto Civita é, para boa parte do povo, apenas um nome controverso de um empresário pouco conhecido, polêmico e controverso. Uns o veem como boa gente, seduzidos pelo sorriso bonachão dado em fotos sobre eventos sociais diversos.

Para tais pessoas, Reinaldo Azevedo é um ilustre desconhecido, um homem com jeitão de teólogo medieval que o cidadão comum não consegue entender, porque, de fato, Reinaldo não fala para o povo. E o povo nem se interessa em ouvi-lo ou saber se quer quem ele é.

No entanto, isso, que pode significar uma grande impopularidade para o violento colunista de Veja, o protege numa redoma de vidro por conta de sua baixa visibilidade. Porque a visibilidade que expõe para o sucesso é a mesma que expõe para o fracasso.E Reinaldo, sem aquela visibilidade que alguns de seus pares, como Miriam Leitão e Arnaldo Jabor, possuem, se protege do julgamento popular mais leigo.

Com isso, o caso de Veja e de seu comentarista que chama de "robôs" aqueles que usam o Twitter para combater sua querida revista não são devidamente entendidos pelo cidadão comum. A Rede Record e a Carta Capital até ajudam na divulgação dos escândalos. Mas isso quando o cidadão comum decide dar ouvidos a esses veículos. E se não der?

A Rede Record é a segunda colocada entre as redes de televisão do país. Mas, em muitos momentos e em certas capitais, dependendo das circunstâncias ela pode tanto ser líder em audiência como alcançar o terceiro ou o quarto lugar. Potencialmente só não é ameaçada pelas emissoras educativas da TV aberta, sempre em baixa por motivos já conhecidos e complexos.

Carta Capital, por sua vez, é a terceira colocada no mercado de revistas de informação. Por sorte, num contexto em que a revista Manchete, em "coma", só reaparece nas bancas através de edições especiais. Não fosse isso, seria a quarta colocada.

E tais constatações são vistas quando se trata de pessoas que se dispõem a ler. E aquelas que não se dispõem? E vale lembrar que, nas redes sociais da Internet, existem alguns oportunistas que se acham inteligentes por nada e odeiam seriamente o hábito de leitura.

Ou seja, tem muita gente que não pode ler, e gente que não quer ler. Tudo bem, tem a Rede Record, mas os reaças da Internet nem se interessam em ver as denúncias contra Veja. Para esses reaças pseudo-progressistas, atacar a Rede Globo é apenas pegar carona na indignação da moda, como é agora a Veja.

Mas chega a ser até risível alguém como o professor mineiro Eugênio Raggi atacar Veja se é dela que ele inspirou seu conhecido jeito reacionário de comentar nos fóruns de Internet, com seu pretenso populismo de casa grande, até na forma de ver a cultura popular, numa espécie de tradução "tropicalista" da "contundência" de Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, ou quase como um Olavo Carvalho vestido com as roupas de Carmem Miranda.

E aí? E quanto à Rede Record, será que a maioria vê o Domingo Espetacular, apresentado por Paulo Henrique Amorim? A preocupação é essa, porque a blogosfera progressista gostaria que o Domingo Espetacular tivesse a penetração popular que tem um Balanço Geral, que se limita a denunciar, quando muito, a corrupção das cidades do interior.

E sabemos muito bem que, embora formalmente o jornalismo da Rede Record seja um, na prática ele se divide em três. Há o jornalismo popularesco ancorado pelo Balanço Geral e "alimentado" pelo Fala Brasil. Há o jornalismo progressista de Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna, Luiz Carlos Azenha e Heloísa Vilela. E veio uma "terceira via", de um Heródoto Barbeiro inspirado no padrão "classe média" da TV Bandeirantes, asséptico e conservador.

Num certo sentido, há a disposição dessas três forças em compor uma frente única contra a grande mídia, mas até que ponto um telejornal policialesco irá abrir o espaço reservado normalmente para noticiar crimes suburbanos para denunciar as negociatas envolvendo Policarpo Jr. não se sabe como.

Carlinhos Cachoeira teria que mandar matar um carnavalesco por mês ou um taxista por semana para aparecer a todo momento no Balanço Geral. Ou teria que haver um vídeo de uma roda de "pagodão" em que ele estivesse presente. O fato dele ser banqueiro de bicho, como o Luizinho Drummond acusado de mandar matar o desafeto carnavalesco Mestre Marconi, não é suficiente para desviar a atenção dos editores policialescos acostumados a noticiar bandidos e encrenqueiros ou, quando muito, popozudas, craques "pegadores" e gente "pitoresca" em geral.

Só essa realidade, que é desagradável mas é a que realmente acontece, para vermos até que ponto Veja pode passar uma rasteira na opinião pública. E como pode repercutir a favor da revista sua arrogante pose de vítima, depois dos tuitaços em que a publicação do sr. Civita foi combatida.

Esse quadro pode nos fazer analisar as potencialidades e os limites de todo o questionamento que se faz contra um (ainda) poderoso veículo da imprensa escrita. Roberto Civita, além disso, pode se aproveitar de sua origem estrangeira para fugir do país, à primeira encrenca que bater às portas de sua casa.

Portanto, a crise de Veja está apenas no começo. Um bom começo, mas mesmo assim ainda um começo.

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