sábado, 12 de maio de 2012

A "CAMPANHA" CONTRA VEJA


Por Alexandre Figueiredo

Um editorial do jornal O Globo saiu em defesa da revista Veja, baseado na famosa tese de que não existe ilegalidade na relação entre Policarpo Jr., o chefe de redação da sucursal brasiliense da revista, e o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira.

Acusando os blogueiros progressistas de fazerem parte de um plano de "radicais do PT" para desmoralizar a revista de maior tiragem do país, o editorial procura falar em defesa do que a velha mídia entende por "liberdade de expressão" e "liberdade de imprensa", que na prática não são mais do que mera liberdade de empresa.

Na verdade, o que existe não é uma campanha feita a esmo para desmoralizar a revista Veja. O que existe é uma reação natural e coletiva contra os abusos, de extrema gravidade, cometidos pela revista do Grupo Abril. Uma reação que visa a recuperação de princípios éticos despedaçados constantemente pela velha grande mídia.

A revista Veja, hoje, até que dá uma boa aula de Jornalismo. É irônico, mas é verdade. Ela mostra o que NÃO deve ser feito em relação à profissão jornalística, sobretudo se aproveitar de um cargo de chefia de redação de uma sucursal para combinar ações ilegais para derrubar desafetos.

A Veja surgiu boa. Tinha profissionais de credibilidade como Mino Carta - o cara que hoje conduz Carta Capital - e Zuenir Ventura, pessoas que até hoje mostram suas lições de coerência e profissionalismo, de causar inveja a nomes como Merval Pereira e Reinaldo Azevedo, que apenas têm fama, mas cuja credibilidade, como jornalistas, é bastante duvidosa.

A foto que ilustra este texto mostra um caderno especial dedicado aos anos 60 cuja fotocópia eu tirei há alguns anos atrás, em Salvador. Foi lançado em 08 de outubro de 1969, com o AI-5 a todo vapor. Ventura e Carta já disseram, em várias oportunidades, sobre o jogo de cintura que tiveram para enfrentar essa verdadeira tempestade política, de lamentável e desastrosa lembrança, mostrando gente de triste lembrança como Sérgio Paranhos Fleury, Brilhante Ulstra, Cabo Anselmo (revelado dedo-duro de antigos colegas e de uma ex-namorada), Sylvio Frota, Capitão Guimarães (depois convertido a bicheiro e "chefão" do Carnaval carioca) e Henning Boilesen, entre outros.

Nesse contexto, a Veja surgiu como "irmã caçula" da transformadora revista Realidade, que adaptava a linguagem do New Journalism (Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer etc), que narrava notícias como se fossem romances ou diários de viagem, para a realidade brasileira, com uma equipe que, depois, veio a constituir nos pioneiros da mídia esquerdista brasileira, vários deles tendo fundado Caros Amigos, como Milton Severiano e o falecido Sérgio de Souza.

Ironicamente, o jovem Roberto Civita era editor-chefe do Grupo Abril e os jornalistas de Realidade e dos primórdios da Veja conviveram com o atual equivalente brasileiro do Cidadão Kane. Mas era uma época em que mesmo a imprensa mais conservadora contratava jornalistas de esquerda, menos por uma generosidade ideológica do que por uma questão mercadológica de contratar gente talentosa, porque, de fato, eram grandes jornalistas que integraram essas equipes.

Era a época de um veículo esquerdista bancado pela família Frias, da Folha de São Paulo, a paulista Folha da Tarde, trabalhado por gente como Cláudio Abramo, que logo em 1969 foi "endireitado" por Pimenta Neves (ele mesmo). E tinha o Jornal da Tarde, o JT, bancado pela família Mesquita e que tinha uma postura editorial parecida com Realidade, tendo entre seus jornalistas o próprio Carta e outro repórter de Realidade, José Hamilton Ribeiro, que perdeu uma perna ao cobrir in loco a Guerra do Vietnã e hoje é repórter do programa Globo Rural, da Rede Globo.

Também eram tempos em que o carioca Correio da Manhã esgotava seu potencial de luta contra a ditadura devido ao "quinto ato", e quando o Jornal da Bahia começava a ser perseguido por Antônio Carlos Magalhães, 21 anos antes deste entregar ao pupilo Mário Kertèsz (hoje um dos chefões da grande mídia baiana) o "controle" do antigo jornal, numa manobra semelhante ao que Octavio Frias de Oliveira fez com o trabalhista Última Hora, se apropriando da marca para evitar sua ressurreição nas bancas.

Era um período em que a grande imprensa, antes marcada por uma atuação profissional de seus jornalistas - cujos interesses não podiam ser confundidos com seus patrões, mas ainda era possível ambos conviverem harmoniosamente - , passava a colaborar abertamente com a ditadura militar, tanto que a Folha de São Paulo forneceu seus veículos para levar prisioneiros políticos para unidades do DOI-CODI e DOPS localizadas na capital paulista.

Mino Carta é tão estrangeiro quanto Roberto Civita. Ambos nasceram na Itália. Mas Mino Carta honrou muito mais o Brasil do que muito brasileiro nato, mas claramente "entreguista", fantoche do capitalismo norte-americano. Mino também não teve diploma de Jornalismo, mas compensava isso com sua prática responsável e voltada ao interesse público de prestar informação honesta e coerente. E talvez tenha sido diplomado, sim, mas tardiamente, como Doutor Honoris Causa pela Fundação Casper Líbero, uma homenagem que pode ser vista como um diploma para seu exercício verdadeiro de Jornalismo.

Daí Veja desvirtuou sua história, na medida em que, a partir dos anos 80, passou a adotar uma postura reacionária, sensacionalista, em que até uma longa reportagem sobre rádio atirava no coração da História ao destacar um barão da grande mídia que queria o fim do rádio AM. E a cada ano cometia violências em relação à ética jornalística, tratando ilustres falecidos com morbidez, magnatas e grandes capitalistas como santos e ativistas sociais como criminosos.

Dos anos 90 para cá, a situação só piorou. Enquanto tratava de forma melíflua os grandes magnatas, empresários e até especuladores financeiros, atacava os movimentos sociais. Se opunha claramente ao direito constitucional de se organizar movimentos sociais de trabalhadores, grupos indígenas, estudantes, donas de casa etc. E se opunha de forma raivosa, como se organizar tais movimentos fosse sinônimo de corrupção.

Isso criava uma raiva surda à atuação sócio-política, e da mesma forma que se criou uma histeria anti-Legislativo, confundindo a corrupção de muitos parlamentares como algo inerente a esse Poder institucional,  fazendo com que até jovens rebeldes optassem pela solução golpista de "fechar o Congresso", criou-se uma histeria que via, por exemplo, na própria organização de sindicatos e entidades estudantis uma prática de corrupção e parasitismo estatal.

Mas isso ainda era fichinha - apesar de gravíssimo - diante das práticas sujas que Veja fez para tentar derrubar aqueles que reagiam contra os abusos do neoliberalismo. E as críticas aos movimentos sociais acabaram indo às últimas consequências, ao reacionarismo gratuito, ao "calunismo", ao "denuncismo" barato, aos ataques verbais raivosos.

Chegou-se ao ponto de Reinaldo Azevedo escrever artigos bem mais raivosos do que Carlos Lacerda no passado. Pelo menos Lacerda, com todo seu reacionarismo, tinha uma brilhante inteligência e mesmo seu discurso mais ridículo era feito com uma interessante elaboração de palavras, frases e do modo de falar e escrever do jornalista e político udenista. Mas nem isso Reinaldo possui, porque ele é brutal e pouco habilidoso na sua retórica, tal qual seu coleguinha Diogo Mainardi.

Por isso reagimos a Veja porque ela colocou nas últimas consequências o golpismo midiático que, em outros momentos, pelo menos era melhor elaborado. Daí o convencimento da opinião pública da necessidade do golpe militar contra João Goulart, feito através da emulação da velha retórica catedrática que veio desde os tempos de Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e Olavo Bilac há mais de 100 anos atrás. De fato era uma retórica lamentável, mas tinha lá sua beleza formal, apesar da causa terrível que defendiam.

Mas as antigas desculpas perderam o sentido. A sociedade mudou e não dá mais para emular Joaquim Nabuco para defender valores retrógrados. Mesmo a retórica pseudo-modernista de um Pedro Alexandre Sanches ou a choradeira de um Paulo César Araújo já começam a perder crédito, tendo o mesmo sentido de decadência de um Reinaldo Azevedo ou um pedante Merval Pereira.

E hoje Veja, mais rabugenta do que Carlos Lacerda e sua antiga Tribuna da Imprensa, é combatida não pelo fato de ser um "influente" veículo de mídia, mas porque é a maior (ou a mais baixa?) expressão do reacionarismo e desonestidade jornalísticos, que põe a ética jornalística em risco, mediante as consequências funestas que esse jornalismo pode causar e já causou.

E se as Organizações Globo saem em defesa de Veja, "parceira" em muitas coberturas de seus veículos, O Globo, Rede Globo, Globo News e Época, é porque a coisa vai pegar ainda mais pesado ainda para a velha grande mídia, que sabe que perderá muito se deixar Veja sucumbir ao seu declínio vertiginoso.

Daí a reação e a acusação indevida da velha mídia de que a diversificada blogosfera progressista é "chapa-branca" e "petista radical", quando seus blogueiros estão muito mais acima e até alheios ao sectarismo político-partidário. Mas eles (isto é, nós) se unem ao interesse comum, que é o da verdadeira cidadania.

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