terça-feira, 8 de maio de 2012

BREGA-POPULARESCO E OS "MODERNOS VALORES SOCIAIS"


Por Alexandre Figueiredo

Machismo, bebedeira, racismo, alusão a estupro e consumo de drogas. O brega-popularesco, a dita "cultura popular" midiática, aquela que reclama que não é considerada "parte da MPB" por "puro preconceito", no entanto se envolve em episódios em que causam problemas os "modernos valores sociais" que defende.

Há poucos dias, o Ministério Público Federal, na sua unidade de Uberlândia, acatando denúncia da Ouvidoria Nacional, está investigando possível conteúdo racista no clipe de "Kong", música do cantor de sambrega Alexandre Pires, natural daquela cidade, com participação do funqueiro Mr. Catra na música e no clipe e do craque Neymar apenas no clipe.

Segundo o MPF, foram identificados elementos racistas como homens vestidos de macacos cercados de mulheres de biquíni, o que também indica uma postura machista, não declarada pelo órgão. Conforme o seu parecer, o refrão da música cita a palavra "Kong" várias vezes e depois diz: "“O bonde do kong não vacila, é instinto de leão com pegada de gorila ”. Pires já prestou depoimento mas o conteúdo do mesmo não foi revelado.

O que faz o mercado da suposta "verdadeira música popular", aquela dos vendedores de discos e lotadores de plateias mas que nada acrescenta de relevante à nossa cultura, apostar em valores retrógrados e duvidosos, é algo que não dá para entender, embora possamos inferir o caráter conservador e muitas vezes retrógrado desse mercado que é o da música brega e seus derivados.

E nota-se que o clipe racista é conduzido por dois negros, Alexandre Pires e Mr. Catra, além do mestiço Neymar, de ascendência indígena. O que faz mestiços ou negros investirem em músicas racistas é um mistério, mas isso não é novidade. O próprio "pagodão" baiano, já marcado por letras machistas de grupos como Pagodart, Oz Bambaz, Black Style, Uisminoufay, Saiddy Bamba e outros, também apela pela visão racista do negro, reduzido a um tarado e bobo alegre. O "funk carioca", do qual faz parte o machista Mr. Catra, também não está longe disso.

Não dá para entender o que o mercado faz com a veiculação desses baixos valores, sobretudo pela prática criminosa de racismo, usando os negros para explorarem uma visão pejorativa deles mesmos. E querem ainda se nivelarem a grandes artistas, como Agostinho dos Santos, Cartola, Ataulfo Alves e, atualmente, Djavan, Milton Nascimento e Gilberto Gil, ou de mulheres como Dona Ivone Lara e Zezé Motta, e vários outros que honram a negritude brasileira, cada um com seu brilho e talento próprios.

Porque não dá para comparar a MPB autêntica com esse brega-popularesco que aposta em valores baixos. Ninguém se torna "verdadeira MPB" porque meramente lota plateias, vende muitos discos, aparece na televisão, é ouvido pelos camelôs e feirantes e, para manter as aparências, grava covers de sucessos da MPB autêntica. A MPB requer respeito, e é o que ela está recebendo de menos, de muito pouco, usurpada pela invasão de bregas, neo-bregas e pós-bregas que tiram a MPB de seus próprios espaços de expressão.

Não bastasse o racismo, o machismo e a violência (do "funk carioca", expresso nos "injustiçados" proibidões), o brega-popularesco também aposta na bebedeira, na desordem social e até mesmo na embriaguez ao volante. E nem precisamos detalhar do caso do sucesso "Segura o Tchan", do É O Tchan, que apesar de ser tocado impunemente em festas infantis, faz clara alusão ao estupro, por sinal prática potencial de muitos pedófilos.

O sucesso "Vou Zuar e Beber", sucesso do grupo de forró-brega Garota Safada gravada também pelo ídolo de funk melody Latino e por algumas duplas do tal "sertanejo universitário", faz alusão implícita à baderna ou à promiscuidade sexual ("vou zuar") e à bebedeira ao volante ("vou locar uma van"). Ambos comportamentos de risco mas que são abertamente defendidos por vários internautas nas redes sociais da Internet.

No forró-brega e no "sertanejo universitário" - que através da tendência atual, o "sertanejo pegação", estabelece conexões mercadológicas com o forró-brega - , há muitas músicas que defendem o alcoolismo e o machismo. O sucesso "É tenso", da dupla Fernando e Sorocaba, vai pelo mesmo caminho, pois embora na letra o cantor admita ser "seu defeito", ele defende abertamente a bebedeira e a promiscuidade sexual. Vejamos:

"É meu defeito, eu bebo mesmo
Beijo mesmo, pego mesmo
E no outro dia nem me lembro.
É tenso!


Beijar: eu gosto.
Beber: adoro.
Qualquer lugar pra mim tá bom
Qualquer paixão me diverte
Tem farra, tô pronto!
Se é festa, me chama!
Sou sem frescura e sem limites."


E A INTELECTUALIDADE? PÕE NA CONTA DO GREGÓRIO

E o que faz a intelectualidade festiva com tudo isso? Põe na conta do Gregório de Matos, que faleceu há mais de 300 anos, mas que anda recebendo vários recibos de cientistas sociais e críticos musicais comprometidos com a causa brega-popularesca. O poeta do século XVII é usado (e usurpado) pela intelectualidade badalada de hoje para "justificar" as baixarias que ocorrem na dita "cultura popular" de hoje.

Ninguém questiona, e suas monografias, artigos, documentários, resenhas e reportagens acabam sempre se tornando meras propagandas do cardápio musical das rádios, como se o folclore do futuro estivesse nas mãos de gerentes executivos de rádios FM mais comerciais.

Para eles, os valores sociais mais baixos, presentes na música brega-popularesca - como o alcoolismo, o machismo, a promiscuidade sexual, a infidelidade conjugal e até a criminalidade e o racismo - "só" são negativos e retrógrados para as classes mais abastadas, enquanto para o povo pobre são "valores modernos" que "merecem ser respeitados e zelados".

Pura versão cafajeste do "outro". E questionar esses "valores modernos" é visto por esses mesmos intelectuais como "preconceito", e, pasmem, como "visão etnocêntrica", logo eles que são mais etnocêntricos do que o "etnocentrismo" que criticam, mais preconceituosos que os "preconceitos" que dizem combater.

Mas são "valores" que causam problemas com a Justiça e fazem com que uma deputada estadual, na Bahia, criasse uma lei contra eles. Reagimos contra essas baixarias e a intelectualidade festiva não gosta, condena, censura e ainda recebe aplausos entusiasmados das plateias lotadas e desavisadas.

Felizmente as coisas estão mudando e os aplausos não estão sendo grandes a ponto de abafar as críticas. Porque, quando a cidadania é ameaçada, não há desculpas que possam permitir a degradação cultural ocorrer impunemente. Quando a coisa pega pesado demais, já se pode reagir sem medo da choradeira intelectualoide.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...