sábado, 5 de maio de 2012

BRASIL E O PRECONCEITO CONTRA O ATO DE PENSAR


Por Alexandre Figueiredo

O ato de pensar o país, seus problemas e contradições sofre o preconceito daqueles que se incomodam com qualquer opinião crítica expressa.

Não raramente, o reacionarismo que vai desde os comentaristas políticos até os internautas mais desbocados toma um surto de nervosismo para disparar desaforos contra seus discordantes, ora com argumentos pedantes, ora com verdadeiras ofensas morais.

Tudo isso porque existem os defensores do chamado "estabelecido", dentro de uma visão ideológica "funcionalista" e conservadora, para a qual só os tecnocratas podem decidir e pensar o país, só os executivos da mídia podem desenvolver a cultura e só os jornalistas políticos podem expressar sua liberdade de opinião.

O "resto", ou seja, a sociedade composta pelo cidadão comum, não pode exercer seu senso crítico. Que todos nós aceitemos as barbaridades que a mídia e a política empurram. Tem internauta que decide até quem seu discordante deve namorar ou admirar, o que mostra quantos aprendizes de Reinaldo Azevedo, Merval Pereira e Eliane Cantanhede aparecem por trás de "moderninhos" jovens que falam muito palavrão e escrevem errado.

Essa patota toda pede, não sem qualquer irritação, para que o Brasil fique calado para que possa entrar no Primeiro Mundo. Deixe que as autoridades, tecnocratas e executivos de mídia decidam o que vão fazer, e o processo é típico daquele narrado (criticamente) por Maquiavel: não importam os meios, e sim os fins a serem atingidos.

Nos anos 90, os primórdios da Internet mostravam o fervor desse reacionarismo. Pior é que pouca gente percebia ou ficava com medo diante de alguma denúncia dessa realidade. "Não, não é bem assim, não há reacionarismo, você está exagerando...", era o comentário mais típico. É difícil para certas pessoas ver que rapazes e moças que falam palavrão, usam trajes informais e arrojados sejam capazes de um reacionarismo digna dos primórdios do macartismo.

Há um grande preconceito contra o ato de pensar. E isso se reflete tanto na grande imprensa, quando a blogosfera progressista é desmoralizada pelos comentaristas políticos, quanto no entretenimento, quando pessoas e movimentos como o Cinema Novo (sobretudo Glauber Rocha) e Chico Buarque são depreciados em nome do "fim do preconceito".

Nem mesmo o saudoso Millôr Fernandes, com seus alertas sobre essa farsa dos "sem preconceitos", no fundo muito mais preconceituosos do que imaginam, fez o Brasil despertar. O pessoal acaba mesmo mantendo o preconceito em relação à própria palavra "preconceito", e, "sem preconceitos", tornam-se extremamente preconceituosos.

Não se pode mais pensar sequer a arte e cultura. Nem o urbanismo ou a tal mobilidade urbana, nem a cidadania, nem a justiça social. A Educação não se pensa, vai a velha grande mídia mostrar moleques com caderno e lápis rabiscando qualquer coisa e depois vão ao campinho da escola jogar futebol e tudo bem. Ninguém questiona, ninguém analisa, todos aplaudem feito focas de circo.

Tenhamos que cruzar os braços para que o "trem do desenvolvimento", ou melhor, o "BRT do desenvolvimento", para citar um dos "cavalos de Tróia" da farra político-urbanista atual, seguir adiante. Mas o Brasil só entraria no Primeiro Mundo pelo faz-de-conta. Com o sufocamento ou, quando muito, a desvalorização do senso crítico, deixaremos que qualquer coisa aconteça para que tenhamos um progresso econômico de mentira, com mais consumismo, mais espetáculo e menos cidadania.

E aí, por debaixo dos panos, a prepotência, a corrupção, o tecnicismo, acontecem nos nossos bastidores. O povo sofre "alguns sacrifícios", que são muitos, e qualquer um que vier em solidariedade ao povo ganha, se depender o caso, um blogue ofensivo do internauta reaça que clona, de seu discordante, os textos deste por intenções levianas. Mas, geralmente, já bastam ao reaça de plantão as mensagens ofensivas nos fóruns e redes sociais da Internet.

No fundo, quem deve, teme. Os reacionários da Internet, "inocentes" jovens que temem o fim ou o desgaste do "estabelecido" - que é o que eles aprenderam na grande mídia, durante a década letárgica de 1990 - , despejam desaforos, ofensas ou represálias. Isso não os fará mais modernos, nem mais progressistas.

Pelo contrário, mostra o quanto há gente retrógrada travestida de moderna, protegida pela pouca idade, mas que defende valores como o "jeitinho brasileiro" e a "memória curta", além de dar um bom exemplo da onda de desinformação em que vivemos. E comprova o quanto eles, por mais que não assumam, beberam das fontes da velha grande mídia para desenvolver seus valores sociais, políticos, econômicos e culturais.

Depois não vão eles dizer que adoram Che Guevara.

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