sábado, 26 de maio de 2012

BARÕES DA MÍDIA NÃO GOSTAM DE RÁDIO AM


Por Alexandre Figueiredo

Ultimamente, ocorre um silencioso processo de "queima de arquivo" da historiografia radiofônica, com a decadência forçada e lenta do rádio AM, que há quase cem anos realizou sua história nem sempre com virtudes, mas que em outros tempos realizou grandes proezas e inegáveis progressos e virtudes.

Nos últimos tempos, o rádio AM se "proletarizou", enquanto todo o dinheiro se concentrava, de forma honesta ou desonesta, no rádio FM, mais barato porém com sérias limitações técnicas em relação ao AM.

Sabe-se que o rádio AM tinha um poder de irradiação enorme, que, dependendo da potência, poderia alcançar até mesmo áreas distantes. E o mito de que o rádio AM tem som ruim só se deve a emissoras com baixa potência, porque com alta potência e um bom investimento o som poderia se aproximar, tranquilamente, do rádio FM.

SEMPRE A VEJA

Em 27 de junho de 1984, a revista Veja, já na sua fase reacionária e sensacionalista, havia feito uma reportagem intitulada "Revolução das FMs", em que, através de uma entrevista com um dos chefões da mídia paulistana, pregava a extinção do rádio AM, transferindo o seu nicho de programação para a Frequência Modulada. É o que se chama de "Aemização do rádio FM".

A fórmula caça-níqueis visava favorecer a concentração de poder daqueles que poderiam tranquilamente migrar do AM para o FM, que eram poucos. E abriu caminho para que a política de concessões de rádio FM do presidente José Sarney e seu ministro Antônio Carlos Magalhães, em 1986 e 1987, ao presentear FMs para compadres políticos e empresariais, permitiu que estes, sem qualquer intimidade com o rádio, fizesse da Frequência Modulada uma caricatura grosseira das AMs populares.

Isso criou uma "febre" de "programas de locutor" e "jornadas esportivas" que prometiam "informação e prestação de serviço" mas entendiavam os ouvintes, a não ser aqueles desinformados e vulneráveis à manipulação midiática. E criou um desequilíbrio no rádio como um todo, melando com as já penosas tentativas de segmentação radiofônica, em que as FMs ficariam com a diversificação musical e as AMs com esportes, jornalismo e variedades.

SEGMENTAÇÃO EMPASTELADA

A Aemização das FMs deixou o rádio AM à margem e nivelou a Frequência Modulada por baixo. As rádios segmentadas foram primeiro empasteladas, transformadas em caricaturas. Assim, rádios tidas como "sofisticadas" trocaram, aos poucos, o antigo repertório de jazz, blues, soft rock e MPB pelo monocórdico hit-parade de sempre, o que acabou resultando no retorno daquele formato asséptico de rádios musicais com seus locutores monótonos, chamados pejorativamente de "leitores de bula".

Essas rádios, definidas "de pop adulto", já são jocosamente chamadas de "gagá contemporâneo", de tão patéticas que chegam a ser, tocando um pop qualquer nota em que qualquer nome estrangeiro que gravar uma música lenta é imediatamente tocado numa rádio do tipo, podendo ser até aquela horrenda armação empurrada pela indústria fonográfica dos EUA.

As rádios de rock, nem se fala. Aquela conduta transformadora de rádios realmente roqueiras, comandadas por radialistas realmente roqueiros, foram invadidas por locutores pop sem qualquer intimidade com o gênero, na verdade aspirantes a radialistas de FMs de sucessos populares que foram prejudicados pelo excesso de demanda.

Desse modo, o radialismo rock dos anos 80 perdia terreno pelo marketing de rádios canastronas que forçavam a barra na pose "roqueira", confundindo rebeldia com pavio-curto, ousadia com arrogância, enquanto o repertório tocado reduzia em qualidade, restrito apenas a sucessos manjados e acessíveis de rock autêntico e bandinhas de pseudo-rock domesticado (chamadas jocosamente de "popiróque") e de rock-farofa em geral (inclusive poser metal).

Isso mudou o foco do jabaculê, prática de corrupção ocorrida nos bastidores das FMs, mas tudo isso virou fichinha quando, com a Aemização das FMs, o futebol e mesmo o noticiário, tidos como "imunes" à prática jabazeira, passaram a ser envolvidos em esquemas de jabaculê piores do que aqueles que envolviam música. Com uma "vantagem": não tinha ECAD para repartir a "fatia do bolo".

O JABACULÊ MUDOU DE FOCO

A pressão da Aemização das FMs se fortaleceu desde os anos 90, mas em 2000 tornou-se mais organizada com as redes comandadas por grupos dominantes, como as Organizações Globo, o Grupo Bandeirantes, a Rede Transamérica (de propriedade de um banqueiro, Aloísio Faria) e outros.

Em 2002, um dos casos de jabaculê envolvendo futebol e rádio FM - corrupção que é pouco falada, mas que ninguém tem coragem de desmentir - foi uma grande soma financeira que Aloísio Faria recebeu do amigo Ricardo Teixeira, em gratidão à cobertura que a rádio daria pouco depois da "lamacenta" Copa do Mundo de 2002.

Na melhor das hipóteses, o jabaculê "esportivo" nas FMs resultava à prática "modesta" de subornar sindicatos de taxistas, porteiros de prédios, donos de botequins, frentistas de postos de gasolina, para sintonizá-las sobretudo durante jornadas esportivas.

Essa "audiência de aluguel" era feita quando tais FMs não conseguem grande audiência e tentam apelar até para a poluição sonora, mesmo tarde da noite, para forçar o aumento de audiência. Em certos casos, os produtores dessas FMs oferecem pagamento de contas de energia elétrica e de fornecimento de bebidas para os donos de botequins ou abatimento publicitário para estabelecimentos comerciais que sintonizassem uma tal emissora durante a transmissão de partidas de futebol.

Tudo isso faz o antigo jabaculê, aquele que envolvia só música, uma brincadeira de criança. Pior: o dinheiro envolvido chega a ser bem maior do que o jabaculê musical, chegando a servir de "caixa dois" dos dirigentes esportivos.

Uma denúncia desse porte, em Salvador, em dezembro de 2008, fez com que o ex-prefeito de Salvador e dublê de radialista Mário Kertèsz, dono da Rádio Metrópole FM, quase morresse de enfarte, uma reação que diz muito ao impacto causado pela corrupção descoberta, depois de anos confiando na impunidade.

AUDIÊNCIA REAGE, DESLIGANDO O RÁDIO

A queda de audiência das "FMs com roupagem de AM", embora não sensibilize os chefões do rádio brasileiro, é um fato que não pode ser menosprezado. Rádios que se supunha poderem ser campeãs de Ibope, com um formato "popular", não conseguem ir além da segunda metade do total de rádios mais ouvidas. Por exemplo, de um grupo de 15 FMs, uma FM "Aemizada" nunca chega acima do nono lugar. De um grupo de 32 FMs, chegar aos 16 já é uma façanha.

É sintomático, por exemplo, o caso da Band News Fluminense FM, que hoje ocupa a frequência da antiga rádio de rock Fluminense FM. A emissora, mesmo com a grife do Grupo Bandeirantes, não consegue superar um índice de audiência comparável ao que a Fluminense FM, numa fase mais decadente (1991-1994), teve, com uma humilhante média de 4 mil ouvintes por minuto, com o único pico de 15 mil ouvintes/minuto com o programa de Ricardo Boechat.

O Grupo Bandeirantes, que insiste na "Aemização" das FMs acreditando que o jornalismo está acima da sociedade (seu alarde sobre o "poder jornalístico" andou sendo abalado por episódios recentes com profissionais de suas rádios e TVs), agora aposta no Bradesco Sports FM, o antigo projeto Band Sports FM feito em parceria com o banco Bradesco.

Será mais uma rádio a viver longos anos com "traço" de audiência, de vez em quando "mascarados" pelos "ouvintes de aluguel" situados em táxis, bancas de jornais, guaritas de condomínios e, sobretudo, bares.

Tudo isso num contexto em que as pessoas têm muito o que fazer do que ficar ouvindo debates esportivos pedantes e noticiários tendenciosos. Os tempos mudam e, se o rádio AM está decadente e condenado à extinção, a decadência do rádio FM torna-se ainda mais acelerada.

A história do rádio é jogada no lixo, sem as rádios que, até os anos 80, eram referência para o país, e sem as AMs que ainda sobrevivem no vermelho. A dupla transmissão AM/FM de algumas redes não ajuda, a não ser no superfaturamento de seus donos, que com cada dupla de emissoras faturam duas vezes por um só trabalho, o que é ilegal.

Mas, para uma grande mídia que acha natural a revista Veja - que apoiou tanto a "Aemização" das FMs - negocie com bandidos as pautas de certas notícias, usar uma FM para repetir o mesmo trabalho de uma AM numa mesma região é muito, muito normal. Rupert Murdoch faz escola.

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