segunda-feira, 9 de abril de 2012

A VISÃO ELITISTA E "GLOBAL" DA NOVA CLASSE C


Por Alexandre Figueiredo

Diante do fortíssimo lobby que envolve a pseudo-cultura "popular" do brega-popularesco, a intelectualidade, quase que em uníssono, despeja todos os seus preconceitos mesmo quando se gaba em ser "sem preconceitos".

Isso porque ela vê o povo pobre de forma estereotipada, algo como um bando de selvagens que precisam ser domesticados pela mídia. E isso, pasmem, vem de gente que se diz "orgulhosa" de ter uma "consciência social".

Essa intelectualidade mal conhece as periferias em rondas apressadas pela cidade, ou nos documentários ingleses sobre a pobreza no Brasil. Não conhecem sequer o socialismo que dizem seguir, mal digerido por contatos superficiais com líderes sindicais. E estamos falando da intelectualidade dita de esquerda, que ainda choraminga quando se lembra de Waldick Soriano, Wando e José Augusto.

Mas na velha grande mídia a coisa é ainda mais explícita. Na edição de ontem, na coluna Gente Boa de O Globo, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, que havia despejado uma piadinha machista sobre as secretárias, estabelece uma visão preconceituosa da nova classe C, com direito até a um "manual" com doze ítens.

A visão estereotipada, como é de praxe de um colunista que normalmente realiza a cobertura dos "bacanas" - como são chamados, informalmente, os ricaços que aparecem no colunismo social, algo que Imbrahim Sued, antigo detentor do mesmo espaço do Gente Boa, definia como hi-so (high society) - , faz com que a nova classe C seja vista como uma espécie de "ralé" com mais vontade de consumo.

Sem se preocupar com aspectos como cidadania e valores sócio-culturais, Joaquim define a nova classe C da seguinte forma: "Não há personagem mais procurado no Brasil de hoje do que o integrante da nova classe C, aquela que invadiu o espaço nacional com mais dinheiro no bolso e necessidades específicas de consumir e se divertir. Mas, afinal, quem é esse cara?".

Boa pergunta. Afinal, trata-se de uma visão tipicamente gerencial. O cidadão da nova classe C é reduzido apenas a um público consumidor a mais, a colocar dinheiro no mercadão do entretenimento nacional. Só isso. Não se fala se a nova classe C terá costumes melhores, aprimorará seus conhecimentos ou se desapegará dos valores antigos, ligados à cafonice e ao grotesco.

Pelo contrário, o que se vê é que a mídia - sobretudo as Organizações Globo - tenta reforçar a mentalidade cafona e um tanto debilóide da nova classe C, para que o "estado de espírito" do que as elites intelectuais entendem como "periferia" seja mantido, para o bem do mercado dito "popular".

Fala-se até na nova classe C que ouve "forró, 'funk' e pagode", distorcendo a declaração do economista Sérgio Besserman (irmão do falecido casseta Bussunda) que acredita que a classe C superará o gosto popularesco. Sérgio afirma que o povo ouve popularesco, mas em breve fará fila no Teatro Municipal para ver um concerto de música clássica. Mas se for pela interpretação de Joaquim Ferreira dos Santos, a classe C continuará popularesca e espera poder ver Thiaguinho e Chitãozinho & Xororó cantando no Municipal.

Fora isso, o que se vê são apenas desejos de consumo diversos, incluindo celular novo, eletrodomésticos, canais de TV paga, carro Fiat Palio quatro portas, e por aí vai. Só consumo, só gasto de dinheiro. Ou seja, a nova classe C só serve para enriquecer as empresas, botar mais dinheiro no comércio e garantir o sucesso da grande mídia.

O texto de Joaquim Ferreira dos Santos reduziu o povo emergente a uma mera massa de consumidores. Sem cidadania, sem desejos reais de progresso humano. Trata-se apenas dos mesmos "novos ricos" da Era FHC, aquela visão estereotipada do povo pobre que se ascende socialmente sem deixar de ser grosseiro e vulgar. Para o bem do paternalismo elitista da intelectualidade etnocêntrica.

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