terça-feira, 10 de abril de 2012

REPROVAR O LIXO CULTURAL É "PRECONCEITO"?


Por Alexandre Figueiredo

A degradação cultural brasileira está indo a níveis extremos. E, o que é pior, conta com um violento lobby, uma legião de defensores, todo um esquema que sustenta financeira e ideologicamente todo esse brega-popularesco que nada contribui para a verdadeira cultura popular, aquela que não vive de lotadores de plateias.

Até agora não consigo entender por que intelectuais como Pedro Alexandre Sanches ainda são considerados por muitos "progressistas". Ele soa, como vemos, como um Francis Fukuyama tropicalista, com ecos de Fernando Henrique Cardoso, o mestre que o colonista-paçoca do Farofafá renega, mas do qual sofreu forte e decisiva influência no manifesto de seu pensamento.

Afinal, em muitos aspectos, Pedro Sanches mais parece um colunista de O Globo ou Folha de São Paulo do que num articulista de Caros Amigos e Fórum, ou de Carta Capital, que "expulsou" o colonista-paçoca assim que viu que ele alternava textos corretos sobre MPB antiga com defesas neuróticas da bregalhada reinante.

Pois ele e outros pares - Ronaldo Lemos, Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Roberto Albergaria, Milton Moura, Mônica Neves Leme e outros - se aproveitam da boa-fé de seus espectadores e leitores para defenderem a degradação cultural e desqualificarem quem tenta contestar os chamados "sucessos do povão".

Vários textos mostram as falhas ideológicas sérias desses pensadores, embora aparentemente eles continuem sendo "unanimidade" entre setores médios da opinião pública. Só mesmo alguém que se equipare a eles em visibilidade para conseguir contestá-los com êxito, virando o jogo em favor do senso crítico. Este blogue não tem sequer um terço da visibilidade de um Pedro Sanches, mas a gente vai tentando esclarecer as coisas.

MACHISMO, ALCOOLISMO, BAIXOS VALORES SÓCIO-CULTURAIS

Uma manobra que essa intelectualidade dominante faz é classificar de "preconceituoso" quem questiona a hegemonia do brega-popularesco. Para esses intelectuais, se os ídolos vendem muitos CDs, lotam plateias e elevam o Ibope de rádios e TVs, então eles "são a verdadeira cultura popular, quem não gosta deles é preconceituoso".

Seja com comentários jocosos e cafajestes (Milton Moura, Roberto Albergaria), seja com comentários nervosos e desesperados (Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna) ou então chorosos (Paulo César Araújo) e paternais (Ronaldo Lemos, Mônica Neves Leme), a defesa da degradação cultural brasileira torna-se um fenômeno preocupante na medida em que ele é feito nos cenários de expressão do pensamento progressista.

Pois o que se vê nessa "saudável cultura popular" veiculada por rádios e TVs, que lota plateias, vende CDs, eleva a venda de revistas que divulguem esses ídolos etc, é a veiculação dos mais baixos valores sócio-culturais impostos às classes populares.

Os ídolos mais "sofisticados" (leia-se nomes como Chitãozinho & Xororó, Thiaguinho etc) apostam em valores moralistas retrógrados, como se quisessem transmitir os ideais da "casa grande" para as favelas. Já os mais grotescos oferecem o pior, num aparente contraste com os "sofisticados", mas sempre dentro da degradação moral brasileira, seja pelo moralismo patriarcalista explícito, seja pela ausência de valores morais.

Mesmo o "elevado" brega "de raiz" dos anos 70 aposta também em cenários de degradação sócio-cultural. Os ideólogos do brega, a partir do próprio Paulo César Araújo, trabalham a cena brega geralmente como um antro suburbano que inclui prostíbulos, bares com velhos embriagados, camelôs vendendo material contrabandeado ou sucata, gente sem consciência de si própria, seja culturalmente, seja socialmente.

Mas se os "sertanejos" que exaltam os valores da família à maneira da Opus Dei são capazes de cantar músicas sobre cerveja e cantores de "pagode romântico" podem se cercar de más companhias ou provocar acidentes de carro por puro despreparo no volante, os estilos claramente grotescos oferecem isso e coisas ainda piores.

QUEIXAS EM TODO O PAÍS.

As queixas ocorrem em todo o país, e são as mesmas, embora os estilos variem aparentemente. Pode ser o tecnobrega do Pará, o "funk carioca" do Rio de Janeiro, o "sertanejo universitário" de Goiás, o forró-brega do Ceará e o "pagodão pornográfico" da Bahia que as reclamações são quase sempre as mesmas.

Elas citam o machismo, o incentivo ao alcoolismo, à embriaguez no volante, à criminalidade, à violência entre torcidas, entre outras coisas. O grupo Garota Safada, ícone do forró-brega, por exemplo, gravou uma canção que estimula a embriaguez no volante, "Vou Zuar e vou Beber", em que fala que depois o cara vai "alugar uma van". A música também foi "emprestada" para o repertório dos "sertanejos universitários".

O grupo baiano Black Style, do refrão "Me dá a patinha, safadinha", mostrado numa reportagem de TV sobre a lei contra a baixaria musical em Salvador, é outro ícone da degradação cultural. É um dos grupos de "pagodão pornográfico", estilo que há muito apostava na degradação da imagem da mulher, através de letras grotescas e o rebolado quase andrógino dos vocalistas desses grupos.

Os grupos de "pagodão" baianos também apostam numa imagem caricata do negro baiano, transformando-o num misto de bobo alegre com tarado, o que poderia ser uma manifestação de racismo contra os próprios negros. Mas num país que deixou a ditadura demolir os referenciais de ética e moral na sociedade, tudo isso acaba sendo visto como uma "brincadeira" por gente como o "tarimbado" antropólogo Roberto Albergaria, que ainda vê na degradação cultural brasileira uma saudável "autoesculhambação".

No "funk carioca", é notória a veiculação de valores mais baixos, e o ritmo expressa a degradação cultural levada às últimas consequências. Entre outros desastres, o "funk carioca" defende desde a apologia à miséria até mesmo o fim do policiamento nas favelas, o que faz com que os moradores dessas comunidades sofram a insegurança e sejam reféns das facções criminais que dominam esses lugares.

OS MALES DA "AUTOESCULHAMBAÇÃO"

A máscara cai quando esses intelectuais "divinizados" expressam seu neurótico mas "positivo" elitismo tentando "relativizar" a degradação cultural com um discurso que a promova como "grande coisa", como algo "positivo" para nossa sociedade.

Isso se dá de forma cruel. A degradação de valores sócio-culturais nas classes populares é vista por essa intelectualidade da forma mais cínica e cafajeste possível. "Pode ser que a gente veja nessas expressões a degradação cultural da nossa sociedade, mas para o povo das periferias, que sabe das coisas mais do que nós (sic), isso é felicidade, é uma outra forma de desenvolver o progresso moral e social em nosso país", é o discurso mais comum.

Pois essa afirmação, quando dita, rende aplausos das plateias pouco esclarecidas. O povo pode se degradar moralmente, culturalmente e socialmente, entregue ao desemprego, à prostituição e ao alcoolismo,. que isso são "valores positivos" das classes populares, uma "felicidade" que "a gente não consegue entender".

Quer dizer, somos "preconceituosos" quando reprovamos o lixo cultural, porque ele, em tese, faz o povo pobre "mais feliz". A intelectualidade etnocêntrica deita e rola conosco, nós que expressamos nosso senso crítico e observamos melhor as coisas do que muito intelectual que é aplaudido até quando dá espirro na plateia.

Ver que existem cientistas sociais e críticos musicais empenhados em defender a mediocrização, ou, pior, a degradação da nossa cultura, é até algo mais grave do que a ignorância a que um povo sem escolaridade sucumbe e que o faz consumir o lixo cultural despejado pela mídia e pelo mercado. Porque aqueles que deveriam lutar a favor de nossa cultura acabam, num discurso habilidoso, lutando contra ela. Com muito mais preconceito do que aqueles que esses intelectuais dizem combater.

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