domingo, 22 de abril de 2012

QUANDO RELATIVIZAR, NA CULTURA, PERDE O SENTIDO


Por Alexandre Figueiredo

Para a intelectualidade festejada, que apesar de ser pouco confiável é aplaudida e santificada pela opinião pública média, temos que acreditar numa "meia soberania" cultural e numa "meia criatividade" do povo.

O excesso de relativismo, condenado por antropólogos sérios como Claude Levi Strauss e Clifford Geertz, faz corromper a visão que costuma-se ter sobre cultura brasileira a níveis bastante grosseiros.

No que se diz à brasilidade, o que se vê, nesse discurso intelectual, é uma visão muito confusa do que são identidades nacionais e uma interpretação distorcida sobre a questão das influências estrangeiras.

Confundem-se alhos com bugalhos, junta-se mais o joio com o trigo, tudo por conta de um discurso pseudo-modernista e grotescamente "globalizado", uma verdadeira gororoba discursiva que mistura teorias da Informática dos anos 90, filantropia pop dos anos 80 e o que havia de menos inconformista no Tropicalismo, já na fase pré-Máfia do Dendê dos anos 70, com Tom Zé deixado de lado e Torquato Neto na pátria espiritual.

Por isso é que, quando vemos casos do "sertanejo" que se preocupa mais em imitar a country music com alguns elementos de mariachis e boleros, o intelectualóide da moda acha isso maravilhoso, porque acredita que o povo pobre do interior, teoricamente associado aos músicos "sertanejos" - embora estes já sejam vinculados ao esquema comercial dos barões da mídia e dos latifundiários - , passou a estar em "contato" com o mundo.

NÃO EXISTE "MEIA SOBERANIA"

Imagine um antropólogo ou sociólogo, que geralmente vive num condomínio de luxo, mas que se veste como hippie ou grunge para não despertar suspeitas nos seus alunos, e que acha ótimo que o povo de Goiás ou do Acre saibam das novidades tex-mex de Nashville (tex-mex é uma variação do Nashville Sound, este um country já mais pop, só que acrescido de influências mexicanas), enquanto mal conhece da realidade de seu lugar.

A "realidade" que os nossos caipiras conhecem, na visão "generosa" do festejado intelectual, não é mais do que um estereótipo asséptico do caipira brasileiro, uma visão caricata, conformista, até mesmo imbecilizada. E é de dar pena que muitos analistas de esquerda tenham saído do cinema, depois de ver Os Dois Filhos de Francisco, sem ter a menor ideia de que viram um dramalhão.

Existem conflitos de terra, o poder latifundiário se estende pela mídia, patrocinando - e patrocina, mesmo!! - todo o esquema de entretenimento que envolve os "maravilhosos" breganejos, tecnobregas e ídolos do forró-brega, mas a intelectualidade não quer saber. Ela prefere acreditar que aquilo que entendem como "cultura popular" está isolado numa bolinha de cristal, como tantos brinquedinhos de natal tão lindos de se ver.

Não dá para relativizar as coisas. Não existe "meia soberania", não existe "meia criatividade". Se o brega-popularesco representa a perda de nossas identidades culturais, não é o fato de que historicamente desenvolvemos nossa soberania cultural através da interferência estrangeira que vá justificar a validade da pseudo-cultura que hoje domina o mercado.

Até porque uma coisa é desenvolvermos nossa identidade cultural através do convívio social das comunidades, com a saudável assimilação de elementos estrangeiros que venham se somar às nossas compreensões e hábitos locais.

INTERESSES COMERCIAIS

Mas outra coisa é desenvolver uma "meia identidade" através do que o rádio, a TV e a imprensa escrita dominantes impõem e o povo consome passivamente. Em que pese parte do povo pobre ser recrutada, ano após ano, para personificar o espetáculo do entretenimento popularesco (o que a intelectualidade entende oficialmente como "cultura das periferias"), é um processo decidido de cima para baixo, pelos barões da mídia locais. E os elementos estrangeiros são assimilados de forma subordinada, o que não é difícil de se endenter.

Afinal, no entretenimento brega-popularesco, resultante de todo um sistema de valores decidido de cima para baixo pela mídia regional dominante, impõe os elementos estrangeiros não como forma de enriquecer expressões e visões culturais locais, mas de enfraquecê-las. Afinal, esse entretenimento desmantela identidades locais até para satisfazer interesses comerciais da mídia dominante.

Por isso não existe a "criatividade" através da mediocrização cultural, nem "identidades culturais" por meio de influências estrangeiras impostas pela grande mídia. Vale lembrar, e muito bem, que a influência de culturas estrangeiras imposta pela grande mídia não deve de forma alguma ser confundida com a assimilação natural espontânea de pessoas com forte auto-estima cultural.

Até quando temos que explicar e esclarecer tais diferenças, não se sabe. Afinal, a intelectualidade que está aí usa e abusa do relativismo no seu discurso. Não somente para relativizar a mediocridade cultural como uma pretensa "criatividade intuitiva do povo pobre" ou para relativizar o desmantelamento das identidades culturais como se fosse uma "transformação e adaptação aos novos tempos". Eles relativizam tudo, até demais.

PLATEIA IGUAL A DO PADRE MARCELO ROSSI

Relativizam o discurso, misturando teses e métodos científicos com persuasão publicitária, raciocínio esotérico, pregações religiosas. Tudo vira um espetáculo, a partir de "sacerdotes" como Paulo César Araújo, Roberto Albergaria, Milton Moura, Pedro Alexandre Sanches e os "cientistas" Hermano Vianna e Ronaldo Lemos. Mas, no fundo, a plateia que assiste a eles não difere muito às plateias do padre Marcelo Rossi.

Afinal, esses intelectuais não são analisados. São apreciados, numa tietagem escancarada, não raro piegas, induzida a choramingar por ídolos "coitadinhos" como Waldick Soriano e Wando, José Augusto e Amado Batista. Não há um raciocínio crítico, analítico ou coisa parecida, apenas as pessoas creem no que um Paulo César Araújo disser, a visibilidade dele o redime de qualquer bobagem.

Com esse excesso de relativização, só podemos afirmar que não seguimos um caminho. Pois ele não é mais do que um "meio caminho". O Brasil insiste em se "evoluir" pela metade, sonhando com uma "revolução sócio-cultural" dentro das estruturas de poder do entretenimento midiático vigente.

O Brasil não cresce de forma substancial, porque depende sempre de "meias mudanças", paliativos que uns se arrogam e se enganam em crer como soluções para a humanidade. E isso inclui a cultura. Se for pelo caminho que está sendo tomado, o Brasil nunca se tornará uma potência mundial, tendo de se contentar em ser um reles quintalzinho do Primeiro Mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...