sexta-feira, 20 de abril de 2012

QUANDO O BREGA-POPULARESCO NÃO RECONHECE MAIS SEUS ESPAÇOS


Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, um conhecido ídolo do sambrega declarou a intenção de gravar dueto com um cantor estrangeiro de jazz, já veterano.

Mas isso é um só detalhe diante do esforço do brega-popularesco em tentar driblar o natural desgaste tentando se vender para o mundo. Vide o "fenômeno" Michel Teló, que pode até de fato fazer sucesso nas paradas do mundo inteiro, mas nem por isso chega, mesmo de longe, a representar qualquer transformação no âmbito da música brasileira.

Claro, juntando o pretensiosismo que tomou conta dos neo-bregas da geração de 1990-2000 e nos pós-bregas (no qual se inserem nomes pós-MTV como Michel Teló, Mr. Catra e Gaby Amarantos) com a estrutura financeira e administrativa impecáveis, dá para perceber o quanto a mediocrização musical brasileira não mede esforços para ampliar seus mercados.

São dois Brasis. Enquanto o Rock Brasil e a MPB autêntica perdem espaços nas casas de espetáculos, o brega-popularesco amplia mercados, sem ter a exata noção de que público quer realmente atingir, a não ser que seja qualquer um que tenha qualquer poder aquisitivo.

Isso causa efeitos sérios na nossa cultura, que sofre uma degradação apoiada por um forte lobby que inclui empresários, barões da grande mídia e intelectuais, um lobby fortíssimo que já começa a tentar sufocar as expressões alternativas que não participam do "esquemão".

Ou seja, quem não participa do "esquema", sai fora. Se o artista performático se recusa a gravar dueto com Odair José, não tem vez naquele festival estudantil da moda. Se o músico de Rock Brasil se recusar a tocar com Gaby Amarantos ou Mr. Catra, não tem vez naquele festival musical do Nordeste. Se o velho cantor de MPB autêntica não gravar dueto com Chitãozinho & Xororó, não tem acesso na TV. E por aí vai.

E agora o brega-popularesco não mede mais espaços. Não está contente com os espaços que tem, com o público que, às custas do marketing midiático, lhe tornou fiel. Quer ampliar espaços, sem medir escrúpulos em sufocar as demais manifestações sociais que não acatarem associar-se aos ídolos popularescos.

Enquanto ídolos brega-popularescos invadem festivais de MPB e ensaios de Rock Brasil, vemos músicos de Bossa Nova e Rock Brasil caírem no esquecimento. Músicos de rua que tocam música de verdade ficarem na rua da amargura. Músicos caipiras autênticos caírem no esquecimento ou se consolando com festas familiares de sua cidade.

Músicos comprometidos com a cultura brasileira de verdade - claro que não estamos falando de lotadores de plateias - são vistos como "chatos" e "insuportáveis", como "velhos desprezíveis". E caem no esquecimento, como aposentados desprezados pelos próprios parentes.

Pois num país em que é mais fácil ver Jorge & Matheus tocando num festival de rock - afinal, o "sertanejo universitário", esperto, já dispõe de guitarras elétricas e muito puxa-saquismo ao cantor Neil Young, do qual os "sertanejos" só ouviram falar de nome - , dá para ver que, nos últimos anos, são músicos como o falecido Lúcio Alves e, mais recentemente, o outrora músico da Legião Urbana, Renato Rocha, que são condenados à miséria e ao abandono.

Pois os grandes músicos, os grandes pesquisadores de música, os grandes artistas começam a ser desprezados, isso quando não são depreciados, como Chico Buarque e João Gilberto, para o qual certos críticos musicais, cientistas sociais ou mesmo troleiros gostariam de ver mendigando nos arredores da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro.

A degradação cultural, a mediocrização musical e outras barbaridades se ascendem de tal forma que nosso país perde a identidade cultural, joga fora seu patrimônio, tudo por conta de um relativismo boçal que faz com que todo o espetáculo midiático de músicas, musas e valores medíocres ou grotescos tomasse os espaços mais inimagináveis possíveis.

Isso tem um nome: megalomania. O brega-popularesco, insatisfeito com seus próprios espaços, quer os espaços dos outros. Mais uma vez se reclama disso aqui: afinal, o brega-popularesco insiste nisso, embora reclame de supostas "faltas de espaço".


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