domingo, 29 de abril de 2012

OS "PARCEIROS" DE TIO SAM NAS MANOBRAS CULTURAIS NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Discretamente, o capitalismo norte-americano sempre se empenhou em fazer manobras no âmbito da cultura e do entretenimento nos países menos desenvolvidos.

Desde o New Deal do presidente Franklin Roosevelt, há cerca de 70 anos, os EUA tentam enfraquecer culturalmente o Brasil para que a dominação político e econômica do país de Tio Sam seja menos dolorosa e traumática.

Muitos veem nesta constatação uma visão paranoica de quem não entende os "tempos modernos" em que vivemos. Infelizmente, muitas pessoas enxergam a realidade concreta como se ela fosse extensão da realidade virtual, e nesta abordagem inclui sobretudo uma perspectiva "globalizante" que faz muitos aceitarem ver o Brasil se transformar num mero playground do G-7, em soberania, sem cidadania plena e apenas com mais consumismo.

É através dessa abordagem que verdadeiras armadilhas são lançadas sem que muitos despertem qualquer suspeita. E, o que é pior, elas causam deslumbramentos, que fazem com que muita gente desavisada e desprevenida aplauda seus porta-vozes sem esboçar qualquer visão crítica da coisa.

E três figuras aparentemente diferentes parecem caminhar pelo mesmo horizonte ideológico que hoje representa o projeto neoliberal de enfraquecer culturalmente nosso país. Isso enquanto os barões do entretenimento despejam suas fortunas para transformar o hype do cantor breganejo Michel Teló num "fenômeno mundial sem proporções na nossa história".

Essas figuras são o jornalista Rosenthal Calmon Alves, o músico Pablo Capilé e o advogado especializado em Tecnologia da Informação, Ronaldo Lemos. Todos, a princípio, cortejados por setores médios e mais acomodados da chamada opinião pública de esquerda mais mediana.

ROSENTHAL, CAPILÉ E RONALDO

Rosenthal é um jornalista conservador que comanda o projeto Jornalismo nas Américas do Centro Knight em parceria com a Universidade do Texas. O projeto, aparentemente, tem por fim integrar os jornalistas do continente americano e aperfeiçoar a prática profissional da imprensa de todos os seus países.

O Jornalismo nas Américas, que deslumbra a quase todos que nunca ouviram falar no New Deal de Franklin Roosevelt nem na Aliança para o Progresso de John Kennedy, aparentemente aposta numa visão "imparcial", adotada sobretudo por seu presidente. Mas Rosenthal já deixou vazar posições bastante conservadoras, condenando sutilmente o Wikileaks e elogiando entusiasmadamente a blogueira neoliberal Yoani Sanchez.

Pablo Capilé é um músico "performático" mato-grossense que fundou o Coletivo Fora do Eixo, instituição que articula produtores culturais, jornalistas, educadores e ONGs. Aparentemente, o FdE, como é conhecida a sua sigla, pretende organizar e profissionalizar a cultura alternativa no Brasil, mas sua prática deixou bem claro que o "coletivo" apenas quer realimentar o mercado de entretenimento no Brasil.

Esse propósito tornou-se explícito quando vários dos artistas associados - Capilé, Emicida, Criolo, Teatro Mágico, Felipe Cordeiro (Kitsch Pop Cult) - passaram a ser generosamente divulgados pela Folha de São Paulo e pelas Organizações Globo. Até mesmo Caras e Veja dão espaço para eles.

E tem também o guru do Fora do Eixo, o advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas, Ronaldo Lemos. Ideólogo do chamado "negócio aberto", ele compartilha das mesmas visões de "novas mídias" de Rosenthal, o que dá aos três citados o mesmo paralelismo ideológico do processo que está por trás desse discurso generoso.

NEO-NEOLIBERALISMO

Todos os três, embora tentem tingir seus discursos com um verniz vanguardista, demonstram ser figuras de ponta de uma visão mais renovada de neoliberalismo, o neo-neoliberalismo. Seus discursos enfatizam as novidades tecnológicas, até de uma forma exagerada, como se elas não fossem as ferramentas e sim os processos por si só de transformação social da humanidade.

Juntando princípios de "integração" profissional dos jornalistas, "flexibilização" dos direitos autorais e "informatização" da cidadania, as três iniciativas - Jornalismo nas Américas, Fora do Eixo e "negócio aberto" - incluem, no entanto, um processo de controle ideológico da Comunicação, a mediocrização cultural e a desregulamentação do mercado cultural, além da concentração do poder das empresas de informática e telecomunicações.

Dá para perceber que o discurso dos três em nenhum momento assusta os barões da grande mídia, que costumam se irritar com o menor beliscão de seus opositores. Se o "maravilhoso" projeto de Rosenthal Calmon Alves, em vez de assustar, ganha a simpatia de gente como Merval Pereira, Demétrio Magnoli, Miriam Leitão e o membro da Opus Dei Carlos Alberto di Franco, é bom desconfiar do "bom cavalheiro" do Centro Knight.

Da mesma forma, Capilé e Lemos também não assustam a grande mídia. O próprio Lemos escreve para o mesmo Estadão de Carlos Alberto di Franco, compartilhando com este as mesmas visões tecnocráticas sobre "novas mídias digitais". E os "fora do eixo" estão cada vez mais dentro da mídia, aparecendo na Rede Globo e nas páginas da Folha, ou entrando até mesmo em Caras. E com direito a desmentir toda essa realidade a olhos vistos nos vários seminários do "coletivo".

SOROS-POSITIVOS

Por trás desses projetos, há a "gorjeta generosa" do especulador financeiro e empresário George Soros. Figura destacada do Fórum Econômico Mundial, que ocorre anualmente em Davos, na Suíça, Soros é um intransigente defensor dos princípios neoliberais e, em 2010, tornou-se conhecido pela sua radical defesa pela vitória do presidenciável José Serra nas eleições daquele ano.

Mas Soros, brincando de ser o "dono do mundo",  tentou cooptar para si os movimentos sociais, juntos a entidades "irmãs" como a Fundação Ford e a Fundação Rockefeller. Todos eles numa perspectiva de "poder brando" de dominar os países emergentes e pobres de forma sutil, sem mais a prática de coerção política nem o patrocínio de golpes e ditaduras, mas de evitar que transformações radicais, que abalem as estruturas de poder, sejam realizadas.

A dominação cultural, nesta perspectiva, não reprime o pensamento crítico de forma direta, mas tenta domesticar algumas iniciativas de transformação e mobilização sociais, fazendo prevalecer o discurso mais "moderado", que não incomoda os detentores do poder econômico internacionais.

Por isso, cria-se uma intelectualidade "soros-positiva", que cumpra a missão determinada pelo "generoso" investidor. Soros é, aliás, mentor original da teoria do "mercado aberto", que por trás de sua "transparente" tese de "flexibilização", esconde todo um processo de subemprego e desqualificação profissional nas áreas da cultura e do entretenimento.

Ou seja, por trás de todas essas iniciativas, teremos jornalistas a escrever bem, mas a raciocinar de forma limitada, conforme o padrão neoliberal de visão de mundo. Teremos uma cultura calcada na mediocridade, onde a vontade dos barões do entretenimento prevalece sobre os artistas (a não ser alguns mais "articulados", podendo ser um Pablo Capilé ou uma Gaby Amarantos, em que pese a mediocridade musical desta).

E tudo isso dando a impressão de uma "grandiosa revolução sócio-cultural", segundo imaginam os incautos. Mas todo esse processo visa apenas reciclar as velhas estruturas de poder, da mídia e do entretenimento, da economia e da cultura, já existentes, quando muito com novos personagens dirigentes, mas sempre com os mesmos velhos princípios agora tingidos de "novos".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...