sexta-feira, 13 de abril de 2012

MPB ESQUERDISTA É (REALMENTE) VÍTIMA DE PRECONCEITO


Por Alexandre Figueiredo

Vá entender uma intelectualidade cultural que se gaba de ser "de esquerda" se preocupar em fazer duros ataques à MPB esquerdista, agora tida como a "vilã", o "bode expiatório" de todos os (supostos) males da cultura brasileira.

Tudo agora é culpa da MPB esquerdista: o patrulhamento, o elitismo, o moralismo, o purismo, entre outras manias atribuídas a seus artistas.

E quem são seus artistas? São aqueles que, aproveitando as lições da Bossa Nova, no entanto aderiram ao idealismo dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE), fizeram o que hoje os historiadores consideram a moderna MPB dos festivais da canção dos anos 60. Juntava-se a sofisticação da Bossa Nova com a preocupação em aliar temas de protesto e canção de raiz dos CPCs e, pronto, temos a MPB esquerdista.

Seus símbolos: Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Elis Regina, Gonzaguinha, Sidney Miller, MPB-4, Carlinhos Lyra, Milton Nascimento, Marília Medalha, entre outros. Mas o maior símbolo desse pessoal todo é o arrojado filho de um conhecido e prestigiado historiador, Sérgio Buarque de Hollanda.

Pois este rapaz, Francisco, com pinta de galã e um tanto rebelde, tornou-se o nosso conhecido compositor e cantor Chico Buarque, de uma expressiva e intensa produção musical, que segue até hoje, mantendo sempre a qualidade melódica, a integridade e a dignidade artísticas.

No entanto, Chico Buarque virou o maior vilão da música brasileira, a criatura mais detestável por conta de uma intelectualidade influente que se diz "de esquerda" e anda enganando até mesmo os leitores de Caros Amigos e Fórum.

Para piorar, esses intelectuais defendem, com seus discursos altamente apelativos, a degradação cultural do brega-popularesco como se ela fosse a salvação da humanidade no Brasil. E não é preciso muito esforço para saber por que essa intelectualidade "divinizada" parte para cima do cantor e compositor de "A Banda".

CHICO TEM ATITUDE E OPINIÕES PRÓPRIAS

Chico Buarque é difícil para o mercado. Chico tem atitudes e opiniões próprias, tem uma visão coerente da realidade de nosso país. Ele pode ter nascido em berço de ouro, ou quase isso, mas ele tem muito mais simplicidade que muito ídolo brega que só vive reclamando da falta de espaço que não lhe existe.

Do contrário, os ídolos brega-popularescos têm um quê de ingênuos, de submissos, de conservadores. Waldick Soriano é claramente conservador. Wando fez uma canção de pseudo-protesto que apenas homenageava um líder comunitário, como qualquer letra que homenageia poeta, por exemplo. E os ídolos "populares" de hoje também são incapazes de fazer uma entrevista com opiniões consistentes.

Aliás, chega a ser risível - ou não seria chorável? - que essa intelectualidade tão festejada, de parte de Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e companhia, tenha que recorrer à pieguice para justificar seus pontos de vista.

É o ídolo-coitadinho, que reclama de uma suposta falta de espaço na grande mídia, "gente simples", entre aspas mesmo, que vendeu um milhão de discos, mas se acha massacrado porque dois ou três críticos musicais e talvez um acadêmico falaram mal dele. Ou é o ingênuo ídolo do neo-brega dos anos 90 que aceita as manobras do mercado, e cujas entrevistas só fala das intimidades dele com a família, da (já superada) origem humilde, como se fizesse marketing de sua própria pobreza original.

POR QUE A MPB ESQUERDISTA É TÃO ATACADA

A MPB esquerdista é duramente atacada por essa intelectualidade soros-positiva - assim chamada pelas "gorjetas" que figuras como George Soros, uma das estrelas do Fórum Econômico Mundial, dá para instituições e movimentos engajados com o "negócio aberto" que conduz a suposta "cultura das periferias" de hoje - porque ela não adota as posturas condescendentes que nossa "corajosa" intelectualidade de hoje, que vai de um machista tipo os baianos Roberto Albergaria e Milton Moura até um tecnocrata como Ronaldo Lemos, adotam em relação à "cultura de massa".

A MPB esquerdista defendia a soberania cultural brasileira, mesmo assimilando influências estrangeiras, apesar de, nos anos 60, haver uma séria desconfiança com o rock e com a guitarra elétrica. Defendia a qualidade musical, a tradição cultural de raiz, defendia o talento acima do marketing, e questionava a submissão ao mercado.

Claro, como a MPB esquerdista conseguiu entrar no mainstream midiático, menos por agradar aos donos de mídia e aos generais da ditadura do que por uma questão de articulação entre produtores de TV (havia ainda a progressista TV Excelsior) e produtores musicais (como um gênio como Aloysio de Oliveira, o antigo músico do Bando da Lua que criou o brilhante selo Elenco da gravadora CBD, hoje Universal Music), então os ataques dos intelectuais de hoje encontram pretextos ao mesmo tempo hipócritas e verossímeis.

Afinal, eles acusam a MPB esquerdista de estar vinculada à indústria fonográfica e à grande mídia. Para eles, a Rede Record só presta hoje quando mostra Chitãozinho & Xororó em especial de TV. Mas se for para relembrar de MPB-4 e Chico Buarque, a Rede Record, controlada por uma igreja neopentecostal, é para a intelectualidade "divinizada", o sinônimo do "inferno".

Ou então a hoje Universal Music - que foi CBD, Phonogram e PolyGram - só presta hoje quando contrata Ivete Sangalo e outros nomes do "pagode", "sertanejo" e axé-music que vendem discos como quem vende água e têm o apoio da velha grande mídia. Aí a intelectualidade se silencia quando tais ídolos são tidos como serviçais das multinacionais.

Mas se a Universal Music é associada à MPB dos anos 60, então os intelectuais etnocêntricos de hoje, em tom claramente alarmista, criam seus "monstros" ao evocar os males da "indústria", do "capitalismo estrangeiro", do "purismo" das "patrulhas ideológicas" e das "elites moralistas" a serviço do "preconceito".

Essa intelectualidade quer mesmo é combater o senso crítico, a qualidade de vida, a necessidade do Brasil se ver como um país, como um povo, como um detentor do patrimônio cultural que não é do programador de rádio FM nem do falso ativista social manobrado pelo capitalismo norte-americano.

A MPB esquerdista é criticada porque é autêntica, sincera e honesta. Não compactua com o jabaculê defendido sutilmente pela intelectualidade "divinizada", por isso esta recorre até mesmo à condenação do debate estético que sempre movimentou e movimenta os meios intelectuais mais conceituados do mundo. Em nome do comércio que está por trás da suposta "cultura das periferias", que enriquece de donos de aparelhagens até madeireiros ilegais, condena-se a MPB de esquerda como se ela fosse a encarnação do Mal.

Por isso essa raiva contra a MPB esquerdista que faz dos festejados intelectuais de hoje a fina flor do pseudo-esquerdismo nacional. Essa turma meio "fora do eixo" que finge combater o mercado e a mídia na verdade só quer o continuísmo da pasmaceira "cultural" que anestesia o povo e enriquece os empresários associados.

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