quarta-feira, 11 de abril de 2012

A "MPB BURGUESA" É MAIS EVIDENTE NOS NEO-BREGAS


Por Alexandre Figueiredo

As queixas são conhecidas em relação à chamada "elite da música brasileira": músicas autoreverentes, produção luxuosa, cenários superproduzidos, muita tecnologia, muitas luzes, equipamentos potentes, muito luxo, muita pompa, muito compadrismo entre os cantores e músicos envolvidos.

Isso fez a chamada MPB dos anos 80 ser desprezada e duramente criticada pelos jovens de então, que correram para o Rock Brasil mergulhando direto nos porta-vozes de sua geração.

Até hoje se reclama desse pessoal da MPB, que já criou "vilões" como Ivan Lins e, mais recentemente, a cantora e ministra da Cultura, Ana de Hollanda, irmã de Chico Buarque. Acusa-se essa facção da música brasileira de desprezar o povo, de não estar atenta às novidades, de se perder em clima de pompa e luxo.

No entanto, é a "MPB burguesa" - que quase fez a cantora Simone virar uma versão feminina do pior de Roberto Carlos, chegando a gravar os impagáveis Sullivan & Massadas e o protegido destes, José Augusto - que inspira, e muito, a suposta sofisticação musical dos ídolos neo-bregas, geralmente de "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music surgidos nos anos 90, entre a Era Collor e o Plano Real.

Pois é justamente o clima de muita pompa, de muito luxo e de autoreverências e compadrios que se nota explicitamente nos espetáculos feitos pelos ídolos neo-bregas dos anos 90.

É bom deixar claro que tanto a MPB burguesa quanto o neo-brega dos anos 90 são subprodutos de uma lógica de mercado da indústria fonográfica a partir dos anos 80. No caso da MPB burguesa, ela se deu a partir da domesticação da impactuante MPB dos anos 70 pela dupla de arranjadores e músicos Lincoln Olivetti e Robson Jorge, gente mais identificada com o padrão de hit-parade norte-americano que norteava as grandes gravadoras.

Por outro lado, Michael Sullivan & Paulo Massadas colocaram um pouco de "luxo" na breguice reinante desde os anos de chumbo, inserindo nela justamente os elementos da "MPB burguesa" acrescidos de um aparente apelo popular. Alguns artistas de MPB autêntica, como Roupa Nova, Fagner, Alcione e Gal Costa (esta, a contragosto, como se descobriu recentemente), foram cooptados para esse esquema que também teve Xuxa, José Augusto e Fábio Jr..

A partir da fusão entre o brega "arrumadinho" produzido por Sullivan & Massadas e a MPB "luxuosa" de Olivetti & Jorge - que foram comemorar os louros financeiros compondo juntos "Amor Perfeito", gravada por um Roberto Carlos pouco inspirado nos anos 80 e depois regravada pelos neo-bregas Chiclete Com Banana e Cláudia Leitte - , veio o neo-brega dos anos 90.

Eram ídolos que, ainda que estivessem teoricamente associado a sambas, músicas caipiras, música nordestina ou música baiana, não faziam mais do que a música brega dos anos 70 diluída em violas, cavaquinhos, percussões ou acordeões.

Um exemplo recente disso é a gravação do DVD do cantor Thiaguinho, ex-vocalista do Exaltasamba, um dos ícones do sambrega ou "pagode romântico", uma das vertentes do neo-brega. Como em outros DVDs do gênero - lembre-se do último do Só Pra Contrariar com Alexandre Pires, nos DVDs de Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Belo, Daniel, Leonardo, Latino etc - , o que se vê é algo que muita gente acusa na chamada MPB "biscoito fino".

Reconhece-se que a MPB "biscoito fino" - em alusão à gravadora independente dirigida pela cantora Olivia Hime, patroa, no sentido figurado e literal, de Francis Hime - é uma espécie de "MPB burguesa" passada a limpo, querendo recuperar o vigor criativo de 1965-1976 que, por incrível que pareça, era bem solidário ao patrimônio cultural das classes populares.

Por isso parecem injustas as acusações perdurarem nos artistas da Biscoito Fino que faziam sentido quando os deslizes eram feitos sob os contratos das multinacionais e da Som Livre (gravadora das Organizações Globo). Até porque as regras ficaram nas gravadoras, não migraram para a Biscoito Fino nem a Trama (espécie de Biscoito Fino mais juvenil).

Pelo contrário, o êxoto dos artistas da MPB autêntica das grandes gravadoras fez com que a geração neo-brega dos anos 90 passasse a desempenhar um papel de "MPB de mentirinha", o que fez com que seus cantores e grupos se utilizarem do mesmo suporte tecnológico, técnico, financeiro e publicitário que antes se reservava a um Djavan, a uma Gal Costa, a um Chico Buarque. Os neo-bregas usam até mesmo arranjadores de MPB para fazer tudo para eles.

Até o breganejo Daniel se utilizou da fórmula da assinatura-logotipo que Simone lançou na sua fase mais comercial. E todo o clima de pompa envolve, entre cenários de muita luz e palcos luxuosos, covers tendenciosos de MPB, duetos em clima de compadrio, apresentações autoreverentes, toda uma encenação que sugere uma sofisticação na aparência, mas que no conteúdo continua brega e antiquado.

Os neo-bregas chegam a ser mais "MPB burguesa" do que a própria MPB "biscoito fino" associada a essa imagem. E querem ser reconhecidos como "a verdadeira MPB" ou "MPB com P maiúsculo" por causa disso. Não dá. Isso porque até a ideia que os neo-bregas têm de MPB é aquela ideia elitista, mercantil e pomposa herdada dos tempos da "música impopular brasileira".

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