quinta-feira, 19 de abril de 2012

A FALSA POBREZA DA "PERIFERIA" BREGA


Por Alexandre Figueiredo

A "periferia" que a intelectualidade dominante no Brasil tanto exalta torna-se uma farsa, na medida em que a "pobreza feliz" louvada por eles contrasta, e muito, com a pobreza que as periferias de verdade mostram.

Pois o que Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Ronaldo Lemos e outros entendem como "periferia" ou "povo pobre" não é mais do que uma pequena porção "emancipada" das pessoas de origem pobre do Brasil.

Isso, em si, não é problema algum, mas o que se vê é que os "pobres" evocados por esses intelectuais são só eles. Não é o povo expulso de Pinheirinho, em São José dos Campos, não é o povo que sofre com as enchentes de Teresópolis e muito menos é o povo dizimado pelas emboscadas armadas pelos fazendeiros do Pará.

Aliás o Pará é o foco principal dessa pseudo-pobreza de contos de fadas. Uma pobreza que, de real, só tem o passado. Afinal, os "pobres" da "cultura popular" brega-popularesca já deixaram de ser pobres há um bom tempo. Mas também não são a "nova classe C" que os analistas progressistas falam, mas de uma elite que, em que pese a origem humilde, está a serviço das políticas e iniciativas administrativas das elites que controlam o entretenimento do país.

São donos de empresas de informática, gravadoras locais pseudo-independentes, são produtores aprendizes de cinema e jornalistas iniciantes, são líderes de grêmios estudantis, gente que já começa a sentir o poder, não o poder da classe a que pertenceram, mas o poder da elite intelectual que os cooptou.

Daí o grande contraste entre a realidade confortável desses "emergentes" e a realidade realmente difícil que os pobres ainda sofrem. Ainda vemos muitos moradores de rua, gente vivendo em casas precárias ou em áreas de risco, e pessoas pobres reféns da criminalidade organizada que ainda domina várias favelas.

Isso sem falar dos conflitos de terras, que dizimam tantas lideranças, a mando do mesmo poder latifundiário que, embora domine áreas do interior do país, precisam da vitrine das capitais para expressarem, até em âmbito legislativo, o poderio que exercem nos Estados.

Por isso o latifúndio paranaense não poderia mesmo estar à margem da "paradisíaca" Belém do Pará, se eles exercem o comércio ilegal madeireiro e praticam o desmatamento e mandam exterminar lideranças rurais e missionários em luta pela reforma agrária, eles têm a necessidade de ter uma bancada sua na Assembleia Legislativa estadual, além de exercer, numa aliança com os barões da grande mídia, o controle sobre o entretenimento consumido pelas classes populares.

Por isso um fenômeno comercial como o tecnobrega está muito mais próximo dos latifundiários que o patrocinam - e que enriquecem também os donos de "aparelhagens", oficialmente tidos como "pobretões" - do que da reforma agrária que os ativistas rurais lutam sob a permanente mira de espingardas e revólveres.

A "pobreza" que os ideólogos do entretenimento brega-popularesco defende não é a pobreza real, mas a pobreza simbólica de gente que já superou a pobreza há muito tempo, e que se alia aos detentores do poder econômico, político e administrativo para promover um tipo de entretenimento que anestesia, em vez de fazer progredir as classes populares.

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