segunda-feira, 2 de abril de 2012

EMPREGADAS DOMÉSTICAS NÃO CURTIAM BREGA EM 1960-1961


O PRIMEIRO LP DE ELZA SOARES - ORIGEM HUMILDE NÃO DISPENSAVA BONS REFERENCIAIS CULTURAIS.

Por Alexandre Figueiredo

Hoje se fala que as empregadas domésticas e similares curtem música brega. Era o brega setentista de Odair José, Waldick Soriano e Paulo Sérgio, ou qualquer ritmo brega-popularesco de hoje - sejam os "sofisticados" breganejo e sambrega - , para não dizer o "funk carioca", o "arrocha", o tecnobrega.

Na melhor das hipóteses, a MPB autêntica aparece hoje apenas de forma secundária no gosto das domésticas, geralmente impulsionado pelas trilhas sonoras de novela e, não raro, através dos covers oportunistas que os "sofisticados" ídolos do "pagode romântico" (sambrega) e "sertanejo" (breganejo), além das "divas" da axé-music, fazem.

Mas nem sempre isso foi assim. O gosto musical das domésticas era de primeira, há 50 anos atrás. Foi o rádio portátil a serviço da ditadura militar que entregou as classes pobres em geral à "ditabranda do mau gosto", como se a mediocrização fosse algo inerente às classes populares.

Com toda a campanha persuasiva de rádios e TVs que apoiavam a ditadura militar e que, depois, passaram a apoiar as políticas neoliberais - seja a reboque do PRN de Collor, seja pelo PSDB e pelo PMDB - , o gosto popular deixou de ser espontâneo e degradou de forma estarrecedora ao longo dos anos.

A intelectualidade mais influente, tida como "sem preconceitos", acaba se tornando mais preconceituosa ainda, na medida em que julga que o "gosto popular" é isso mesmo: baixarias, pieguices, cafonice, sensacionalismo, pitoresco, grotesco. E há, pasmem, quem se dispõe a aplaudir tais intelectuais com (ingênuo) entusiasmo.

Pois o que ninguém sabe é que as empregadas domésticas, há mais de 50 anos, tinham outro gosto musical. Elas gostavam de samba de verdade, de baiões autênticos, de modinhas genuínas, de boleros e serestas originais, de jazz. E também gostavam de sambalanço, samba sincopado, maracatu, maxixe, marchinhas, marchas-ranchos e outros ritmos.

Um dos reflexos desse quadro foram os primeiros discos de Elza Soares, como A Bossa Negra, de 1960. Com influências de samba sincopado e jazz, o álbum surpreende pelas informações musicais de qualidade, coisa muito rara hoje em dia.

É até de dar pena que parte da imprensa musical brasileira, e de seus intelectuais associados, tenham tentado associar a lamentável funqueira Tati Quebra-Barraco como se fosse uma "nova Elza Soares", levando em conta apenas a aparente coincidência da origem humilde.

Pois Tati é musicalmente ruim - sim, estamos falando em termos estéticos, poéticos, artísticos etc - e como intérprete musical ela não passou de fogo de palha, sendo hoje uma celebridade tão vazia e superficial quanto um ex-integrante do Big Brother Brasil.

Elza, no entanto, possui talento e senso de modernidade suficiente para assimilar o jazz de outrora e o hip hop de hoje, com natural intuição. Ela veio de um tempo em que a cultura popular não era deturpada pela mídia e nem a intelectualidade não era tão boçal para aceitar essa degradação cultural sob vistas grossas.

E as empregadas domésticas não só ouviam Elza Soares como ouviam muita coisa substancial. Muito antes de Odair ser aclamado pelos barões da grande mídia como "o cantor das empregadas", Orlandivo cumpria muito bem essa função, com músicas de melhor qualidade. E Orlandivo é dignamente reconhecido por, musicalmente, abrir caminho para as ousadias artísticas de um rapazinho da Tijuca chamado Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor).

Além do mais, artistas que fizeram sucesso no passado como Jorge Veiga, Noite Ilustrada, Robertinho Silva, Leny Eversong, eram ouvidos com gosto por nossas domésticas. Que, muito antes da ditadura midiática eleger Benito di Paula como o "pianista das empregadas", adoravam de paixão a música de Johnny Alf, hoje tida como "elitista".

E nomes como Luiz Gonzaga, hoje "desconhecido" pelas domésticas que hoje acham que forró é Calcinha Preta, Aviões do Forró e Banda Calypso, eram apreciados com entusiasmo, ao lado de Jackson do Pandeiro, Marinês e Seu Conjunto, Altamiro Carrilho.

E a música caipira? Tonico e Tinoco, Léo Canhoto & Robertinho, Cascatinha & Inhana, Jararaca & Ratinho, animavam os toca-discos muito antes desses "caubóis do asfalto" ditarem as regras até na chamada "música de raiz" que os "veteranos" de 1990 usurparam em proveito próprio.

Mesmo as serestas, ranchos e boleros eram feitos por gente de primeira, como Nelson Gonçalves, Teixeirinha, ou cantoras emergentes na época como Edith Veiga e Núbia Lafayette.

E havia muita música boa curtida por empregadas domésticas, incluindo as já falecidas Ademilde Fonseca e Carminha Mascarenhas (que foi sogra de Fafá de Belém e Cissa Guimarães, ex-mulheres de seu filho, o instrumentista Raul Mascarenhas), sem falar das "rivais" Emilinha Borba e Marlene.

E a Bossa Nova também era apreciada pelas empregadas. Seja através do grande nome João Gilberto, seja por nomes como Agostinho dos Santos e Pery Ribeiro. A curiosidade das domésticas não tinha preconceitos para o que era realmente sofisticado, seu critério era a música de qualidade que irradiava por aí, pelas ruas, rádios, TVs e tudo.

Enfim, música boa já embalou os serviços de nossas domésticas. A memória curta é que associou as empregadas à cafonice musical de hoje. Uma visão que, mesmo tida como "sem preconceitos", é para lá de preconceituosa.

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