sábado, 7 de abril de 2012

CRISE ÉTICA: O CALVÁRIO DO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

O Brasil passa por uma grande crise ética, e isso é uma das piores heranças deixadas pela ditadura militar. A ditadura foi uma fase da história do Brasil que simplesmente interrompeu um processo de progresso social que, a duras penas, o país tentava exercer entre 1958 e 1964.

E sabemos que a ditadura militar significou uma Caixa de Pandora à brasileira, expondo todos os podres do consciente e inconsciente do nosso país: de homens que dizimavam suas próprias companheiras quando elas apenas pediam a separação a troleiros que usam blogues para humilhar os outros.

A corrupção do senador Demóstenes Torres, que deixou o DEM antes que seja formalizada sua expulsão do partido - escândalo cuja gravidade se equipara à de José Roberto Arruda, também ex-DEM - , do qual é um dos fundadores, é apenas um aspecto desse lodo que se transformou o país.

Entregue à mediocridade mais gritante, o Brasil se recusa a progredir na cultura e nos valores sociais. E, o que é pior, a opinião pública média não consegue perceber a semelhança e o paralelismo ideológicos de intelectuais que defendem a mediocridade cultural dos jornalistas políticos que se compadecem com a corrupção de seus pares, sobretudo políticos.

Qual é a diferença entre o acadêmico baiano Roberto Albergaria defendendo as baixarias machistas do "pagodão" local e o acadêmico carioca Merval Pereira defendendo as falcatruas de Demóstenes Torres? E qual a diferença entre os chiliques de Eliane Cantanhede com os movimentos sociais e os chiliques de Pedro Alexandre Sanches com as queixas contra a mediocrização cultural que assola nosso país?

Vivemos a falta de referenciais éticos, estéticos, ideológicos. Tudo virou um "deus-dará" sócio, político e cultural que, economicamente, só está começando a se resolver de uns seis anos para cá. Mas, nos outros âmbitos, há uma resistência feroz contra qualquer necessidade ou mesmo processo de progresso.

Por isso, não difere em coisa alguma quando a imprensa política se lança furiosamente contra os movimentos sociais e a intelectualidade cultural que, num discurso hipócrita, finge defender os movimentos sociais mas também os condena, quando estes se expressam na forma do verdadeiro senso crítico, do questionamento real contra a mediocridade cultural.

Porque a mediocridade cultural é fruto desse vazio ideológico que permite a corrupção, a desnacionalização sócio-econômica, o poder midiático, a permanência de valores morais baixos, a trolagem mais difamatória e impune, os conflitos de terras, a impunidade dos mais influentes, a banalização do mal, a volta tendenciosa de alguns valores sociais antigos quando há algum retorno em jogo.

Será que vamos ser "superiores" assim? Como poderemos andar de cabeça erguida se, culturalmente, sempre estamos cabisbaixos? O brega e todos os seus derivados são a "cultura do cabisbaixo", de quem está desprovido de suas próprias identidades regionais, sociais, morais, éticas, estéticas etc.

Dizer que o brega é alienado nada tem a ver com supostas fúrias preconceituosas e moralistas inventadas por paranoicos intelectuais que detém o monopólio da visibilidade. A alienação notada neste caso não é fruto de pré-julgamentos, mas de constatações resultantes de muita observação.

Afinal, que "cultura superior" é essa que se apoia na "superioridade" do "deus mercado", esse ente valorizado até por certas patotas "fora do eixo" ainda que seja por elas condenado no discurso? Que "cultura superior" é essa que se baseia na derrubada de identidades sócio-culturais, toleradas sob a desculpa do relativismo globalizado?

Que "superioridade cultural" é essa que se baseia no subemprego, na prostituição, na baixa auto-estima (por vezes convertida em arrogância, como em todo complexo de inferioridade que se transforma em complexo de superioridade)? Será que vamos elevar nossa cultura aceitando, ainda que de forma meio enrustida, a condição de "coitadinhos" sócio-culturais?

O vazio ético, estético, social e de outros aspectos permitem que o "jeitinho brasileiro", a "memória curta" e outros fantasmas continuem assombrando nosso país, ainda que ocultos na retórica fácil e facilmente aceita. No entanto, tudo isso pode reservar futuras encrencas que simplesmente impedirão que o Brasil se torne a verdadeira potência sócio-econômica do futuro.

Antes toda essa pasmaceira pudesse equiparar o Brasil à Grécia. Não a Grécia da Antiguidade clássica - até porque Pedro Alexandre Sanches é alérgico a debates estéticos feitos pelos mais conceituados filósofos gregos - , mas a Grécia de hoje, sem rumo, mas em profunda crise social, política e econômica.

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