sábado, 28 de abril de 2012

CHEIAS DE CHARME: O BREGA COMO SÁTIRA OU COMO COISA SÉRIA?


Por Alexandre Figueiredo

Até que ponto profissionais da velha grande mídia podem concordar ou não com seus procedimentos ou interesses dos executivos de sua empresa, é muito complexo de se dizer.

Afinal, não se pode falar em uma tendência única, pois as situações variam de tal forma, pela sua peculiaridade, que é melhor não traçarmos um padrão de reação para não cairmos em equívocos e erros de interpretação.

Está certo que a novela Cheias de Charme, da Rede Globo de Televisão, segue oficialmente a agenda dos executivos da emissora de trabalhar uma visão estereotipada da nova classe média brasileira. Que, pela vontade do mercado - comandado não só pela grande mídia mas pelo grande empresariado, dos donos do entretenimento regionais até indústrias de bebidas, redes de supermercados e de eletrodomésticos - , precisa ser associada à pseudo-cultura "popular" do brega-popularesco.

No entanto, o que se vê na própria novela é a paródia da "cultura brega" e a divulgação desse "universo" como ele sempre deveria ser: uma piada. Nem mesmo o seriado Tapas e Beijos, que segue o mesmo caminho, chega a ridicularizar o brega dessa forma, até porque o seriado ainda mostra a breguice com um certo glamour romântico, em que pese o fator comum de seriado e novela contarem com ícones bregas do Pará como responsáveis pelos temas de abertura, respectivamente Banda Calypso e Gaby Amarantos.

A paródia passa ao largo dos interesses dos executivos da Globo e do consultor musical da novela, o antropólogo Hermano Vianna, artífice dessa "nova visão da classe média brasileira" e produtor do programa Esquenta!, da mesma emissora. E o fato de uma das atrizes-protagonistas, Leandra Leal, namorar um jornalista do Coletivo Fora do Eixo, também interessado na bregalização do país, não impede o tom da paródia.

O sonho de três empregadas domésticas sonharem em ser cantoras bregas é explorado de forma cômica, da mesma forma que o perfil do cantor Fabian, interpretado por Ricardo Tozzi, é um cantor brega estereotipado, com um nome inspirado naqueles ídolos dos anos 70, quando o brega mal dava as caras na então TV Studios (atual SBT). Claramente criado a partir do perfil do ídolo Michel Teló, Fabian é um personagem extravagante, posudo, metido.

Nota-se também a presença do empresário artístico vivido por Bruno Mazzeo (filho e discípulo do humor do saudoso Chico Anysio), humorista que não se identifica muito com o universo brega-popularesco, a não ser pelo nível da sátira. Ele mesmo fez o seriado A Diarista - do qual participava apenas como roteirista - parodiando o meio e encomendando trilha incidental de rock para contrabalançar.

Mazzeo, que no seu seriado Cilada (transmitido anos atrás no canal Multishow), havia definido as duplas breganejas como "um ser de duas cabeças", havia tido uma polêmica feroz com fãs do cantor Luan Santana (antecessor da onda de cantores que hoje inclui Michel Teló e Gusttavo Lima), cujo fanatismo fez o humorista defini-los como "talifãs", num trocadilho com a intolerância da milicia Talibã, no Oriente Médio.

Em A Diarista, mesmo as Organizações Globo receberam uma forte beliscada uma vez. Quando a rádio jornalística CBN desalojou a rádio de pop adulto Globo FM (92,5 mhz), foi feito um episódio de A Diarista em protesto contra o fim da Globo FM, mostrando uma caricata emissora FM com programação típica do mais escancarado "AeMão".

Na grande mídia, nem todo mundo compartilha dos interesses dos patrões. De repente, surge um coerente Rodrigo Vianna nas redações da Globo, para produzir artigos no blogue Escrevinhador e a militar no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé. Não confundir essa iniciativa com a de um Pedro Alexandre Sanches que, ao migrar para a mídia de esquerda, defendeu muito mais os interesses da Folha de São Paulo do que quando estava dentro da mesma.

Daí que podemos dizer, sim, que Cheias de Charme esconde uma discreta conspiração de seus autores e atores. Sabemos que nem todo ator ou atriz que vai, aparentemente feliz da vida, para micaretas, vaquejadas e "bailes funk" gosta realmente desses eventos e seus "artistas", não raro trata-se de uma imposição contratual, que inclui papéis em novelas, comerciais de grife etc. Até porque isso é mais outro trabalho de ator, uma missão profissional, eles também trabalham um outro personagem.

Portanto, Cheias de Charme pode não abalar as estruturas "globais" pela sua discreta sátira ao "universo" brega. Como atração assumidamente humorística, a sátira tem dessa função de agredir sem causar dor. Mas, em tempos que se discute a mediocrização cultural brasileira, a gente pergunta se o brega, no futuro, continuará sendo levado muito a sério (e a sério até demais) depois dessa exploração satírica feita pela "novela das sete". É esperar e ver.

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