segunda-feira, 30 de abril de 2012

AOS 40 ANOS, CLUBE DA ESQUINA ANDA ESQUECIDO


Por Alexandre Figueiredo

Não é difícil traçar paralelos entre o Clube da Esquina e a Bossa Nova, movimentos de música brasileira que apostaram, de fato, na sofisticação artística e musical que não deve ser confundida com pompa e luxo.

Afinal, a beleza não estava na aparência, mas no estado de espírito dos dois movimentos, numa linguagem criativa e numa simplicidade que hoje poucos conseguem compreender.

A foto que ilustra esse tópico mostra o ex-presidente Juscelino Kubitschek, já afastado da vída política por imposição da ditadura militar - cujo golpe JK apoiou de boa-fé, achando que ele abriria caminho para a retomada do poder democrático e civil em 1965, o que não ocorreu - , ao lado dos músicos do Clube da Esquina, Milton Nascimento e os irmãos Márcio e Lô Borges, mais o poeta do movimento, Fernando Brant.

Daí a analogia da Bossa Nova com o Clube da Esquina. A Bossa Nova se ascendeu sob o governo Kubitschek (1956-1961) e tornou-se, meio que por acaso, o símbolo do Brasil da época. E tanto a Bossa Nova quanto o Clube da Esquina eram movimentos que, embora tenham origem na classe média, eram de uma simplicidade que nem os ídolos "humildes" da música brega ou neo-brega, muitos deles meros resmungões, conseguem sequer pensar em ter.

O Clube da Esquina, no entanto, tem um contexto bem diferente do da Bossa Nova, por razões óbvias. A Bossa Nova bebeu nas fontes do jazz e dos standards de Hollywood (aquelas músicas românticas orquestradas, cantadas sobretudo por nomes como Frank Sinatra e Bing Crosby), acrescidas numa leitura peculiar do samba carioca, e viviam numa cidade situada no litoral.

Já o Clube da Esquina vivia, em tese, longe da praia, embora o movimento tenha em parte se reunido em Piratininga, Niterói. Mas sua realidade era mesmo a de Belo Horizonte, longe do mar, numa boemia universitária. E seus valores já eram os dos anos 60: Beatles na sua fase psicodélica, rock progressivo (sobretudo Gentle Giant e Yes), o folk dos Byrds, o cancioneiro rural brasileiro.

E se a Bossa Nova tinha um quê de romântico e falava de relações amorosas, o Clube da Esquina, sem deixar de lado os temas amorosos, dava destaque a temáticas relacionadas à fraternidade e à ecologia. Mas a beleza melódica, em um e outro caso, era a prioridade na sua linguagem musical.

Foi a partir do Clube da Esquina que Milton Nascimento, que fez o país se arrepiar com sua surpreendente qualidade artística no seu primeiro LP de 1967, tornou-se mais popular e conhecido. E gravou muitos clássicos de insuperável beleza para a Música Popular Brasileira.

Outros nomes também integraram o Clube: além de Milton e dos irmãos Borges, havia Flávio Venturini (que havia deixado O Terço para formar o 14-Bis), Beto Guedes, Toninho Horta, entre outros. O movimento integrou a fase áurea da MPB dos anos 70, uma continuidade da fase impactuante lançada nos festivais da canção dos anos 60 e anterior à pasteurização imposta pelas grandes gravadoras, nos anos 80.

O Clube da Esquina teve todo seu fôlego artístico de 1972 a 1987. E conquistou o apoio de cantores fora de Minas Gerais, como a gaúcha Elis Regina. E o Clube da Esquina teve ecos até no Rio de Janeiro, com o Boca Livre (de Zé Renato e do ex-Vímana Fernando Gama) e nos primórdios do Roupa Nova (que gravaram "Pelos Bares da Vida" com Milton Nascimento). Mas até Florianópolis teve grupos influenciados pelo movimento mineiro. Floripa Belzonte, barrigas-verdes que comiam quietos.

O Clube da Esquina usou seu jogo de cintura para evitar a pasteurização musical que, de forma avassaladora, atingiu boa parte da MPB daquela década, não por culpa de seus artistas, mas por imposição de executivos e produtores.

No entanto, os conflitos que os artistas da MPB autêntica tinham com a indústria fonográfica, descontentes aqueles com as imposições de gravar sempre os mesmos discos burocráticos ano após ano, fizeram com que as gravadoras passassem a deixar esses artistas de lado, enquanto aos poucos davam prioridade a ídolos bregas, "lapidando" seus discos com a mesma mixagem de luxo da "MPB burguesa" que causava nojo e tédio aos artistas de MPB.

Com o tempo, a MPB foi marginalizada, uma vez que o poderio das grandes gravadoras deu uma rasteira nos artistas insubordináveis. E aos poucos o brega-popularesco iniciou seu império, às custas de muita ajuda financeira, muito oportunismo, muito tendenciosismo.

Invejados pelos ídolos "sertanejos" dos anos 90, os artistas do Clube da Esquina também foram condenados ao esquecimento público. Cinicamente, a cupidez triunfante dos breganejos de então os fez se apropriarem de alguns sucessos do Clube da Esquina, como "Canção da América" e "Amor de Índio", desviando até mesmo o gosto musical de muitos mineiros que, em vez de ouvir o cancioneiro do Clube da Esquina nas vozes de seus próprios artistas, preferem ouvi-lo nas vozes de breganejos goianos e paranaenses, sem metade da qualidade artística dos originais.

Numa época em que a mediocrização cultural toma todos os espaços imagináveis e inimagináveis, até mesmo Milton Nascimento beirou ao ostracismo poucos anos atrás. Isso sem falar do preconceito que muitos têm em nomes como Lô Borges - hoje visto como uma espécie de Clube da Esquina para nerds (nerds no sentido Vingança dos Nerds/Big Bang Theory do termo) - e Toninho Horta, considerado "mais difícil".

E ver que a poesia humanista do Clube da Esquina deu lugar a horrorosas letras de breganejo é de lamentar. Nem mesmo o parasitismo dos "sertanejos" da geração neo-brega dos anos 90 resolveu o problema. Até porque, para eles, pouco importa se o Clube da Esquina acabou ou não: o que os breganejos querem é levar vantagem para si mesmos.

Seria bom repensarmos o legado do admirável movimento mineiro, cujos artistas continuam aí fazendo música e tendo histórias para contar...

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