sábado, 21 de abril de 2012

A AMARGURA DOS "EMPREGADOS" DA AXÉ-MUSIC


Por Alexandre Figueiredo

Aquilo que certos intelectuais, com um certo cinismo, definem como "música popular com P maiúsculo", por ser eminentemente mercantilista esconde em seus bastidores episódios bastante sombrios.

Recentemente, o ex-baixista do grupo baiano Asa de Águia, Levi Pereira, que havia tocado na banda durante 24 anos, decidiu processar o líder da banda, Durval Lélis, considerado um dos ídolos baianos mais ricos, juntamente com Ivete Sangalo e Bell Marques. Nos três casos, houve processos de músicos por danos trabalhistas.

Levi, que quer uma indenização de R$ 10 milhões, acusa Durval de forçá-lo a abrir empresas de fachada para receber melhores salários na condição de "pessoa jurídica". Além disso, Levi reclama de ser tratado não como um integrante da banda, mas como um mero empregado, fato que Durval - que é dono de várias empresas ligadas ao Asa de Águia - tentou desmentir, além de dizer que tratava o baixista de forma "respeitosa".

O episódio é similar ao que Bell Marques vivenciou anos atrás. Assim como no caso do Asa de Águia, o vocalista do grupo baiano Chiclete Com Banana foi acusado pelo ex-guitarrista Jonny - conhecido também como Cacique Jonny - que hoje sofre de ataxia cerebral, que é a perda de movimentos de várias partes do corpo - de não dá-lo a devida atenção devido à doença e, da mesma forma que Levi, era tratado como empregado da banda e não integrante. Nos últimos meses, a doença de Jonny se agravou seriamente.

Bell também foi acusado, em reportagens investigativas de A Tarde, principal jornal da Bahia, de sonegação fiscal e de não dar o devido apoio gerencial a uma jovem cantora que se lançava na carreira. Para tentar abafar os casos, Bell teve que assumir um filho que teve com uma fã e desviar as atenções da opinião pública.

No caso de Ivete Sangalo, o baterista Toinho Batera também havia processado a cantora por motivos semelhantes ao de Levi. Tratado como "empregado" e não como um músico acompanhante - integrante da banda de apoio da cantora - , Toinho também foi "aconselhado" a abrir uma empresa para receber salário como "pessoa jurídica".

Dá para perceber o seguinte. Se coisas assim acontecem em nomes considerados "importantes" - embora sua qualidade musical seja altamente discutível e os interesses comerciais são bem claros, em detrimento de qualquer finalidade cultural - , imagine então o que deve acontecer nos ritmos considerados mais grotescos do brega-popularesco.

No forró-brega, no tecnobrega, "funk carioca" e outros estilos "polêmicos", a escravidão deve rolar solta, através dos grupos e intérpretes com donos, controlados pelos seus empresários.Aí ocorre a sonegação fiscal, a violação dos direitos autorais, o descumprimento das leis trabalhistas, e qualquer tipo de autoritarismo por parte dos empresários.

No caso do "funk carioca", por exemplo, existe até o caso de MCs - sobretudo as chamadas "mulheres-frutas" e similares - que estariam "assinando sozinhas" a autoria de músicas compostas por seus produtores para compensar o salário que ganham sem qualquer garantia trabalhista, e que só é alto quando o ritmo está na "alta estação".

Desse modo, a chamada "música das periferias" mostra seu lado sombrio. Por trás desse espetáculo "lindo", existe muita exploração. Como se não bastasse a divulgação dessa "cultura popular" através do jabaculê e das alianças feitas com latifundiários, políticos, contraventores e barões da grande mídia para promoverem o sucesso que, logo depois, será considerado pelo antropólogo ou sociólogo mais tendencioso o "paradigma do novo folclore pop transbrasileiro".

O pior é que vários desses ritmos são considerados - por via político-partidária, mas não pelo IPHAN - como "patrimônios culturais", e tudo isso para encher de grana os depósitos bancários dos empresários artísticos, tão "pobrinhos" e considerados "modestos produtores culturais".

O povo pobre consome essas barbaridades sem saber metade das histórias que estão por trás.

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