domingo, 4 de março de 2012

A SÍNDROME DO CACHORRO MORTO



Por Alexandre Figueiredo

O Brasil tem duas síndromes "caninas". Uma é a síndrome de vira-lata, de se orgulhar da mediocrização cultural que, em sua fauna, inclui de "cachorras" do "funk carioca" até o "não-cachorro" Waldick Soriano.

Outra é a síndrome do cachorro-morto, que é a mania de se atacar mais quem já está decadente, a tal ponto que o decadente pode se fazer de vítima e dar a volta por cima. E que permite que o Brasil continue vivendo na síndrome do vira-lata.

O Brasil se evoluiu politicamente e economicamente, mas ainda está longe do ideal. Existem falhas grotescas que impedem o país de se tornar potência entre os quatro emergentes do grupo BRIC. E tudo isso por conta da pouca crítica que se faz à mediocrização cultural no país.

Critica-se demais o jornalismo político e a política conservadora em si. Tudo bem. Criticar nomes como José Serra, Geraldo Alckmin, William Waack, Reinaldo Azevedo, Miriam Leitão e outros são atitudes válidas e necessárias, mas chega um ponto em que tudo chega ao lugar comum e, depois, o que faltará criticar? Alguma ditadura distante no Oriente Médio?

Isso também é válido, mas do jeito que se fala do Oriente Médio parece que ele é um Estado do Nordeste brasileiro. E aí outro lugar comum chega, e a agenda crítica das esquerdas mais uma vez se sobrecarrega dos mesmos temas.

Enquanto isso, a mediocrização cultural dominante acaba sendo subestimada e até mesmo ignorada pelos analistas de esquerda, ou então até mesmo aplaudida por alguns analistas de senso crítico mais débil. É na mediocrização cultural que encontram-se as mais graves questões sociais, não porque elas são denunciadas pelos seus artistas "conscientizados" mas porque eles representam justamente todo o mecanismo de manipulação e dominação da velha mídia.

Em vez de haver um questionamento mais constante e mais apurado, há um deslumbramento com o brega-popularesco, o modelo de mediocrização cultural vigente no Brasil. Há até intelectuais que partem para a choradeira, quando morre um Wando da vida. E outros que acham que o rótulo "popular" presente nesses ídolos é coisa séria e não uma manobra do mercado.

O que se vê é a degradação cultural defendida sorridentemente por intelectuais influentes, que detém o monopólio da visibilidade. E, por isso mesmo, é necessário que questionemos esses intelectuais, sem receio de desagradar outros intelectuais de esquerda que são amigos da intelectualidade suspeita.

Pouco importa se um Pedro Alexandre Sanches é amigo de um fulano ou sicrano. O risco que ele representa para a intelectualidade de esquerda é que ele defende os mesmos valores da dita "cultura popular" também defendidos explicitamente pelos barões da grande mídia.

Isso é fato, é explícito, mas vai o Pedro Sanches dizer que "não curte a velha mídia" e todo mundo acredita nessa lorota. E plateias aplaudem feito focas de circo, porque o discípulo cultural de Fernando Henrique Cardoso e cria da Folha de São Paulo "não gosta" do primeiro e "rompeu" com a segunda.

Enquanto isso, a urubologia jornalística fica rindo da intelectualidade esquerdista. Seja Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Eliane Cantanhede e até o medieval encastelado Olavo de Carvalho. Para eles, somos uns idiotas, preocupados em derrotar somente o José Serra, para depois dançarmos o "créu", o "rebolation", o "papai chegou", o "tchan", o "ai se eu te pego", o tecnobrega.

E não adianta alguém desmentir isso, se a condescendência com a mediocridade cultural que tudo isso significa é gritante, é escancarada e não permite relativismos. O que Pedro Sanches, Ronaldo Lemos e companhia defendem é mesmo o lixo cultural, e as questões de gosto que eles querem que a gente esqueça tornam-se graves por esse mesmo esquecimento.

A mediocrização cultural imbeciliza o povo, trava a evolução social, corrompe a cidadania e enriquece os grandes empresários que estão por trás dessa suposta "cultura das periferias". Até os mesmos latifundiários que promovem o conflito sangrento de terras financiam o forró-brega, o tecnobrega e o "funk carioca", ou a axé-music e o "sertanejo" com muito gosto.

Isso porque tais tendências musicais populares simplesmente anestesiam o povo, deixam o povo pobre resignado, desestimulam as mobilizações sociais. E nenhum relativismo pode desmentir isso. Até porque as únicas melhorias que essa pseudo-cultura fazem são só na ampliação do alcance dos pobres ao consumismo.

Portanto, é preciso que os analistas diversifiquem suas agendas e questionem a mediocrização cultural com mais frequência, sem medo de questionar até mesmo a intelectualidade condescendente. Caso contrário, a agenda crítica ficará atrofiada, viciada nos mesmos temas e personagens já decadentes, que um dia parecerão cachorros mortos de ontem.

Por isso, é necessário que se critique a síndrome de vira-lata da condescendência ao brega-popularesco, se critique a intelectualidade associada e tudo o mais, para que os "cachorros mortos" do demotucanato não se aproveitem da pauta viciada e repetitiva para se passarem por vítimas e darem a volta por cima.

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