domingo, 25 de março de 2012

QUANDO A INTELECTUALIDADE "ESQUERDISTA" FICA NO LADO DA UDR


ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO - Por trás do verniz "esquerdista" da dupla, a aliança com as Organizações Globo e o apoio a Ronaldo Caiado.

Por Alexandre Figueiredo

Um colunista da revista Fórum - não, não é Pedro Alexandre Sanches - havia escrito um texto definindo Michel Teló e Xuxa como lixos culturais. No entanto, na hora de dar exemplos sobre o que seria a música brasileira de qualidade, ele, que também é músico, pisou na bola, citando a dupla Zezé di Camargo & Luciano.

A memória curta brasileira garante que a mediocridade do passado seja vista hoje como "genial". E isso não é um fruto de uma natural avaliação de conceitos e preconceitos, nem um processo de evolução sócio-cultural, mas o avanço da mediocrização cultural que, com a contribuição decisiva da velha grande mídia, transforma o Brasil numa verdadeira "terra de cego". José Saramago que o diga.

E, como em terra de cego, diz o ditado que, neste caso, quem tem um olho é rei. E os nomes que, há vinte ou quarenta anos atrás, eram vistos como sinônimo de baixaria, lixo cultural e coisa parecida, hoje são vistos como "geniais". Eles melhoraram musicalmente? Não. A sociedade melhorou decisivamente? Não. A intelectualidade hoje é muito mais aberta em ideias? Nem de longe.

O problema é que a intelectualidade dominante possui seus preconceitos elitistas enrustidos. Envergonhada desses preconceitos, esses intelectuais tentam passar a impressão contrária e definir como "preconceito" o senso crítico dos outros.

Parafraseando Caetano Veloso, se esses intelectuais fizessem na política o que fazem na cultura, estaremos ferrados. Imagine Paulo Maluf sendo classificado de "grande estadista" e "paradigma do Brasil moderno"? A gente até imagina se um dia dá um surto na intelectualidade atual e até Geraldo Alckmin é reabilitado como um "político progressista".

Hoje Benito di Paula, Waldick Soriano, José Augusto, Michael Sullivan, Wando, Zezé di Camargo & Luciano, Alexandre Pires e similares são "grandes mestres da nossa música". Mas, tempos atrás, eles simbolizaram a baixaria cultural que ameaçava a cultura brasileira.

Beneficiados pela memória curta, santificamos os algozes de ontem. Desse modo, se alguém disser que o Brilhante Ustra, o temível coronel do DOI-CODI, mereceria um Nobel da Paz, até quando haverá vozes contestando?

Vai o imperialismo norte-americano se fantasiar de fada madrinha e promover um tal "jornalismo das américas" que elogia Yoani Sanchez, condena Julian Assange e ninguém das esquerdas esboça algum desconfiômetro, é de se preocupar.

Tudo isso sem falar no caso do embuste do canal pago TeleCine Cult que, sob o dinheiro pesado da mesma indústria cinematográfica que quase impôs os temíveis SOPA e PIPA (projetos de censura na Internet), vende o cinemão comercial de Hollywood como se fosse "tão alternativo" quanto o cinema independente europeu e ninguém desconfia! Os cineclubistas de outrora se envergonhariam de atitudes desse tipo, feitas, pasmem, por gente com nível universitário.

Pois não adianta criticar Michel Teló se elogia Zezé di Camargo & Luciano. Os "sertanejos" de 1990, sabiamente acusados por estudiosos de deturpar e diluir violentamente a música caipira, hoje são vistos erroneamente como "música de raiz".

A intelectualidade é enganada pelas alegações "tropitucanas" de que essas bostas hoje são "apenas o moderno sertanejo pop" e vai dormir tranquila achando que faz sentido falar bem de Zezé di Camargo & Luciano num periódico esquerdista.

Pois a dupla havia apoiado o político latifundiário Ronaldo Caiado, da temível UDR, além de estabelecer alianças fortes com as Organizações Globo na promoção da mediocridade cultural (da qual a famigerada dupla goiana é um de seus ícones mais típicos).

Zezé di Camargo, além disso, participou do movimento reacionário "Cansei", e a dupla, apesar do pretenso humanismo reforçado pelo melodrama biográfico produzido pela Globo Filmes, Os Dois Filhos de Francisco, tinha, na Internet, um exército de troleiros da pesada, pitboys digitais que não suportam ver a dupla receber qualquer crítica, por menor que seja.

A intelectualidade cultural dominante ainda está presa a 1970. Não consegue ir antes, tem sérias dificuldades de entender o patrimônio cultural brasileiro fora das lentes da Rede Globo. E fala-se da intelectualidade "de esquerda", sejam os esquerdistas de senso crítico frágil, sejam os pseudo-esquerdistas (tipo Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches), surgidos dos mais direitistas biombos da intelligentzia brasileira.

É preciso separar o joio do trigo da música brasileira. É verdade que os intelectuais possuem empregadas domésticas, que muito do medo de criticar a breguice dominante está nos preconceitos positivamente paternalistas da intelectualidade, mas defender os bregas e derivados não vai contribuir para o reconhecimento da cultura das classes populares.

Muito pelo contrário, o que se faz é defender apenas a "cultura" promovida pelos donos de rádio e TV regionais, ligados às mesmas elites que promovem a corrupção política e a concentração de terras no nosso país.

Daí um erro estratégico de boa parte da intelectualidade média de esquerda, incluindo muitos escribas das revistas Fórum, Carta Capital e Caros Amigos. No âmbito político, eles estão ao lado do MST, mas culturalmente eles preferem estar ao lado da UDR.

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