sexta-feira, 16 de março de 2012

POR QUE ESPERAMOS DEZ ANOS PARA QUESTIONAR A INTELECTUALIDADE?



Por Alexandre Figueiredo

Erramos ao esperar dez anos para contestar a intelectualidade etnocêntrica que acabou determinando a visão dominante de cultura popular, mais voltada para os interesses dos donos de mídia, dos empresários do entretenimento e dos gerentes de rádio FM do que do povo, reduzido a uma massa consumidora apenas teoricamente tida como "produtora de cultura".

Deixamos que uma geração de intelectuais, dotados de posições preconceituosas quando às classes populares mas autoproclamados "sem preconceitos", impusessem sua visão em defesa do brega-popularesco, a pseudo-cultura "popular" da velha mídia. Isso fez prolongar o mercadão dos ditos "sucessos populares" e mesmo a decadência de vários ídolos tornou-se reversível pela imagem de "coitadinhos" que passaram a ter através dessa intelectualidade paternalista.

Gente como Milton Moura, Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Bia Abramo, Ronaldo Lemos, Mônica Neves Leme e outros, vários deles financiados pela Fundação Ford, Fundação Rockefeller e até pela temível Soros Open Institute, passaram a medir o folclore brasileiro através dos cardápios radiofônicos e dos valores e ídolos em evidência na TV aberta.

Deixamos eles tomarem os microfones e os meios discursivos, usando dos mais sofisticados recursos retóricos e se apropriando até mesmo de intelectuais do passado para justificar a mediocrização cultural reinante. Nem Oswald de Andrade e Gregório de Mattos escaparam na "defesa" forçada da mediocridade atual.

Abordagens confusas foram feitas, com alguns toques de pieguice e outros de puro reacionarismo, ora jocoso, ora raivoso, passaram a defender os ídolos brega-popularescos sob o pretexto de que o "mau gosto" tornou-se a "nova bandeira" de uma suposta revolução popular.

No entanto, a visibilidade desses intelectuais e a forma altamente persuasiva que eles demonstraram tais visões, sobretudo carregando no relativismo mais cafajeste, fizeram eles convencerem as plateias que, desprevenidas, passaram a aplaudi-los incondicionavelmente. E abriu caminho até para troleiros que não suportam ver seus ídolos serem criticados.

A visão de cultura popular, dessa forma, acabou sendo deturpada, porque vai uma grande diferença da cultura popular antiga, que era altiva, vibrante e de excelente qualidade, e a "cultura" brega e seus derivados, resignada, tendenciosa e de qualidade duvidosa.

Virou uma grande desculpa justificar a suposta façanha do "mau gosto", a título de uma aparente provocação a um hipotético moralismo elitista, das mais diversas formas possíveis, como se a mediocrização da cultura popular pudesse ser mascarada por algum verniz enobrecedor.

Isso fez com que a cultura das classes populares passasse por um regresso muito grande. Já distanciadas de seu próprio patrimônio cultural, que o contexto político e midiático da ditadura militar fez os antigos cancioneiros populares serem confinados para a apreciação privada da classe média, as classes populares foram entregues a uma crise de identidade que produziu uma "cultura" esquizofrênica por imposição das rádios e TVs controladas por oligarquias.

Se o brega consegue ser expressão artística de alguém, ela o é de parte dos barões regionais da grande mídia e dos empresários do entretenimento locais que patrocinaram a mediocridade artística de seus vários estilos. As chamadas "periferias" apenas eram associadas simbolicamente, mas no fundo não passa de uma massa consumidora quase passiva, mas bastante submissa às regras do mercado midiático dominante.

Isso a intelectualidade associada não quer admitir e resiste furiosamente, dentro dos seus picadeiros acadêmicos das palestras aplaudidas sem discernimento, a qualquer visão a respeito. Para eles, um empresário do entretenimento brega, mesmo o mais rico e já latifundiário, se equipara a um engraxate, sendo também um "pobrezinho".

Não houve um intelectual que pudesse, dentro do contexto de esquerda, enfrentar com a mesma visibilidade os Mouras, Viannas, Sanches e Lemos em busca de aplausos de focas nos seus picadeiros acadêmicos. Até tivemos um Ruy Castro, Dioclécio Luz, Mauro Dias para mostrar as irregularidades desse "popular midiático", mas os apologistas que vieram depois logo ridicularizaram os primeiros, classificando-os cinicamente como "preconceituosos".

Como Castro, Luz, Motta e outros poderiam ser "preconceituosos" se eles analisavam o "popular midiático", o "popular de mercado", com uma visão bastante crítica e analítica? Eles já possuem os conceitos daquilo que criticam, não estavam no estágio do pré-conceito, como acusavam os outros.

Estes, sim, é que eram preconceituosos. Daí a atitude infeliz de Leonardo Sakamoto, apesar de sua postura progressista em outros assuntos, de não querer que o povo volte a ouvir sambas, baiões, modinhas e outros ritmos autênticos, mas de continuar ouvindo os sub-produtos do brega, como o "funk", a axé-music, o breganejo, o sambrega, o forró-brega e o tecnobrega.

Em outras palavras, como aceitar que um intelectual tenha a coragem de dizer que o povo pobre deve ser privado de sua própria herança cultural, que "sua cultura" agora é apenas a indigência indigesta dos cardápios radiofônicos e televisivos servidas pelo coronelismo midiático?

Por isso é duro questionar essa intelectualidade, apesar de certas vitórias. É verdade que, no meio do caminho, essa intelectualidade divinizada comete seus tropeços. Paulo César Araújo enfurecendo os fãs de Roberto Carlos, Pedro Sanches os de Chico Buarque, Hermano Vianna os detratores da Globo. Pode ser que isso não influa decisivamente na queda de seu "poder divino" de seduzir as massas, mas tudo isso já é um arranhão que põe suas reputações em xeque.

A discriminação ao senso crítico, visto por estes intelectuais como "preconceito", é, sim, uma visão preconceituosa. Afinal, não podemos sempre aceitar o estabelecido, ainda mais quando existe alguma coisa errada. E apenas "não gostar" e ficar calado não ajuda na compreensão real das coisas. Pelo contrário, deixa-se o problema agravar a todo momento.

A mediocridade cultural cresceu tanto que os medíocres de outrora já são vistos como "gênios", "mestres da gente simples". E, amanhã, talvez, se deixarmos, a canção popular se reduzirá tão somente a arrotos, peidos e soluços. E quem serão os mestres de então? MC Créu?

Num contexto de transformações sociais, o brega-popularesco tem que ser questionado, sim. Se os intelectuais não gostam que questões estéticas e de gosto sejam discutidas, o problema é deles. Eles têm que se contentar, por enquanto, porque passaram dez anos sem ter intelectuais com visão oposta que tenham a mesma visibilidade.

Mas, com a evolução do senso crítico, esse grande erro poderá ser sanado, quando pensadores que questionassem corajosamente as armadilhas da "cultura de massa" se projetarem diante do desgaste ideológico da intelectualidade etnocêntrica. E aí, os aplausos diminuirão, na medida em que a plateia começará a desconfiar um tanto das coisas.

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