segunda-feira, 12 de março de 2012

A "´PERIFERIA LEGAL" E O ORGULHO DE "SER POBRE"


PRA TURISTA VER - "Emancipação" das favelas, segundo a grande mídia, se limita apenas à "cidadania de mercado". Na foto, o príncipe Harry visitando o Morro do Alemão, no Rio.

Por Alexandre Figueiredo

O que é "ser pobre", para a velha grande mídia? Para ela, e para seus intelectuais etnocêntricos - mesmo aqueles infiltrados na mídia esquerdista - , trata-se de uma mera postura simbólica de uma classe média que se quer "mal vestida" e comprometida com as ditas "expressões da periferia", que são o brega-popularesco mais rasteiro.

A simbologia, na verdade, é um pano de fundo para o processo de elitização dentro das favelas, em que surge uma "classe média" favelada que, domesticada pela grande mídia e pelo mercado, tenta guiar aqueles que continuam pobres decidindo o que eles têm que consumir e fazer para se "afirmarem como gente".

É certo que é necessário que as populações das favelas se emancipem social, econômica e, sobretudo, culturalmente. Mas, da forma como acontece esse processo de "periferia legal", de uma espécie de "ufanismo da pobreza", enquanto surge por debaixo dos panos uma "classe média" favelada que exerce poder sócio-econômico sobre seus antigos pares, é algo que merece ser visto com mais cautela.

É certo, como na reportagem de ontem no Segundo Caderno de O Globo noticia, surgem novos cineastas, produtores culturais etc dentro das favelas pacificadas do Rio de Janeiro. Mas o problema é que, em vez de haver uma preocupação com as contradições sociais históricas que condicionaram essa pobreza.

Em vez disso, cria-se uma solução conciliatória, de "superação" da pobreza sem que os verdadeiros conflitos de classes sejam realmente resolvidos. Cria-se um "pacto social" com as elites. As elites ajudam os pobres a ficarem "menos pobres", enquanto estes aceitam as regras do mercado. Tudo de forma bastante sutil.

Afinal, vivemos num período de soft power. A dominação social das classes subalternas deixa de ser feita através da força e passa a ser feita através de projetos aparentemente "assistenciais", com a relativa aceitação, pelos detentores de poder, de relativas melhorias sociais.

Para as gerações mais recentes, que mal começaram a conhecer o mundo pelas consultas bibliográficas, não existe uma diferença precisa entre soft power e socialismo. Com o deslumbramento do projeto Jornalismo das Américas do norte-americano Knight Center, praticamente entregamos as chaves para Tio Sam, que espertamente se dispôs de um "porteiro" bem brasileiro, para não despertar suspeitas.

A senha é certeira. Qualquer dono de poder que falar em "novas mídias digitais" vira herói e ganha unanimidade, pouco importam as armadilhas que surgem no meio do caminho. Se qualquer CEO da vida falar que o futuro da humanidade está no clique de um mouse por si só, ele vira um profeta, um semi-deus.

E, a reboque disso, vemos a ideologia da favela glamourizada, transformada em paisagem de consumo, com seus barracos promovidos a "arquitetura pós-moderna". Não foi para isso que lutaram os históricos movimentos sociais ligados aos morros em nosso país.

Afinal, hoje em dia muitos prometem a livre expressão do senso crítico, mas, na prática, eles querem mesmo é tornar o debate público brando. Não precisamos lutar por reforma agrária, ela "já acontece", de acordo com as normas de mercado.

Temos apenas uma "cidadania do mercado", para turista ver. Um "ativismo social" domesticado, uma "cidadania de mercado" que é "provocativa" sem provocar, é "transformadora" sem transformar, é "questionadora" sem questionar, e que nem de longe é a tal "revolução" que a reportagem de O Globo anuncia alegremente.

Tudo acaba sendo burocrático, paliativo, nada mais inquieta porque a "inquietação" agora é mais quieta e cômoda. Em vez de se superar, de fato, a pobreza e a miséria em nosso país, apenas "emancipamos" alguns pobres para integrá-los à "cidadania de mercado", e seu discurso "progressista" apenas se efetiva dentro dos limites que não incomodem os donos do poder.

E a proteção à mediocrização cultural é garantida, para estabelecer-se o controle social não mais das altas esferas do poder econômico, mas por colaboradores cooptados das próprias favelas. Eles é que decidem o que é "cultura", investindo numa retórica e no aparato de "diversidade cultural" para dar a impressão de que "tudo está bem".

Mas lá está o tal "funk, que não para de se reinventar", que na prática é a mesma mesmice de sons de sirenes, balbuciações e manobras no toca-discos. Porque o samba é bom quando nos salões da burguesia, a essas alturas a madame da canção de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida tomou do povo pobre seus sambas para a apreciação privativa das elites.

A intelectualidade etnocêntrica e festejada mais parece a madame de outros tempos. Eles sentem horror em ver o povo pobre ouvindo baiões, sambas, maracatus, cocos, modinhas, cateretês, afoxés, marchas-rancho e outros ritmos genuínos. Preferem que o povo "faça sua cultura" a partir dos "funks", forrós-bregas, "pagodões", "sertanejos", tecnobregas e outras diluições empurradas pelas rádios que nada têm de vinculadas às periferias.

A suposta abertura às manifestações culturais de qualidade só serve para manter as aparências. No fundo, o povo pobre "pode curtir MPB, sim", mas desde que seja de forma secundária. Daí o jargão "também curto MPB" de muita gente nas redes sociais, quando sabe-se que o gosto prioritário desse pessoal todo é nas mesmas tosqueiras do brega-popularesco.

E, no âmbito cultural como um todo, vemos que essa "revolução cultural" só faz promover o "orgulho de ser pobre", a pretexto de que apenas uns (poucos) pobres se emanciparam e hoje atuam a serviço do mercado, de um projeto de "cidadania" para turista ver e investidor (e até especulador) aplicar dinheiro.

Mas, com uma intelectualidade soros-positiva e com uma multidão ainda pouco informada do que está por trás das aparências, tudo fica lindo. Chora-se por uma canção de Waldick Soriano, Wando e José Augusto, até Michael Sullivan é considerado "pobrezinho" e Gaby Amarantos e Mr. Catra "estão fora da mídia" mesmo entrando na Globo pelas portas da frente.

Então vivemos num país das fantasias, com toda uma estética de sonho, cor e fantasia. A "Disneylândia do mau gosto", a "ditabranda" da mediocrização cultural, a galeria de "coitadinhos" que cantam para a "gente simples". Uma "gente simples" que se distrai chorando, resignada pela impotência imposta pela grande mídia de qualquer mobilidade social.

Enquanto isso, o mundo ferve lá fora. E o povo aqui ouvindo Waldick, funqueiros, tecnobregas etc...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...