domingo, 4 de março de 2012

PEDRO ALEXANDRE SANCHES E O FARDO DE ESCREVER SOBRE CHICO BUARQUE


ATÉ O ASSESSOR DE CHICO BUARQUE, MÁRIO CANIVELLO, ACHA QUE PEDRO SANCHES QUER VOLTAR À GRANDE MÍDIA...

Por Alexandre Figueiredo

É verdade que nossa imprensa de esquerda é incipiente, e que a maioria de seus leitores, na verdade, tem sua formação ideológica originária da apreciação da Folha de São Paulo e da Rede Globo, décadas atrás. Ou seja, muitos desses leitores corroboram ainda muitas visões de "cultura popular" difundidas por esses veículos conservadores da velha grande mídia.

No entanto, algumas pessoas culturalmente mais exigentes não caem nas ilusões e estabelecem seu senso crítico até mesmo nos pontos em que a imprensa esquerdista falha. As esquerdas são criticáveis, sim, mas através das ideias e não do ódio "caçador de petralhas".

E aí que o caso de Pedro Alexandre Sanches, crítico conhecedor de música brasileira convertido em arauto da mediocrização cultural brasileira, que, nos seus "passeios" pelas redações esquerdistas, foi primeiro criticado em Carta Capital, por conta do apoio dado a este por nomes midiáticos como Zezé di Camargo & Luciano e pela sua análise sobre a crise da MPB, em que apresentou uma visão condescendente aos "sucessos populares" midiáticos.

Em 2008, lendo tal texto sobre a crise da MPB, eu havia escrito no Preserve o Rádio AM, antigo sítio relacionado à mídia que eu havia feito no Geocities, que a música brasileira, sem dúvida alguma, não deveria se tornar uma "Academia Brasileira de Letras" musical, mas não poderia se tornar, em contrapartida, a "Casa da Mãe Joana".

Em outras palavras, a música brasileira, através de minha análise de então, não poderia ser a "MPB burguesa" confinada na apreciação privativa das elites, como por outro lado não poderia ser o "vale-tudo" do mau gosto, das portas abertas à mediocridade musical mais aberta.

Ultimamente, o que Pedro Alexandre Sanches fez, seja na Carta Capital, na Caros Amigos e na Revista Fórum, foi alternar resenhas sobre artistas menos "incômodos", ainda que bastante talentosos e inteligentes, da MPB autêntica, e apologias "provocativas" de nomes do brega-popularesco, através do método de promover certos ídolos bregas como "injustiçados".

De repente, a presença de Pedro Sanches na Carta Capital tornou-se mais rara, talvez pelas críticas que ele recebeu do público mais exigente. Já na Fórum, nos últimos meses, ele havia recebido críticas que talvez teriam feito o jornalista escrever sobre a tradicional cantora caipira Inezita Barroso, na edição do mês passado, numa tentativa de tentar agradar as gerações mais velhas.

Sanches resolveu então, no blogue Ultrapop no portal Yahoo!, escrever sobre Chico Buarque, símbolo da MPB "biscoito fino" hostilizada pelo jornalista. Embora o colonista-paçoca tenha feito a sua obrigação de resenhar uma apresentação ao vivo do cantor e compositor, boa parte do texto se dedica a relatar o clima de animosidade entre Sanches e o assessor de Chico, Mário Canivello, que pelo jeito sacou o estilo do outro.

"O velho Pedro Alexandre Sanches de sempre. O que uma pessoa não faz na tentativa de voltar à grande mídia, hein...", ironizou Canivello.

Mas Sanches, em seu texto, também havia feito comentários irônicos quando a imprensa ainda aguardava uma entrevista com o cantor, que então fazia a passagem de som. "Será que, tantos anos depois, o mais amado, idolatrado e respeitado de nossos compositores populares ainda fica amedrontado diante do encontro forçado com a 'imprensa'?", indagou Sanches.

A certa altura, Sanches denomina de "copyleft", um apelido exagerado para a "flexibilização" dos direitos autorais do Ministério da Cultura na gestão de Gilberto Gil. E em seguida faz uma crítica à divergência de Chico Buarque e Rita Lee (que, vale lembrar, cantou o refrão "não quero luxo, nem lixo", que serve de recado aos defensores do brega-popularesco) com parte da imprensa musical.

E aí Sanches se preocupa com a fortuna de chicos e ritas, "às custas de todos nós, de empresários ladrões a críticos recalcados, de assessores dominadores a fãs ensandecidos de amor & despeito". Quanto aos "empresários ladrões", Sanches desconhece completamente que esta espécie é muito comum no "maravilhoso" mundo da "cultura das periferias" (segundo a concepção do jornalista), com os chamados "grupos com donos" do tecnobrega, "forró eletrônico", "funk carioca", "pagodão" baiano etc.

E, "inimigo" do mercado, Sanches ainda cita que Chico Buarque havia gravado discos por multinacionais, como o Clash e os Ramones gravaram, o que não é desmérito algum se o artista impõe à vontade do executivo.

E, de fato, Ramones, Clash, Bob Dylan e nosso Chico sempre impuseram suas vontades acima da dos executivos, enquanto nas gravadoras "independentes" (sic) do tecnobrega, "funk carioca", "pagodão" etc, com toda a estrutura "modesta" e a completa ausência de escritórios em São Paulo, Los Angeles e Nova York, é a vontade dos executivos que prevalece sobre os interesses (ou a falta deles) dos sorridentes "artistas populares".

Pedro Sanches fica tão assustado quando vê que o Banco Icatu é acionista da Biscoito Fino Discos, mas não fica estarrecido com as doações do magnata George Soros que, diretamente ou não, sustentam funqueiros e tecnobregas e seu mercado dito "independente", mas com QI igualzinho ao dos grandes oligopólios fonográficos mundiais.

No fim, Sanches sai deprimido, angustiado e louco para ir embora. Certo de que não ocupa mais o pedestal da intelectualidade etnocêntrica. Afinal, o senso crítico do público que redescobriu Chico Buarque e reprova a superficialidade de Michel Teló começa a vigorar.

A culpa não é minha, nem de você, prezado leitor. São os rumos do país que cobra melhorias e não acredita em armadilhas em defesa do "estabelecido". Defender o "funk carioca" e o tecnobrega a título de "lutar contra o preconceito" e com o preço de ocultar questões de estética e de gosto, em vez de estimular seu debate, como fazem os intelectuais respeitados de fora, é uma coisa que não convence mais.

Crises como Pinheirinho (São José dos Campos) e os conflitos de terra paraenses, além da tradicional violência da Baixada Fluminense são coisas muito duras para que as periferias autênticas - não as de mentirinha dos textos de Sanches, Hermano Vianna, Ronaldo Lemos etc - se ocuparem demais com funqueiros e tecnobregas despejando baixarias gratuitas.

Afinal, passado o "Xou da Xuxa" da intelectualidade etnocêntrica e sua plateia que aplaude sem pensar, deixa-se o deslumbramento de lado, aos poucos. E, relendo com atenção os textos que a intelectualidade "divinizada" escreveu, reconhecemos equívocos no raciocínio deles, aceitos por muitos de nós através de uma leitura apressada.

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