domingo, 25 de março de 2012

OS "GRUPOS COM DONOS" DA PSEUDO-CULTURA "POPULAR"


CAL ADAN - Um dos chefões do mercado dos chamados "grupos com donos".

Por Alexandre Figueiredo

Um dos fatos que a intelectualidade etnocêntrica faz vista grossa quando defende a suposta "cultura popular" midiática é a existência de "grupos com donos".

São conjuntos musicais integrados por pessoas ingênuas, às vezes acompanhados de dançarinos, que são controlados por empresários que tudo decidem nas carreiras desses grupos. É um fenômeno que não é novidade na música comercial, mas chega a ser visto com esnobismo pelos defensores da mediocridade cultural brasileira.

Se na música em geral os grupos são comandados por vocalistas e, no rock e no jazz, há grupos liderados por instrumentistas solistas, sem falar das orquestras de jazz e música erudita comandadas por maestros, no canhestro brega-popularesco, como em toda música comercial mais rasteira, há grupos comandados por seus empresários.

Os "grupos com donos" tiveram seu exemplo mais conhecido através do fenômeno comercial É O Tchan, que pusou todo um esquema de grupos de "pagodão sensual" controlados pelos seus empresários, a partir do dono maior de vários deles, o baiano Cal Adan, que além do É O Tchan detinha vários grupos similares, em meados dos anos 90.

Cal havia comprado o então grupo Gerasamba, que não tinha dançarinas e que, através do negócio, teve um "racha" entre seus membros. O grupo então se dividiu entre a parte que queria continuar como Gerasamba e a parte que aceitava virar É O Tchan. O primeiro disco do É O Tchan chegou a ser lançado com o nome de Gerasamba, mas depois o nome foi mudado.

Grupos com donos existem nos mercados ditos "independentes" do brega-popularesco. Aqueles em que há a desregulamentação do mercado musical, onde não tem copyright, não tem salário decente e, não raro, nem sequer tem carteira assinada. Seus integrantes, não raro, nem chegam a compor as músicas que cantam, tocam ou dançam e até para dar entrevistas eles são "orientados" pelo empresário sobre o que devem ou não dizer.

Eles existem no forró-brega, no tecnobrega, na tchê music, no arrocha, na axé-music e no "funk carioca", entre outras tendências. Mas, mesmo no chamado "sertanejo universitário", já começam a surgir tantas duplas que já dá para desconfiar se elas também não seriam "duplas com donos" a pipocar em cada esquina ou até em qualquer condomínio de luxo das grandes cidades.

Esse é o lado obscuro, sombrio, daquilo que a intelectualidade diz ser a "verdadeira cultura popular". Até Milton Moura havia citado os "grupos com donos" como se fosse algo positivo. Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna, então, fazem vista grossa, tal qual Ronaldo Lemos e similares.

A desculpa usada é que esses empresários são vistos como se fossem apenas "gerenciadores" das carreiras desses grupos. Os próprios empresários têm que se autoproclamar "produtores culturais" para evitar encrenca, e evitam o máximo possível de aparecer com ternos, gravatas e sapatos de verniz, aparecendo em festas de gala usando sempre tênis e, quando muito, "quebrando" o uso de paletós com camisetas, jeans rasgados e tênis esportivos.

A própria retórica da intelectualidade dominante tenta livrar a pele deles de qualquer problema. Na retórica relacionada à suposta "cultura das periferias", esses empresários são equiparados a qualquer feirante ou sindicalista, como se o enriquecimento financeiro dos empresários desses grupos musicais fosse "acidental" ou "mera coincidência".

Além do dono do É O Tchan, Cal Adan, outros nomes famosos por controlar grupos ou intérpretes musicais são os DJs de "funk carioca" Rômulo Costa, da Furacão 2000, e Fernando Mattos da Mata, o DJ Marlboro, que além de intérprete é empresário de intérpretes funqueiros.

No entanto, a postura "simpática" desses "humildes produtores culturais" esconde um rigor empresarial cruel. Em muitos casos, eles moldam os grupos musicais, as duplas, os MC's, conforme suas vontades. E, não raro, o esquema é escravista, como no caso dos intérpretes menos conhecidos de tecnobrega e forró-brega, que vem na carona na multiplicação de nomes para vender tais tendências.

Não raro, várias manobras são criadas. Se a funqueira "boazuda" é casada, seu marido é indenizado para viver longe dela, escondido em algum canto do Brasil, enquanto a funqueira faz papel de "solteirona irremediável" nas suas aparições na grande mídia. A "solteirona" é uma personagem, trabalhada como "verdadeira", para promover a funqueira como "símbolo sexual" e vender as revistas que a contratam para fazer fotos "sensuais" para reforçar a renda para ela e seu empresário.

Essa manobra chega a usar desculpas frouxas, porém verossímeis, quando se deixa vazar certas atitudes. Como numa compra da super motocicleta pela funqueira que não parece ser inclinada a pilotar motos daquele porte, o que sugeriria que a moto seria destinada ao marido dela, já que, por outro lado, ela também não é conhecida por ter um irmão piloto de motocross.

Neste caso, cabe a desculpa esfarrapada de que a moto seria "para ela mesmo" e que ela apenas "sonharia" passear com a super moto junto a um "gatinho" pretendente. A desculpa foi dada na grande imprensa popularesca, e ficou por isso mesmo.

A própria dançarina do É O Tchan, Scheila Carvalho, acabou revelando, sem querer, que teve que esconder, por razões contratuais, os cinco primeiros anos de seu casamento com o colega Tony Salles (hoje vocalista do baiano Raghatoni). Em 2011, ela celebrou os dez anos de casamento, mas quem acompanhou a imprensa entre 2001 e 2006 veria que Scheila era tida como "solteiríssima" em várias fontes.

Em outros casos, como no forró-brega, o controle de empresários chega a estimular disputas ferozes sobre quem vai ficar com uma nova música, prestes a fazer sucesso nas rádios, feita geralmente por um forrozeiro quase anônimo ou por um mascate, borracheiro ou um frentista de posto de gasolina.

A intelectualidade comemora, já que até feirantes, frentistas de postos de gasolina ou, quem sabe, mendigos, possuem, em tese, grande chance de fazerem sucessos como compositores. Fazem qualquer bobagem, vendem para empresários do entretenimento - considerados "pobres de marré de si" pela intelectualidade associada - e um grupo de forró-brega grava cada música, coloca na trilha de novela da Globo como tema de um "núcleo popular" e, pronto.

Aí é só Pedro Alexandre Sanches ou um outro qualquer choramingar por que o grupo de forró-brega tal "não possui reconhecimento artístico", a pretexto do grupo ser hábil em lotar plateias em todo o país e ser ouvido pelos quatro cantos do Brasil etc.

O aspecto mais grave desses "grupos com donos" é que eles, associados oficialmente às "culturas das periferias", são na verdade exemplos da verdadeira escravidão artística, e expressões do mais puro poderio dos empresários de entretenimento que se enriquecem por trás desse espetáculo.

Além do mais, os cantores, músicos e dançarinos se resumem a empregados passivos, ingênuos, que apenas representam a "cultura do povo pobre" de maneira simbólica e formal. No entanto, são pobres trabalhando para ricos, gente rica dentro de suas regiões, mas que precisa se caraterizar como "pobre" enquanto vive, na privacidade, dentro de apartamentos de luxo e, em certos casos, sendo donos de fazendas administradas por "laranjas".

Esse processo faz cair a máscara do que é realmente essa pseudo-cultura "popular". Um mercadão traiçoeiro, tendencioso e autoritário, que nada contribui para o progresso das classes populares e que apenas simula uma "verdadeira cultura popular" que nada tem de verdadeira. Porque tudo isso só alimenta o consumo, lota plateias e arrasta multidões, mas não traz valores culturais de verdade para o progresso social do povo das periferias.

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