quinta-feira, 29 de março de 2012

O SURPREENDENTE "ENCONTRO" ENTRE FRANCIS FUKUYAMA E PEDRO ALEXANDRE SANCHES



Já advertimos aos caros leitores da influência do historiador do "fim da História", Francis Fukuyama, na formação ideológica do festejado jornalista musical Pedro Alexandre Sanches. Sabemos que Pedro, que participa do blogue Farofafá e escreve para Caros Amigos e Fórum, na verdade defende o "fim da História" na Música Popular Brasileira, às custas da ruptura com uma das práticas milenares da intelectualidade autêntica: o debate estético.

Francis Fukuyama, um dos papas do pensamento neoliberal, acredita na perfeição da "democracia liberal" e na economia capitalista. Pedro Alexandre Sanches, embora "condene" o mercado e a grande mídia, defende justamente os ídolos musicais e os valores ligados aos dois "entes". Ou seja, Sanches defende o mercado e a grande mídia de todo jeito, embora tente dar a impressão contrária.

Mas aqui não vamos fazer comentários de inferência. Deixemos aqui para que Sanches e Fukuyama digam, em suas próprias palavras - no caso de Fukuyama, "em termos", por conta de uma tradução em português - , suas visões de "fim da História". As semelhanças de argumentos são contundentes.

As frases de Pedro Sanches foram extraídas de várias fontes (Caros Amigos, portal Vírgula, Farofafá) e as de Fukuyama foram extraídas do próprio livro O Fim da História e o Último Homem, original de 1992, mas na tradução portuguesa de Maria Goes, publicada pela editora lisboeta Gradiva, em 1999. No entanto, o texto aparece aqui em grafia brasileira, porque eu copiei o texto a mão, pelo natural costume de eu ser brasileiro.

Pedimos paciência para os leitores observarem com calma os argumentos confrontados, e certamente será surpreendente verificar a afinidade ideológica de ambos os escritores. Onde se lê "lutas ideológicas" em Fukuyama, em Sanches se lê "questões estéticas e de gosto".

Notem que ambos são contra o que entendem por "preconceito", se posicionam contra princípios e lutas ideológicos, se acham "acima da direita e da esquerda" e defendem princípios liberais para a sociedade contemporânea. Concluiremos que o "último homem" de Fukuyama fica em casa ouvindo "funk carioca", tecnobrega e afins e não quer saber de questões estéticas e ideológicas.

"Nele (artigo "O fim da História?", The Internacional Interest, verão de 1989), defendia que, nos últimos anos, tinha ocorrido por todo o mundo um consenso notável quanto à legitimidade da democracia liberal, como sistema de governo, na medida que esta triunfava sobre ideologias rivais, como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo. Mais do que isso, porém, eu defendia que a democracia liberal poderia constituir o 'ponto terminal da evolução ideológica da humanidade', e a 'forma final de governo humano' e, como tal, constituiria 'o fim da história'. Isto é, enquanto anteriores formas de governo eram caraterizadas por graves imperfeições e irracionalidades, que conduziam ao seu eventual colapso, a democracia liberal estava comprovadamente livre dessas contradições internas fundamentais" (Francis Fukuyama, capítulo "Á Guisa de Introdução").

Em relação ao colapso dos "paradigmas de cultura brasileira", Pedro Alexandre Sanches também dá seu "ponto terminal da evolução ideológica humana", através do liberalismo brega:

A música brasileira nunca mais vai ser a mesma depois desta primeira década dos anos 2000. Como todo mundo está cansado de saber, nesse período a explosão da internet levou ao colapso total os hábitos antigos da indústria fonográfica. Artistas que viviam presos a gravadoras, contratos e direitos autorais se tornaram independentes, e os que não se tornaram encolheram um bocado, em tamanho e importância.

A primeira década deste novo século tem sido um tempo de libertação para a música. Hoje, ela pulula pela grande rede, mais parecida com água saindo da torneira que com algumas canções aprisionadas dentro de um disquinho laser. Isso mudou radicalmente o mundo da música, e o Brasil está surfando muito bem, obrigado, nestes novos tempos.

A grande novidade, nesse cenário mais amplo e arejado, é o desenvolvimento de modos inéditos e altamente criativos de produzir, gravar, distribuir, divulgar e consumir música. É o que vem acontecendo em inúmeras cenas locais (Rio e São Paulo já não são tão importantes como antenas captadoras e difusoras de modas musicais), e a do chamado tecnobrega do Pará é a mais vigorosa.
(Pedro Alexandre Sanches - portal Vírgula - 22/12/2009)

Sobre o termo "fim da História", segue a argumentação de Fukuyama:

"Num primeiro instante, muitas pessoas ficaram confusas com o meu uso da palavra 'história'. Entendendo a história no sentido convencional, como ocorrência de acontecimentos, as pessoas apontavam a queda do Muro de Berlim, a repressão comunista na Praça Tia'nanmen (Praça da Paz Celestial) e a invasão iraquiana no Kuwait como provas de que a "história continuava" e de que eu estava, ipso facto, comprovadamente errado.

No entanto, aquilo que eu havia sugerido que terminara não era a ocorrência de acontecimentos, mesmo de acontecimentos maiores e momentosos, mas a história: isto é, a história compreendida como um processo singular, coerente e evolutivo, tendo em conta a experiência de todos os povos em todos os tempos."
(Francis Fukuyama, op. cit)

Pedro Alexandre Sanches, mesmo numa argumentação mais ligeira e curta, guarda semelhanças impressionantes em relação ao historiador norte-americano, neste texto sobre o documentário de MPB Uma Noite em 67. Confiram:

"Se o prumo saudosista persiste, mudemos de rumo. A espontaneidade das cenas de bastidores de 1967 é útil para não trazer nostalgias do que já não temos mais (ou nunca tivemos, no caso das gerações mais recentes)." (Pedro Alexandre Sanches, Caros Amigos, junho de 2010).

Se Pedro Alexandre Sanches acaricia demais as esquerdas, Francis Fukuyama usa Karl Marx para, junto com o também filósofo alemão Georg Hegel, "justificar" o "fim da História" defendido pelo norte-americano. Segue o trecho em questão:

Tanto Marx quanto Hegel acreditavam que a evolução das sociedades humanas não era ilimitada, mas que terminaria quando a humanidade conseguisse atingir uma forma de sociedade que satisfizesse as suas mais profundas e fundamentais aspirações. Os dois pensadores postulavam, pois, um 'fim da história': para Hegel era o estado liberal, enquanto para Marx era uma sociedade comunista. Isto não significava que o ciclo natural do nascimento, vida e morte acabasse, que deixassem de ocorrer acontecimentos importantes ou que os jornais que os noticiam deixassem de ser publicados. Significava, outrossim, que não haveria mais progresso no desenvolvimento dos princípios e instituições fundamentais, porque todas as questões verdadeiramente importantes tinham sido resolvidas". (Francis Fukuyama, op. cit)

Pois se não havia mais "questões importantes" no pensamento de Fukuyama, também não havia para Sanches, que as define como "questões estéticas". Vejamos então, num texto curiosamente intitulado "Feliz Fim do Mundo para Todos Nós", um trocadilho com as profecias de 2012 feito por Sanches. Ou não seria uma alusão ao "fim da História"?

"A “relevância estética” sempre se definiu do mesmo modo, à margem de nós-punheteiros: o que as pessoas consomem mais é o que elas consideram de mais qualidade. Encher a boca pra falar de “questão estética” e se recusar a avaliar Ivete Sangalo, Banda Calypso e Michel Teló não tem nada de estético: é ideológico. Mais fácil ter raiva de quem vende mais que a gente (jornalistas incluídos), subir num pedestal e proclamar, com a boca cheia de batata quente: “Isso não presta”.

(...)

Por essas e por outras eu já há alguns anos renunciei de comentar qualquer “questão estética” (bem, nem sempre…): vocês não precisam de mim pra dizer o que vocês devem ou não gostar. Quanto mais liberdade, quanto menos jabaculê, quanto mais moeda solidária, mais a questão estética vai se impor espontaneamente, sem rédeas nem cabrestos. É isso que muita gente tá tremendo de medo por intuir, principalmente nos velhos e depenados topos-de-cadeia.

Cacilda, será que em 2012 a gente consegue (e quer) parar de girar feito disco riscado, largar de lado um pouco a giração em círculos de “cachê”, “questão estética” e outras velharias que torraram o saco de todo mundo em 2011? (Pedro Alexandre Sanches - Blogue Farofafá - 24/12/2011)

Francis Fukuyama faz suas definições sobre "o último homem" e "o fim das ideologias" que pode muito bem se encaixar no pensamento de Pedro Sanches, sobretudo na definição do que é "preconceito". Vejam estes trechos e depois comparem até mesmo com os trechos selecionados e outros textos de Pedro Sanches espalhados na Internet, na Caros Amigos e na Fórum.

A semelhança de sentido é gritante, sobretudo na ideia de "libertação" humana e a exaustão, para Fukuyama, da "experiência histórica" e, para Sanches, da "questão estética".

Francis Fukuyama, sobre o último homem:
"A educação moderna, essa educação universal, absolutamente essencial para preparar as sociedades para o moderno mundo econômico (neoliberalismo), liberta os homens de suas amarras à tradição e à autoridade. Eles sabem que o seu horizonte é simplesme3nte isso, não a terra firme, mas uma miragem que desaparece com a aproximação, dando lugar a um outro horizonte. É por isso que o homem moderno é o último homem, exausto pela experiência da história e desenganado quanto à possibilidade de uma experiência direta de valores". (Parte V - O Último Homem)

Fukuyama, sobre o fim da História:
"O último homem, no fim da história, sabe que não o fará porque tem consciência de que a história está cheia de batalhas inúteis, em que homens lutaram por serem cristãos ou muçulmanos, protestantes ou católicos, alemães ou franceses. A história subsequente provou que as lealdades, que impeliram os homens para atos desesperados de coragem e sacrifício, não passaram de tolos preconceitos. Os homens com educação moderna realizam-se ficando em casa, congratulando-se pela sua tolerância e ausência de fanatismo". (op. cit)

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