quinta-feira, 22 de março de 2012

O PRECONCEITO DA MÍDIA CONTRA O FREGUÊS



Por Alexandre Figueiredo

Muitas vezes, a mídia investe num preciosismo de linguagem ou de pretensões que em nenhum modo enobrece a cultura popular. Pelo contrário, a cafonice reinante é cercada de muitos desses pretensiosismos, em que os paradigmas de luxo e lixo se confundem numa conduta esquizofrênica, em que o moderno não é mais do que uma camuflagem do antiquado.

Pois é o que vemos quando a mídia passa a substituir o termo "freguês" pelo termo "cliente". E, infelizmente, não se trata somente da Rede Globo, Folha de São Paulo ou revista Veja. Até mesmo as "insuspeitas" Isto É, TV Bandeirantes e Rede Record também apelam para esse vício preciosista.

Essa prática já foi alertada pelo jornalista Marcos de Castro, através do livro A Imprensa e o Caos na Ortografia, publicado pela Editora Record em 1998. Jornalista experiente, ele estava preocupado com o desvirtuamento do uso da linguagem na imprensa brasileira, criando diversos exemplos.

Talvez Marcos nem sempre acertasse nos seus pontos de vista, como por exemplo na defesa da necessidade de "traduzir" os nomes estrangeiros. Imagine se, em vez de falarmos de Príncipe Harry, falássemos de Príncipe Henriquinho. Mas no caso do uso banalizado da palavra "cliente", Marcos está absolutamente certo.

Afinal, a coisa está tão banal que até quem faz um lanche com pastel e caldo de cana numa feira livre ou quem usa um serviço de um borracheiro não é mais freguês, é "cliente". Esse vício tomou conta de praticamente todos os noticiários da TV aberta e a imprensa escrita segue de carona.

A coisa chegou a tal ponto que não se entende por que o grupo político de Sérgio Cabral Filho, o governador fluminense, e seu pupilo, o prefeito carioca Eduardo Paes, com todo seu oportunismo não decidiram substituir os dois bairros Freguesia, no Rio de Janeiro - um em Jacarepaguá, outro na Ilha do Governador - pelo nome Clientela, tamanha é a discriminação que o termo "freguês" passou a ter.

Uma manipulação dessas, que em vez de enobrecer o comércio popular, trata uma palavra como freguês com desprezo e discriminação, talvez superestimando o uso da palavra pelo anedotário popular, mostra o quanto a nossa mídia é tendenciosa até mesmo na produção de seu vocabulário.

Neste sentido, a mídia grande, que manipula o inconsciente coletivo para além dos limites do noticiário político, torna-se perigosa não apenas pelo manejo de desejos e vontades para o consumo desenfreado das coisas, mas pela manipulação de sentidos, abordagens e até mesmo do vocabulário, afetando as realidades culturais que perdem a espontaneidade comunitária, em prol do tendenciosismo comercial dos gerentes artísticos de rádio e TV.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...