sexta-feira, 23 de março de 2012

O "PRECONCEITO" CONTRA E A FAVOR DE WANDO



Por Alexandre Figueiredo

Parece depoimento de consumidor em comercial do Polishop. "Eu nunca curti brega, mas depois que li o livro do Paulo César Araújo, passei a ver a importância inigualável (sic) de seus ídolos".

Foi assim que, no final de seu texto sobre Wando, na revista Fórum deste mês, Pedro Alexandre Sanches descreveu sua "mea culpa" em nunca ter escrito antes sobre o "genial" cantor. E afirmou ter tido antes "preconceitos" contra ele e outros ídolos bregas.

Sim, o defensor do brega-popularesco não poderia deixar de escrever sobre Wando. Que já havia frequentado a grande mídia, mas a versão oficial é que ele "nunca" apareceu na grande mídia e nem nas editorias de cultura da imprensa conservadora.

Por outro lado, Sanches tenta até mesmo superestimar a imagem de "cantor de protesto" de Wando. Mas isso até Paulo César Araújo, em entrevista a O Globo - sim, O Globo, o mesmo jornal que tem Merval Pereira, Elio Gaspari e Miriam Leitão como colunistas - tentou superestimar.

Tudo isso por conta de uma letra, "Presidente da Favela", que nem foi assim tão contundente. Vejamos os trechos da música, feita em homenagem ao líder comunitário Dalvino de Freitas, que o cantor havia visto numa entrevista de tevê:

"Que sirva de exemplo/ a todas as favelas brasileiras/ arranjem um presidente de boas maneiras/ que a vida lá no morro será bem melhor/ Dalvino de Freitas, presidente da favela/ onde tenho o meu barraco / disse que agora na favela é outro papo/ vamos ter ruas calçadas e água boa de beber."

A letra, como se confere neste trecho, é até bem intencionada, mas dizer que ela "protestou mais" do que qualquer cantor da MPB esquerdista é um grande exagero. Em ato falho, Paulo César Araújo havia dito que Wando conduziu a resistência política à ditadura militar.

Grande engano. O ano da música foi 1977 e, a essas alturas, o protesto havia se tornado até modismo, como Raul Seixas, sabiamente, cantou em "Eu Também Vou Reclamar". A essas alturas, qualquer grupo disco poderia fazer seu "protestinho" numa faixa escondida em algum lado B de seu álbum de carreira.

Pedro Alexandre Sanches, que havia citado o livro de Araújo, da mesma forma que este, foi fazer ataques à MPB esquerdista. Sanches na revista Fórum, Araújo em O Globo. Qual é a diferença? E como é que intelectuais médios de esquerda são capazes de aplaudir de pé esses dois escribas que atacam justamente a cultura musical de esquerda?

Eles se divertem quando Chico Buarque lhes serve de alvo, fazendo o cantor e autor de "Apesar de Você" pagar até mesmo os pecados da irmã e também cantora Ana de Hollanda, na condição de ministra da Cultura e serviçal do ECAD. Mas o próprio Chico não concorda com os procedimentos da irmã no ministério.

Mas isso pouco importa para a intelectualidade etnocêntrica. Essa intelectualidade "sem preconceitos" prefere defender a mediocrização cultural, sem levar em conta, por exemplo, que "brega" é uma palavra que soa como uma possível corruptela do termo inglês beggar, que quer dizer "mendigo".

Para eles, pouco importa se a música tem qualidade. Se fosse na Educação, por exemplo, Pedro Alexandre Sanches, sendo um professor, só aprovaria alunos que tirassem de 0 a 5 na prova, talvez uns poucos de 6 a 8, mas reprovasse, até com energia, quem tirasse 9 e 10.

Pouco importa inteligência, ética, vigor cultural. Só vale a intelectuais assim apenas a pálida presença de alguns elementos "admiráveis" na música brega. Aplaudem o "mau gosto" como se fosse uma bandeira de luta, quando ela não é mais do que uma linha de montagem da música comercial brasileira.

Temos uma música comercial, feita para ganhar dinheiro, tendenciosa e sem valor artístico verdadeiro, mas existem intelectuais que insistem, até em torrentes de lágrimas, em tratar a breguice dominante como "genial", "transformadora" e "revolucionária", quando a única grande façanha que ela causou foi de ordem econômica, atraindo mais público através da campanha persuasiva da grande mídia.

Se existe o tal "preconceito" contra Wando, como o que Pedro Sanches citou, também existe o "preconceito" a favor dele, que o trata como um artista maior do que realmente foi, até com exagero sentimentalóide que ignora até com arrogância as limitações evidentes que esses ídolos do comercialismo musical brasileiro sempre expressaram em suas carreiras. E isso chega ao ponto da pieguice mais chorosa, vinda até de alguns intelectuais considerados renomados.

Mas isso faz sentido. A pieguice é inerente ao brega. E é contagiante, a ponto de pegar desprevenidos intelectuais com sérios limites de senso crítico e de análise realista do país em que vivemos.

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