quinta-feira, 1 de março de 2012

O LADO "JANGO" DA FLUMINENSE FM



Por Alexandre Figueiredo

Há trinta anos, a Fluminense FM iniciou, em Niterói, sua breve trajetória. Era uma rádio de rock, mas como pouquíssimas em nosso país, não era apenas um vitrolão roqueiro, mas uma rádio dotada de inteligência e perfil progressista que marcou a história do rádio e da cultura brasileira.

Com um perfil que lembra o das rádios alternativas que irradiavam desde o auge da Contracultura nos EUA e Europa, a Fluminense FM foi comandada por Luiz Antônio Mello com uma equipe que incluiu várias figuras conhecidas. Até mesmo a hoje jornalista esportiva da Rede Record, Mylena Ciribelli, é uma cria dessa rádio, que em seus breves anos tornou-se um paradigma quase nunca bem compreendido de radialismo rock.

A emissora adaptava a cultura rock e as expressões da cultura alternativa à realidade brasileira. Tinha humor, mas não sucumbia ao besteirol gratuito. Era uma rádio de rock e não uma vitrola sem vida a despejar sons de guitarras. Era uma rádio para jovens, mas sem a linguagem imbecil das rádios pop. E, muito antes do MP3, era uma rádio que apostava em tocar músicas na íntegra, sem locuções nem vinhetas em cima.

Seu repertório era vastíssimo, e não incluía apenas as músicas e intérpretes conhecidos na cultura rock. A programação normal investia num repertório que não era repetitivo e não ficava nas músicas de trabalho, mas ia nas fitas demo (que divulgaram bandas hoje conhecidas como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho), músicas longas (como as do rock progressivo), lados B de compactos, música instrumental e bandas que até hoje nunca foram lançadas pelo mercado fonográfico brasileiro, como Weather Prophets.

A boa performance da Fluminense FM se deu, no conjunto da obra, até 1990. Mas a fase plenamente brilhante durou de 01 de março de 1982 - data da inauguração da emissora, depois de testes de transmissão feitos desde 1981 - até abril de 1985, quando o idealismo era o forte tempero da emissora.

Entre 1985 e 1990, a Fluminense FM havia perdido o idealismo original e os voos da ousadia. O sucesso do primeiro Rock In Rio fez com que outras rádios pop, como Cidade e Transamérica, pegassem carona e "comessem" o sucesso da Fluminense pelas beiradas.

Dessa experiência, veio a rádio 89 FM, da famiglia do coronelista José Camargo (também dona, hoje, da Nativa FM), então filiada ao PDS, que tentou relançar a fórmula original da Flu FM numa versão mais comportada, que foi denominada de "projeto anti-rádio" pelo então coordenador Luiz Fernando Magglioca.

Este projeto original da 89 FM era o mesmo projeto de Luiz Antônio Mello para a Fluminense, mas diluído para um perfil mais "digestível", sem o idealismo crítico da rádio niteroiense e adaptado para o comercialismo da MTV norte-americana, numa época em que não existia MTV no Brasil.

Só que esse projeto da 89 já estava contaminado pelo vírus conservador do radialismo convencional, e tão cedo iria ameaçar o radialismo rock de forma mais trevosa, cerca de dez, quinze anos depois.

Com isso, a Fluminense FM começou a ser deixada de lado na apreciação midiática. Virou uma espécie de "João Goulart" do radialismo rock, idealista mas incômoda. Enquanto isso, a 89 FM, a "patricinha" das rádios de rock, começava a crescer seu poder de influência.

Tão cedo a 89 expurgou locutores que destoavam de seu projeto comercial cada vez mais crescente. Na sua "faxina eletrônica", a emissora paulistana cortou de sua programação até mesmo o rock independente da Baratos Afins, enquanto amarrava seu cardápio musical a uma quantidade limitada de músicas, a nomes mais comerciais, enquanto seu quadro de locutores era preenchido por rapagões que pareciam apresentadores de programas românticos de FMs bregas.

Com tudo isso, a 89 FM entrou nos anos 90 como a "moderna" expressão radiofônica da Era Collor. O presidente Fernando Collor recebia o apoio entusiasmado dos donos da 89, mas nada disso era transparecido na conduta "apolítica" da emissora, reduzida a um vitrolão roqueiro politicamente correto, mas muito falho.

Afinal, eram os locutores do tipo "alô dona de casa", "alô bochechudinha", que tomavam conta dos microfones da rádio, a bajular falsamente nomes como Ramones e AC/DC, grupos admiráveis mas manjados e cada vez mais com repertório "enxugado" apenas nos sucessos mais conhecidos.

As outras rádios que seguiram a fórmula da Fluminense, como 97 FM de Santo André e a universitária paulistana Brasil 2000 (aparentemente rivalizadas pela 89), a gaúcha Ipanema FM e a curitibana Estação Primeira FM, tiveram que competir com o formato "fácil" da 89 para manter pelo menos o departamento comercial próspero, enquanto sacrificavam o idealismo original.

Enquanto isso, a fórmula da 89 FM era "exportada" para o resto do país, em cidades que nunca haviam vivenciado um formato parecido com o da Flu FM de 1982. Dessa maneira, rádios que tocavam música brega migravam para o "formato rock" sem fazer qualquer adaptação, mantendo os mesmos locutores.

A única mudança se limitou ao quadro de produtores e contratando estagiários, que a título de "criarem uma programação rock" apenas embaralhavam o cardápio previamente fornecido pelos divulgadores de gravadoras. Mas as "rádios rock" do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e interior do Brasil não eram mais do que rádios pop com vitrolão "roqueiro", dotadas mais de pretensiosismo do que de competência, já que em muitos casos sua conduta era constrangedora.

O protecionismo da velha grande mídia às rádios pseudo-roqueiras tentava garantir a reputação da 89 FM no mais alto nível possível. Sobretudo o Grupo Abril, através da revista Bizz, e da Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Quem escrevesse uma carta criticando a 89 FM e seus locutores "mauricinhos" tinha quase sempre a missiva jogada no lixo.

Veio o modismo grunge e o Rock In Rio II e as rádios pseudo-roqueiras se multiplicavam, enquanto as autênticas rádios de rock iam para o calvário. A 89 FM, visando se autopromover com o modismo de Seattle, tentou se fantasiar de college radio entre 1993-1994, com total fracasso.

Isso fez o mercado reagir com represália e, da noite para o dia, várias rádios de rock originais foram dizimadas: Fluminense, Estação Primeira, 97. E isso fez o radialismo rock, sem as emissoras originais, caminhar para um "golpe de 1964" específico para o setor.

A Fluminense FM, então, era "massacrada" pelos esnobes locutores da Jovem Pan 2, que havia arrendado a emissora para despejar nela o pior do pop dançante europeu. Enquanto isso, a rádio pop Rádio Cidade - que havia transformado, dentro do segmento pop, o radialismo em geral, em 1977 - se transformava numa caricatura grosseira e arrogante de rádio de rock, tomada da pior arrogância e do pior reacionarismo.

Depois o tempo mostrou que os radialistas da Jovem Pan Rio e da Rádio Cidade dessa época eram, na verdade, de um mesmo grupo de locutores, DJs e produtores que, em nome do lucro, "dizimaram" rádios tradicionais. Atualmente, eles estão em rádios como a Mix FM Rio e Beat 98.

A Rádio Cidade chegou mesmo a ter uma fase "castelista" (em comparação com a fase "democrática" da ditadura militar de 1964-1968), entre 1995 e 2000. Houve até o papo farsante de que a Cidade da época "lembrava um pouco a Fluminense". Na prática, porém, a Cidade nunca foi além de uma tradução economicamente mais próspera da fase decadente da Fluminense, entre 1991 e 1994.

Mas, no sítio da emissora, já em 1999, já dava para ver a vocação golpista de seus ouvintes adeptos, que quando falavam em assuntos políticos, defendiam atos como o fechamento do Congresso Nacional para "combater a corrupção".

Com o tempo, veio o "AI-5" do radialismo rock, quando a Rádio Cidade, integrando-se à rede 89 FM, sucumbiu ao reacionarismo mais radical. Radialistas, produtores e ouvintes, sobretudo através de mensagens da Internet, defendiam um modelo de radialismo rock fora da realidade de seu público, imposto pelos executivos da rádio e pelo mercado fonográfico.

A defesa ocorria sobretudo através de ataques ofensivos a quem discordasse do formato. E seus produtores escreviam na Internet afirmando seu temperamentalismo, dizendo-se claramente irritados com todo o saudosismo em prol da antiga Fluminense FM.

O reacionarismo chegava a ser notado em sítios de rádio em geral, como a coluna de Magaly Prado e o portal Rádio Base, e chegou-se ao ponto dos produtores da Rádio Cidade espinafrarem os clássicos do rock, como Who e Led Zeppelin, demonstrando sua preferência apenas aos sucessos do grunge e às bandas de poser metal.

Com o tempo, a Rádio Cidade e a 89 FM viraram uma tragicomédia de erros, e, de "Jovem Pan 2 com guitarras", estavam perto de virarem "SBT com guitarras" quando tiveram que abandonar o rock, pressionadas pelas mudanças no Brasil e no mundo. Além disso, seu perfil "roqueiro" caricato, ultracomercial e restritivo só interessava ao mesmo público que também ouvia as rádios de dance music supostamente hostilizadas pelas duas emissoras.

Dois fatores foram decisivos para o declínio das duas emissoras. Um, que seu perfil foi tão diluído que o que sobrou na sua programação, o som emo de bandas como CPM 22, era mais aceitos pelos fãs de pop convencional que com igual dedicação ouviam Madonna e Guns N'Roses. Segundo, que a Internet mostrou um universo roqueiro vasto e abrangente que era desprezado pelas duas rádios "roqueiras", desmascarando-as de maneira humilhante (para essas rádios).

Hoje, na ironia dos antigos produtores da Cidade e 89 terem espinafrado "pagodeiros", "sertanejos" e funqueiros, eles hoje trabalham para esses mesmos ídolos através da rádio carioca Beat 98, das Organizações Globo, e da Nativa FM, dos mesmos donos da 89 em São Paulo e que, no Rio de Janeiro, é uma franquia dos Diários Associados.

Enquanto isso, a Internet recuperou a memória da antiga Fluminense FM, através da recordação de sua trajetória de respeito e do sucesso digital do livro A Onda Maldita, de Luiz Antônio Mello, no breve momento em que esteve disponível gratuitamente na rede.

Sítios como "Volta, Maldita" e "Rock Informação", feitos por este que lhes escreve, foram decisivos para o debate sobre rádios de rock, o que fez reativar a memória e a saudade da rádio niteroiense, cujos 30 anos de fundação - atualmente, os 94,9 mhz, infelizmente, estão entregues ao "Aemão" noticioso da Band News - serão relembrados com filmes, relançamento do livro de Mello e outros eventos.

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