sábado, 24 de março de 2012

O FRANCO-ATIRADOR FRANCÊS E A AMEAÇA BRASILEIRA


MOHAMED MAREH - Alguém acharia o jovem atirador de Toulouse um cara "tudo de bom"?

Por Alexandre Figueiredo

Há pouco, um jovem franco-atirador franco-argelino, Mohamed Mareh, ligado a um grupo de militares de extrema-direita e acusado de ter matado sete pessoas, foi morto pela polícia francesa. O suspeito dos atentados da cidade francesa de Toulouse simboliza uma das ameaças sociais da França, e de grupos de extrema-direita que pregam a intolerância social no país, sobretudo contra populações de imigrantes.

E no Brasil? No Brasil afetado pela mediocrização cultural mais crescente, atolado na ilusão do espetáculo mais demagogo de politicagens, paliativos e baixarias, falar em ameaças de grupos reacionários é visto por muitos como um "chilique" ou como "teorias conspiratórias", simplesmente se os suspeitos possuem um número de simpatizantes entre as pessoas consideradas "normais".

Para sentir o drama que acontece no Brasil, há cerca de cinco anos atrás um grupo de jovens riquinhos e bem aparentados espancou uma empregada doméstica na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, enquanto esta esperava por um ônibus, na calada da noite. O fato teve repercussão nacional na época, 2007.

E qual o perfil desses caras? Simples, é aquele perfil que todo mundo conhece nas redes sociais: "Tudo de bom, nota 'déis', show de bola, tudo da paz". Gente que se destaca em comunidades "bacanas" tipo "Eu Odeio Acordar Cedo" e que esbanjam "simpatia" no Orkut e no Facebook.

Se alguém dissesse, seis meses atrás, que cada um desses encrenqueiros era um perigo, muitos diriam "você está exagerando", "isso é teoria conspiratória","isso é paranoia tua, o cara é 'tudo de bom'". E continuariam apoiando o encrenqueiro, porque ele parece ser um "cara legal".

Isso sempre foi assim nas ocasiões de bullying, em que os valentões poderiam humilhar as vítimas que não sofreriam um arranhão sequer no seu carisma diante dos colegas. Afinal, os "valentões", para a sociedade, apenas faziam suas "brincadeirinhas sem maldade".

O termo bullying - que os brasileiros não se encorajaram a adotar um termo oficial em português, mas que eu, já aos 12 anos em 1983, já definia como "implicância" - só pôde ser considerado um tema urgente quando as vítimas de implicâncias e do "valentonismo" de seus algozes cometeram suicídios ou então praticavam atentados nas escolas, matando outros alunos e professores.

Não fosse isso, humilhar os outros que não possuem o mesmo "carisma" dos fortes era visto como uma "brincadeira saudável", por mais danos morais que fossem causados para suas vítimas. Estas é que tinham que aceitar a "brincadeira" e enfrentar toda a sorte de gracejos, chutes e pontapés, até mesmo ser carregado pelos fortões para ser trancado num banheiro ou ser jogado numa lata de lixo. Tudo isso era "tudo de bom", ora.

Recentemente fiz uma petição digital contra uma arbitrariedade política que prejudica uma população e ela foi empastelada por comentários ofensivos e por fakes que usavam meu nome, de meus amigos e até de personalidades. Um recurso democrático, defendido pela Constituição, foi ridicularizado pela intolerância de um grupo ligado a um conhecido hobby, que inclui até um encrenqueiro ligado a grupos políticos.

Já encontrei gente muito reacionária assim na Internet. Gente com o pavio curtíssimo e senso ético zero. Mas eles são apenas "inocentes troleiros". O encrenqueiro em questão já havia brigado com um outro grupo de rapazes e despejou xingações racistas contra um deles. E, em várias mensagens da Internet, esse "inocente rapaz" assumiu-se anti-comunista, homofóbico e racista., um extremo-direitista em potencial.

Mas se eu escrever coisas assim estarei "exagerando", "dizendo besteira", coisas assim. Afinal, quando muito, o Brasil só tem "inocentes troleiros", que só querem saber de "brincar" com seu bullying digital. Mas será mera coincidência que 99% dos ditos trollers defendem sempre causas conservadoras, ligadas a valores da velha grande mídia ou do neoliberalismo mais excludente?

O que preocupa é que são pessoas desprovidas de valores éticos, estéticos, sócio-culturais etc. São pessoas intolerantes, que não suportam qualquer questionamento contra o que acreditam piamente, mesmo sendo valores excludentes, restritivos e reacionários.

Em certos casos, os rapazes que praticam essa humilhação virtual impõem até o tipo de mulher que seus desafetos devem namorar. Se o rapaz não se identifica com as "mulheres-frutas", por exemplo, isso é suficiente para ele ser ultrajado na Internet.

Até blogues são feitos para ridicularizar quem discorda desses troleiros. Isso quando ameaças piores não são feitas. E eles são tão perigosos quanto grupos de skinheads que atacam nordestinos e homossexuais, porque estes são apenas a manifestação extrema e explícita do reacionarismo que ocorre nos "bastidores" da Internet (leia-se fóruns, redes sociais etc).

Nunca se sabe o que vai acontecer quando um troleiro ultrareacionário, mas "muito querido" entre seus pares, pode fazer em casos extremos. O troleiro usa de mil máscaras, se envolve em atividades sociais "normais", se faz de "progressista", diz ser "da paz", diz defender a "cidadania". Afinal, ele é "tudo de bom".

Quem ele ataca é que é "tudo de ruim", "tudo gente besta", gente que, por "não pensar como ele", é "completamente estúpida e anti-social". Se ele "zoa demais" com sua vítima, ele apenas está fazendo uma "brincadeira saudável", e não raro ele tempera seu discurso violento com "divertidas ironias".

Mas o que acontecer se a coisa ir mais longe? Se o troleiro for desmascarado, até que ponto ele pode praticar alguma represália? Há algum líder fascista em particular? Um conhecido ditador alemão, de tristíssima lembrança, também surgiu como um "inocente" encrenqueiro sem a menor importância. Quem dissesse que ele cometeria atrocidades catastróficas contra a humanidade, em 1923, também "estaria exagerando" e "falando muita besteira".

O Brasil não havia sofrido surtos reacionários da dimensão que os países europeus e os EUA sofreram. O macartismo, a Klu-Klux-Klan, os regimes fascistas, os atentados terroristas, tudo isso, sem falar nas duas grandes guerras, não atingiram diretamente o Brasil, cujas tragédias geralmente são episódicas e de menor gravidade a nível sócio-político, se comparados aos do Primeiro Mundo.

Mesmo a ditadura militar, de efeitos devastadores para a sociedade brasileira e cuja gravidade desmerece o jocoso termo "ditabranda" dado por um famigerado jornal, não contou com um líder personalista, mas de generais de plantão a aplicar um projeto político autoritário e tecnocrático.

No entanto, a ditadura talvez tenha oferecido condições para o atual reacionarismo juvenil dos troleiros que já começam a vislumbrar cargos de liderança ou coordenação futuros. Gente "muito legal", "tudo de bom", até a prova contundente de possíveis barbaridades.

Mas, antes que elas sejam cometidas, esses reacionários que criam blogues ofensivos, destroem petições digitais e espalham toda sorte de humilhações - várias através de pseudônimos - contra quem não pensa como eles, não há qualquer ameaça potencial em vista, segundo muitos.

Só que eles, no futuro, se envolverão em atentados, escândalos de corrupção, espancamento de trabalhadores pobres, adoção de medidas antipopulares, repressão às manifestações sociais etc. Os reacionários de hoje, quando na flor da juventude, de seus "inocentes" impulsos e seus palavrões, também não despertavam suspeita. Na faculdade, alguém como o jornalista Reinaldo Azevedo, da Veja, poderia ser visto como "rebelde" ou "progressista" por alguns colegas.

Aliás, vendo a foto no alto, ninguém imaginaria que o simpático rapaz que Mohamed Mareh parecia expressar no seu sorriso jovial simbolizava uma perigosa ameaça, de proporções trágicas, a toda uma cidade na França. À primeira vista, ele também parecia ser "tudo de bom".

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