terça-feira, 27 de março de 2012

NEGRETE E A DISCRIMINAÇÃO DOS MÚSICOS DE VERDADE


NO BRASIL DO "FUNK", DO TECNOBREGA E DE MICHEL TELÓ, NEGRETE (EM DESTAQUE) MOSTRA A VERDADEIRA CARA DO MÚSICO DISCRIMINADO.

Por Alexandre Figueiredo

No país da mediocrização cultural, do "funk", do tecnobrega e de Michel Teló, um músico de grande talento está vivendo na rua. Renato Rocha, o Negrete, que integrou a primeira fase da Legião Urbana - a de 1983-1988, mais voltada para o protesto pós-punk - , está vivendo na rua.

O músico, que chegou a integrar uma formação mais recente do Finis Africae (grupo brasiliense radicado no Rio de Janeiro e, por enquanto, inativo), agora enfrenta a miséria, embora eventualmente alguns fãs o reconheçam, conversem com ele e peçam autógrafos.

A gente fica a pensar o quanto nossa "intelectualidade mais bacana", aquela que recebe palmas das plateias deslumbradas e desprevenidas, tem culpa nessa situação toda. Porque gente como Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Paulo César Araújo e Hermano Vianna - logo o irmão do Herbert Vianna, que tanto apoiou a Legião Urbana - acaba protegendo mais os donos das rádios FM ditas "populares" do que a cultura popular brasileira de verdade, aquela que não pratica o esporte de lotar plateias no menor espaço de tempo.

No Brasil do "funk carioca", do tecnobrega, do "pagode romântico" e coisa e tal, a verdadeira música brasileira, que prima pela qualidade, pela honestidade e pela coerência, esta é que sofre a mais cruel discriminação.

É até constrangedor que o superbadalado Pedro Alexandre Sanches, um dos "sacerdotes" da Idade Mídia, venha para a mídia esquerdista fazer sua choradeira em defesa da mediocridade cultural, chamando quem a questiona de "puristas", "preconceituosos", "higienistas".

Nós é que "temos raiva", enquanto Sanches, irritado, não admite que os "sucessos do povão" recebam alguma crítica sequer. E, descumprindo o que um intelectual de sua visibilidade deveria fazer, ainda tem um grande medo de qualquer debate estético.

Pois, por culpa desses intelectuais - Sanches, Vianna, Araújo, Lemos e seus séquitos - , a retaguarda que sempre representou a música brega e seus derivados, na medida em que ganhou o tendencioso rótulo de "vanguarda cult trash", expulsou a MPB e o Rock Brasil de muitos redutos alternativos. E isso sem deixar de tocar naquelas "rádios do povão" que, na verdade, são controladas por oligarquias empresariais, muitas delas latifundiárias.

O tecnobrega, o forró-brega, o "pagode romântico", o "funk carioca", todos os bregas sempre estiveram com algum acesso na grande mídia. Eles são crias dela, queiram ou não queiram os "fora do eixo" de plantão.

O apoio das Organizações Globo e do Grupo Folha a eles é algo que salta aos olhos, mas quem tenta desmentir tal realidade ainda é aplaudido de pé pelas plateias seduzidas. E garante até que, passada a ostentação "global", ocorra o mesmo com Gaby Amarantos e Mr. Catra do que ocorreu com José Augusto, Wando e Waldick Soriano, que certos blogueiros de "esquerda" mais frágeis cortejarão com suas choradeiras textuais.

Ninguém percebe que os bregas agora são os "donos do poder". No mesmo sentido de poder de Geraldo Alckmin e Otávio Frias Filho. Se vemos Arnaldo Antunes cantando com Michael Sullivan, não é este que anda "mendigando" um lugar nobre na música brasileira, mas o outro, Arnaldo, que quer visibilidade, quem sabe um lugar em alguma vaquejada no interior do país.

É bom deixar claro que, sob a batuta das Organizações Globo (e da multinacional RCA), Michael Sullivan foi um produtor musical e compositor cujo poderio midiático, dentro do setor, era, nos anos 80, comparável ao que Ali Kamel exerce no telejornalismo da mesma corporação midiática. Mas a memória curta vê Michael Sullivan como um coitadinho, como se tivesse vivido dramas piores do que Renato Rocha. Mas não viveu metade do que o ex-Legião viveu.

Da mesma forma que Michael Sullivan representa "o poder", também vemos casos assim quando o também ex-Legião Dado Villa-Lobos e dois membros dos Paralamas do Sucesso tocam com Chimbinha, da Banda Calypso. Ou quando os Titãs fazem "dueto" com o funqueiro Mr. Catra.

Não são a Banda Calypso e o Mr. Catra que estão "pedindo" algum espaço nobre na cultura brasileira, mas são os roqueiros que, em nome da visibilidade, veem nesses nomes do brega-popularesco um "pistolão" para jogá-los nas vaquejadas e micaretas do interior do país.

A verdade, nua, crua e dolorosa, é que Mr. Catra, Joelma e Chimbinha têm tanto poder midiático quanto Merval Pereira, Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede.

Só que vivemos a hegemonia da "imagem", o espetáculo fútil das aparências impõe sua manipulação ideológica. A aparência ou mesmo o mito de "gente simples" dos bregas e derivados ilude muita gente, que acha que eles estão fora do poder.

Ora, nenhum músico de Bossa Nova é tão rico quanto uma dupla dita "sertaneja", do porte de um Zezé di Camargo & Luciano, ou de algum DJ e empresário de "funk". Mas como a Bossa Nova está associada a uma sofisticação musical e a um cenário como a Zona Sul carioca, temos que achar que um Carlinhos Lyra e um Roberto Menescal, ou os herdeiros de Nara Leão, Tom, Vinícius e Sílvia Telles, vivem nadando em dinheiro.

E a ministra Ana de Hollanda também não é tão rica assim como se pensa, até seu envolvimento com a cúpula do ECAD é uma forma dela buscar uma "proteção" que uma Ivete Sangalo da vida não precisa recorrer. Porque a Ivete tem o apoio de tudo: Organizações Globo, Universal Music, UDR, indústrias de bebidas, Folha de São Paulo, Caras, até do FMI.

Mas de que adianta falar nisso? O que vale é a opinião "segura" de um Pedro Alexandre Sanches e um Ronaldo Lemos, que enganam as esquerdas fazendo o mesmo trabalho manipulador dos Frias e dos Mesquita, como bons alunos da velha grande mídia na qual aprenderam as maiores lições. Não tenho a visibilidade deles, acabo "pregando no deserto".

São esses intelectuais que empurram o brega-popularesco para os cenários vanguardistas, desalojando a MPB autêntica e o Rock Brasil, que cada vez perdem mais espaços, no circuito de apresentações ao vivo e nas rádios. E muitos pensam que o "funk carioca" e o tecnobrega ainda estão fora da mídia, quando vemos Mr. Catra e Gaby Amarantos entrando na Rede Globo pelas portas da frente.

O brega-popularesco já tem espaços demais, na maioria das rádios, na TV aberta, em parte da TV paga, nas revistas de celebridades, nas casas de espetáculos, no som interno das lojas de varejo e atacado, nos supermercados, nas lojas de eletrodomésticos. Não precisa de espaços vanguardistas ou alternativos para sobreviver.

Já a MPB autêntica e o Rock Brasil perdem até mesmo seus próprios espaços, na medida em que o pseudo-vanguardismo associado aos bregas e derivados pela intelectualidade mais badalada transforma os espaços alternativos em repetidores da mesmice supostamente "popular" das rádios FM e da TV aberta.

E isso faz do brega-popularesco um fenômeno totalitário, que de forma mais demagógica e cínica ainda chora pela suposta falta de espaço na grande mídia. Espaço que seus ídolos possuem demais, e que já exercem seu poderio midiático como capatazes dos barões da grande mídia.

Se o mercado fosse mais justo e houvesse espaço para a verdadeira diversidade cultural - aquela em que o brega-popularesco reconhece seus limites de espaço e expressão, sem invadir e sufocar os espaços dos outros - , Renato Rocha seria um dos grandes músicos em atividade no nosso país. Talvez ele até lançasse grandes ideias musicais, quem sabe música instrumental ou coisa parecida.

Um comentário:

  1. E olha que hoje o vocalista da Legião Urbana, Renato Russo, faria 52 anos. Mas de que adianta comemorar o dia de seu nascimento se o Rock Brasil anda muito discriminado, dando de graça seus espaços para o brega-popularesco e se humilhando diante de nomes medíocres como Banda Calypso e Mr. Catra para ter algum destaque na mídia?

    Que país é este, afinal?

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