sábado, 24 de março de 2012

A MPB AUTÊNTICA ESTÁ FICANDO VELHA



Por Alexandre Figueiredo

Na ocasião do falecimento de Chico Anysio, fiquei pensando em vários momentos da carreira do humorista e, evidentemente, pensei na trajetória do Baiano & Os Novos Caetanos, projeto que o comediante fez com o também falecido Arnaud Rodrigues (que fez o personagem cego na novela Roque Santeiro da Globo, versão anos 80), que, por incrível que pareça, foi um projeto de MPB autêntica, ainda que paródica.

Pois a MPB autêntica, que hoje se reduziu a tributos e autorreverências, hoje não consta de muitos nomes fortes para a revigoração da verdadeira canção popular. Das classes pobres, há 40 anos não surge um compositor com o impacto de um Martinho da Vila, Paulinho da Viola.

Até surgem cantores de MPB vindos das classes pobres, mas eles rapidamente são cooptados pela classe média, cantam para socialites e coisa e tal.

A mediocrização cultural do brega-popularesco causou um efeito devastador na cultura brasileira. Em muitas regiões do país, praticamente não existe qualquer cenário de MPB autêntica, aquela que não se preocupa em lotar plateias em poucos minutos.

A maioria dos grandes nomes da MPB autêntica são gente de classe média, e parte deles chega aos 70 anos este ano: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Milton Nascimento. Mas mesmo Gal Costa e Chico Buarque passaram dos 65, e Djavan dos 60.

A MPB está idosa, carente de renovação, enquanto gerações mais recentes parecem viciadas no pós-tropicalismo de 1970 em diante. Como se a história da cultura brasileira tivesse começado apenas em 1970 (ou, quando muito, em 1967) e o resto era pré-história.

Sim, pasmem, muita gente, inclusive intelectuais, tratam o nosso rico patrimônio cultural brasileiro como se fosse um patrimônio pré-histórico. Até mesmo a fórmula da MPB moderna se estagnou num som meio Jovem Guarda, meio samba-rock, cheio de pós-modernices.

Isso quando se fala de uma MPB com alguma qualidade musical, acima da média do que se faz hoje em dia. Porque, dos nomes medianos para baixo, o que se vê são apenas delírios performáticos, ecletismos já vagos e, de tão ecléticos, já não são mais diversificados como pretendem ser.

Descendo mais ainda, vemos a MPBzinha condescendente ao brega, gravando com Banda Calypso para ver se arruma um lugar num festival de música no Norte e Nordeste do país. Ou então gente que grava covers de sucessos brega-popularesco visando alguns trocados da Lei Rouanet.

Mesmo a obsessão de não ir muito atrás de 1967-1970 - época dos heróis da atual geração intelectual brasileira - não soa algo positivo, porque, a princípio, relembrar o samba-rock e reconhecer o valor dos melhores artistas da Jovem Guarda pode ser uma boa ideia, mas ela já começa a ir no lugar comum na MPB pós-moderna dos últimos anos.

No pior lado, já havia fracassado a tentativa de converter os neo-bregas dos anos 90 - como os ídolos do "sertanejo" e do "pagode romântico" mais conhecidos - numa pseudo-MPB de forte apelo televisivo e radiofônico, porque eles nunca foram artistas de verdade, e não foi através de trajes de gala, cenários superproduzidos, tecnologia, marketing e covers do cancioneiro mais conhecido e inofensivo da MPB que os fizeram artistas melhores.

Até filmes biográficos foram feitos envolvendo "artistas" desse nível, envoltos em muito banho de loja, de luz e técnica. Mas eles não viraram MPB de verdade porque, embora lotem plateias com facilidade e sejam conhecidos até pelo mendigo da esquina, eles nunca fizeram algo de relevância que acrescente algo novo na Música Popular Brasileira.

A tentativa de se associarem ao cancioneiro tradicional, através de covers, tendenciosos e oportunistas, de gente como Ataulfo Alves, Lamartine Babo, Renato Teixeira, Belchior (por intermédio de Elis Regina), Ary Barroso e Milton Nascimento, não fez com que os breguinhas arrumadinhos da geração 1990 virassem MPB séria, mesmo com a insistência generosa de Fausto Silva, ou talvez em razão de seu apoio, já que a associação com a Rede Globo, com o tempo, desgastou os neo-bregas, marcados sobretudo pela canastrice e pelo pedantismo musical.

Voltando à MPB autêntica, um dos poucos nomes que se dedicam a valorizar a canção brasileira é a cantora Roberta Sá, esposa do músico Pedro Luís. Com 32 anos, ela é exceção à regra pelo interesse da pesquisa da música brasileira mais antiga, além de um talento vocal que não segue a fórmula gasta da branca querendo cantar feito "negona", como se vê na axé-music, por exemplo.

Mas, fora ela - injustamente rotulada como "cria do programa Fama", sobretudo pelo "esquerdista" de alma direitista, professor Eugênio Raggi, que ignorou o fato de que o cantor Thiaguinho, ex-Exaltasamba, é que era "cria" do extinto reality show musical da TV Globo - , não há uma cantora que se destaque além do feijão-com-arroz pós-tropicalista ou do ecletismo vago das demais.

Mesmo Maria Rita Mariano, filha de Elis Regina, e Marisa Monte, ambas de admirável talento, já são veteranas. A primeira, com 35 anos, a segunda, com 45. Já não podem ser consideradas novatas ou revelações da MPB autêntica, com um considerável repertório gravado.

Portanto, é preocupante o futuro da Música Popular Brasileira. As classes pobres praticamente estão desprovidas de um nome musical forte, que não seja um reles dotador de plateia que faça canastrices musicais ou que "faça o dever de aula" nos tributos de MPB. E a classe média universitária já começa a se degradar ao se entregar à breguice mais escancarada, seja através de nomes explícitos como Michel Teló, seja pelas sutilezas performáticas de um Felipe Cordeiro, o do "brega pop cult".

Certas vezes, até parece que vem a luz do fim do túnel, quando a MPB autêntica parece estar ganhando espaços na mídia. Mas, infelizmente, o mercadão da velha mídia reage e despeja breguice em seguida. A intelectualidade fica condescendente, até demais, quando faz sua mais lacrimosa choradeira em favor de Waldick Soriano, de Wando, de José Augusto.

E isso só faz piorar a situação, já que a mediocrização cultural começa a tomar até mesmo os espaços que antes serviam de refúgio para a MPB mais autêntica e de qualidade. Com a MPB autêntica envelhecendo e limitada a tributos e autorreverências, e com o brega-popularesco defendido por uma intelectualidade etnocêntrica e impositiva, a cultura brasileira poderá ver seu rico patrimônio desaparecer, limitado a diluições cada vez piores.

E, através desse processo, o Brasil não conhecerá sua emancipação social. Até porque o "maravilhoso" brega-popularesco, que exalta a mediocrização sócio-cultural sob o rótulo de "expressão da gente simples", só favorece o lado econômico, do lucro fácil, alto e permanente do mercadão musical, mas nada contribui para acrescentar valores e conhecimentos para a sociedade brasileira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...