quarta-feira, 28 de março de 2012

A MORTE DO "PRECONCEITUOSO" MILLÔR FERNANDES



Por Alexandre Figueiredo

Mal foi superado o luto pelo falecimento do humorista Chico Anysio, eis que o país é surpreendido pela morte de Millôr Fernandes, uma das mentes mais brilhantes que marcou o século XX e um pedacinho do século corrente.

Trabalhando desde a adolescência, ele, ainda nesta fase, fundou a coluna O Pif Paf, na revista O Cruzeiro, seção que ficou marcada pelo lema "cada número é um exemplar, cada exemplar é um número". Era uma seção de piadas, poesias cômicas, textos humorísticos, e que durante uma fase teve ilustrações de Péricles Maranhão (1924-1961), o criador do personagem Amigo da Onça.

Certa vez, Millôr, ao escrever a paródia da lenda de Adão e Eva, em 1964, acabou saindo da revista O Cruzeiro. Decidiu então criar uma revista própria, O Pif Paf, que só durou oito números, já que o último ironizava com a aparente democracia relativa dos primeiros meses da ditadura militar (em que haviam prisões, repressão, torturas, mas havia uma certa sutileza dos generais). Falava-se do "risco de entrarmos numa democracia".

Aí os generais não gostaram da ironia e mandaram fechar o jornal. Mas, cinco anos depois, Millôr já estava engajado em outra revista de humor, o Pasquim, de notável história. E era mais uma "molecagem" humorística, já que era um jornal de humor lançado no calor do AI-5, que botava pra quebrar naquela época, atrasando qualquer produção midiática por conta de lentas análises dos censores, além das prisões, torturas e mortes de opositores da ditadura.

Millôr era dramaturgo, desenhista, adaptador de peças estrangeiras montadas no Brasil, e como escritor falava de coisas sérias com humor, através de pequenas frases ou de outras tiradas. E uma delas foi seu ceticismo sobre a ideia de preconceito, já que se trata da palavra mais vitimada pelo preconceito em nosso país.

Ele não acreditava muito nessa ideia dos "sem preconceitos", já que o preconceito é o desconhecimento prévio de alguma coisa. Muitas vezes se tem preconceito contra o preconceito, e o puxão de orelha do mestre Millôr caía bem nessa intelectualidade mais recente, festejada e bajulada, que usa o "preconceito" como pretexto para aceitar qualquer mediocridade que venha a se tornar em evidência na mídia.

E a mediocridade cultural que cresce em passos galopantes, expulsando qualquer expressão cultural autêntica que não aceite, por "puro preconceito", se associar aos medíocres e canastrões "culturais" de plantão, torna-se preocupante na medida em que não somente nossos mestres se vão, mas suas lições quase também morrem junto.

E Millôr nem de longe era antiquado. Pelo contrário, mesmo idoso, era moderno, seja quando tinha sítio na Internet - que agora encerra suas atividades - e até conta no Twitter. Porque ele era de um tempo em que se respirava cultura, quando ela estava dentro dos eixos, sem qualquer demagogia ou pose de vítima.

E ainda por cima Millôr foi um dos precursores do "frescobol", um famoso esporte de praia, e chegou a vencer campeonatos de pesca. Tudo isso para um homem cujo nome de batismo era Milton, mas que decidiu ser Millôr porque a caligrafia usada certa vez num registro escreveu o "t" de tal forma que parecia um "l" com um circunflexo "voando" sobre a letra "o". E deixou um irmão também famoso, Hélio Fernandes, ainda hoje engajado como jornalista do agora blogue Tribuna da Imprensa.

Éramos um país de cabeça erguida, não pretensos coitados querendo bancar os gênios, e Millôr era desse tempo de muito idealismo, muitas ideias, onde a inteligência estava acima do sucesso. E ele ainda por cima fez a tradução para a letra de "Feedback Song for a Dying Friend" da Legião Urbana, que Renato Russo compôs e gravou em inglês.

Millôr até tentou se encaixar na conservadora Veja. Mas até suas divergências com Lula eram mais descontraídas do que a furiosa discordância dos "calunistas" da irresponsável revista. E aí, Millôr decidiu sair, porque seu bom humor não combinava com o mau humor da linha editorial do periódico do Grupo Abril.

Fica mais um vazio no nosso país. E, justamente num momento em que o humorismo brasileiro vive sua crise (apesar das "novas" atrações, como o Pânico na Band e o Casseta & Planeta Vai Fundo, apenas fórmulas usuais repaginadas). E, mais uma vez, o medíocre brasil pouco se dá conta da perda de seus verdadeiros valores.

Até porque eles, totalmente fora de qualquer eixo, se isolam na contemplação narcisista não só da mediocridade de seus ídolos e referenciais, mas da mediocridade de si mesmos na "caverna" cafona onde contemplam seu mundinho de brinquedo.

Apesar de idoso, Millôr Fernandes não recebia o desdém da intelligentzia caolha porque era antigo. Ela o desprezava porque não o entendia nem o queria entender. Afinal, Millôr é um cidadão à frente do seu tempo.

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