quinta-feira, 8 de março de 2012

MORTE DE MULHERES DESAFIA MITO OFICIAL DA "MAIORIA"



Por Alexandre Figueiredo

Oficialmente, as mulheres são maioria na população brasileira. No entanto, a realidade parece a cada dia mostrar o contrário, seja pelo altíssimo contingente de homens, a maioria das classes populares mas incluindo também uma minoria de abastados que viajam de avião, seja pela alta mortalidade que as mulheres sofrem e que os noticiários mostram constantemente.

É só ver as notícias de mulheres pobres morrendo por causa de atendimentos da saúde precários, sobretudo na hora da gravidez. A violência machista do feminicídio também faz muitos cadáveres femininos, vários deles ainda belos e jovens. Acidentes de trânsito, volta e meia, surpreendem e ceifam até mesmo jovens universitárias. E outras ocorrências trágicas surpreendem outras mulheres.

Evidentemente, é mais agradável acreditar no mito da "maioria feminina", que tranquiliza machistas com forte apetite sexual e feministas com necessidade de maior mobilização. No entanto, a "maioria feminina", sobretudo na impressão machista de que "mulher é que nem capim, fácil de encontrar", faz com que muitos homens que violentam as mulheres sejam poupados pelo falso atenuante de que "poucas" mulheres morreram sob suas mãos.

A verdade é que, se existem cerca de 100 mil homens brasileiros que nunca foram sequer consultados pelos recenseadores, por outro lado várias mulheres que morrem no meio do caminho "continuam vivas" nos dados censitários.

São acidentes de bicicleta, de brinquedos de parques de diversões, de automóveis nas rodovias. São as presenças femininas no meio das chacinas. São as mulheres ameaçadas de morte, como a juíza Patrícia Accioli. São outras dizimadas pelos próprios companheiros, e outras vítimas de latrocínios, e mais outras de balas perdidas.

Os homens também morrem, e muito, mas não se imagina que seus óbitos haviam aumentado tanto. Por outro lado, a vulnerabilidade feminina havia aumentado consideravelmente nas últimas décadas, que não dá para pensar numa "maioria feminina" populacional se nos dados do Censo de 1960, com um Brasil mais pacato que o de hoje, a população masculina era maioritária.

Em nome de interesses turísticos e por herança de uma visão, dos tempos da ditadura militar, de evitar arcar muito com a dívida pública, a maioria masculina é "eliminada" pela manipulação dos números.

São mendigos, desempregados, gente sem moradia fixa, e até mesmo marginais, por um lado, e executivos em viagem, por outro, os homens "abandonados" pelo Censo. A maioria pobre e negra, cujos ocasionais óbitos são "comemorados" pela velha grande mídia, na hora dela "afirmar" o suposto aumento da diferença populacional de mulheres sobre os homens.

O que mostra o quanto a velha grande mídia faz para perpetuar o mito do "Brasil Mulher" que mais livra a culpa dos machistas do que beneficia a causa feminista. Apostam num cínico e sádico "higienismo" dos jovens pobres e negros, nos noticiários sobre dados estatísticos, enquanto, nos seus programas de variedades, recrutam poucas solteiras (umas com namorados) para a encenação costumeira de uma "carência afetiva" que não existe.

Até eufemismos são criados para mascarar a realidade. Como a costumeira queixa de jovens moças nas boates da "falta de homens". Só que o problema é que não é que os homens inexistam, é que o comentário de que "não existe homem no Brasil" é uma maneira de dizer, que na verdade significa que o que falta mesmo, entre os homens, são aqueles dotados de padrões estéticos e comportamentais mais admiráveis.

Outro eufemismo é quanto a declaração de muitas moças que dizem estar "solteiríssimas" ou "encalhadas". Outras maneiras de dizer. Boa parte delas mal acabou de ter briguinhas com os respectivos namorados, e não raro o termo "solteiríssima" é usado por pura provocação. Como o termo "encalhada", que oculta a verdadeira situação da moça em questão, que é de "estar enrolada" (termo que se refere a uma relação amorosa interrompida sem muita convicção).

Mulheres solteiras existem, e várias delas por conta da vida profissional ou pelo descrédito aos homens. Mas há também muitos homens solteiros, numa proporção até maior. Nas redes sociais, é mais fácil ver homens solteiros do que mulheres solteiras, e mesmo nas comunidades de solteiros no Facebook e no Orkut, várias moças que são membros possuem namorados e até maridos.

Diante desse quadro sociológico, a lacuna deixada pelos óbitos constantes de mulheres nos anos 80 e 90, seja pela violência, seja pelas doenças e outros infortúnios que ceifam até mesmo várias moças jovens, não pode ser deixada em branco. O número de mulheres nascidas entre 1956 e 1972, por exemplo, que continuam vivas no Brasil é precário, por conta das tragédias que ano após ano atingem várias dessas mulheres, e outras mais velhas ou mais jovens.

É bom deixar claro que várias das mulheres mortas nos últimos anos estavam vivas no momento do recenseamento. Nas ruas, vemos um grande contingente de homens nos trens, nos ônibus, nos locais de trabalhos. Os bebês do sexo masculino são em maior número que do sexo feminino.

Por isso, perdem o sentido as reportagens que falam em "maioria feminina" e até "festejam" os óbitos de jovens homens pobres. Como perde o sentido a "importação" de belas jovens do Sul e Sudeste para o Carnaval da Bahia, para "reforçar" a irreal, fictícia mas dogmática "predominância feminina" na população de Salvador. Também recrutar moças para fazer papel de "encalhadas" nos programas de variedades da TV aberta. E nem clipes mostrando vários tipos de mulheres brasileiras ao som de canções ufanistas.

Nada disso vai trazer de volta Mércia Nakashima, Eloá Pimentel, Sandra Gomide, Isabella Nardoni, nem a adolescente que estava num brinquedo do Hopi Hari, nem a menininha morta por um jet-ski, nem das grávidas pobres com falta de atendimento médico digno, nem das lindas moças mortas nas garupas de motos ou nos desastres de carros.

As tragédias que vitimaram nossas mulheres deixam uma grande lacuna que os números estatísticos ignoram. Como no filme Um Morto Muito Louco, as falecidas de hoje estão "vivinhas da silva" para serem "apresentadas" aos turistas e garantir a "tranquilidade" social que move o mercado.

O ideal é que tudo tivesse sido feito para evitar tamanhas tragédias. As medidas de prevenção no trânsito, o fim da pregação midiática e machista das relações amorosas por conveniência - que formam casais errados, sem amor, que eventualmente se separam tragicamente - , melhorias no atendimento à saúde, e outras promoções de justiça social. Se tudo isso tivesse sido feito há 40 anos, teríamos evitado as mortes prematuras de um grande número de mulheres.

Mascarar a realidade e "subtrair" dos dados censitários os homens mais "incômodos" não resolve o problema. Como também não resolvem as manobras midiáticas para reforçar o mito do "Brasil Mulher", que só serve para criar um estereótipo sensual de um país, para alimentar as fortunas de donos de hotéis e agências de viagens, a maioria do sexo masculino.

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