quarta-feira, 7 de março de 2012

JOVEM PAN 2 DÁ UM BAILE NOS "ROQUEIRINHOS" DA CIDADE



Por Alexandre Figueiredo

Hoje, nos 102,9 mhz que abrigaram a Rádio Cidade, entram oficialmente os sinais da rede de rádios pop Jovem Pan 2, dando por terminada a disputa pelo prefixo entre seitas religiosas e até da chamada "nação roqueira" que havia expressado sua arrogância como ouvintes e produtores da emissora, há cerca de quinze anos.

A Rádio Cidade, sabemos, foi um paradigma de rádio jovem que havia surgido em 01 de maio de 1977, feriado do Dia do Trabalho. Foi uma simpática e despretensiosa emissora dedicada ao pop dançante e ao pop eclético, numa trajetória cujo brilhantismo durou até 1984.

Faturando em cima do primeiro Rock In Rio, a Rádio Cidade mergulhou, entre 1985 e 1989, no pretensiosismo de pegar carona no prestígio roqueiro da Fluminense FM, roubando da emissora niteroiense alguns de seus profissionais, e tocando parte do repertório roqueiro mais acessível (mas com a irritante intervenção da locução em cima das músicas).

A experiência serviu de escola para a oligarquia Camargo (hoje associada à Nativa FM paulista), através de uma parceria com o Sistema Jornal do Brasil, montar em São Paulo a rádio 89 FM, que, "limpando ideologicamente" o formato original da Fluminense FM, lançou o tal formato "anti-rádio" que fez a 89 FM ser superestimada (e até superprotegida) pela crítica local.

Com o tempo, 89 FM e Rádio Cidade passaram a deturpar o perfil de rádio de rock num formato que nada tinha a ver com a realidade do público roqueiro. Locutores que mais pareciam entre animadores de gincanas a vendedores de eletrodomésticos - não é à toa que um dos garotos-propaganda das Casas Bahia, Zé Luiz, foi locutor da 89 - anunciando um repertório repetitivo que pouco ia além dos sucessos mais manjados do rock autêntico e das eventuais armações que vinham sob o rótulo de "rock".

O esquema pesado de marketing foi o único diferencial dessas rádios pseudo-roqueiras em relação às rádios de rock originais. As rádios pseudo-roqueiras não tinham uma programação que prestasse, mas seu departamento comercial era capaz de façanhas como sortear um carro zerinho, dar viagens para os EUA com todas as despesas pagas e, quem sabe, um apartamento de luxo na orla de Guarujá.

Isso sem falar que as rádios patrocinavam qualquer coisa em que a palavra "rock" aparecia de uma forma ou de outra, ou mesmo subentendida. Mas tudo isso numa conduta caricata, estereotipada, que no caso da Rádio Cidade fazia com que o perfil rock adotado pela emissora mais parecesse uma visão preconceituosa de antigos policiais do DOI-CODI.

E olha que parecia, pois o reacionarismo da chamada "nação roqueira" praticamente "queimou" o filme desse público que parecia viver fora da realidade, esnobando web radios que tocassem algo mais do que o "feijão com arroz" popirroque e chegavam mesmo a dizer, com arrogância, que as "rádios rock" brasileiras não deviam ter o mesmo compromisso de abrangência das estrangeiras.

E isso já com a Internet em pleno fôlego, mostrando o que as "sábias rádios rock" brasileiras se recusavam a mostrar, e que fizeram a Cidade e a 89 caírem em audiência e na sua já débil reputação. E nem adiantou as duas rádios, já decadentes em 2005, investirem em programas de blues ou patrocinar vindas de bandas progressivas ou de grupos como Wishbone Ash (o histórico grupo que, no Brasil, só rolou na Fluminense FM e similares).

Afinal, as duas rádios já haviam diluído tanto o perfil rock que, de versões grunge da Jovem Pan 2, estavam quase virando bregas, através de humorísticos como Do Balacobaco e game shows como Pressão Total. Já nem eram mais "barbies junkie" (como eram conhecidas essas rádios), mas trastes radiofônicos que acabaram em 2006.

Nos 102,9 mhz da Rádio Cidade, até recentemente estava no ar a rádio OI FM, emissora da operadora telefônica dedicada a um pop eclético mas arrojado. A OI chegava a ser mais abrangente musicalmente do que a abobalhada mas esquentadinha programação "roqueira" da Cidade, mas mesmo assim não obteve o sucesso esperado.

Nos últimos anos, ocorreram rumores do fim da OI FM, e aí vários interessados se candidataram à disputa pelos 102,9 mhz, incluindo seitas religiosas e até mesmo o retorno do nome Rádio Cidade, do qual era mais provável a volta da performance pseudo-roqueira de 1995-2006.

Felizmente a Jovem Pan 2 deu a dianteira e estragou a festa dos pseudo-roqueiros, que hoje estão até fora de época, quase cafonas. Não é à toa: os antigos produtores da 89 e Cidade agora trabalham com ritmos que eles antes diziam odiar, como o "sertanejo" e o "funk carioca". E eles hoje agora mordem os beiços, porque a "sua" Rádio Cidade também não vai regressar. Os tempos são outros.

Portanto, Tutinha e sua JP2 deram um baile na "nação roqueira" da Cidade. Estes, sim, é que eram "uns poucos roqueiros". Mas, como ensina seu guru Axl Rose, tudo que esses "roqueiros de butique" precisam é um pouco mais de paciência.

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