segunda-feira, 19 de março de 2012

INTELECTUALIDADE QUER CULTURA POPULAR ROBOTIZADA



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade etnocêntrica seduz as plateias porque, em boa parte do seu discurso, apela para a retórica das "novas mídias", superestimando o poder das novas tecnologias na transformação da humanidade.

Sim, superestimando, porque a única tecnologia que conhecemos que realmente transforma a humanidade é a tecnologia do pensamento humano. As chamadas novas mídias são apenas um instrumento auxiliar, que ajuda, e muito, na veiculação de ideias para demandas maiores.

Só que a intelectualidade que defende aquilo que ela entende como "cultura das periferias" - que é a "ditabranda do mau gosto" do brega-popularesco - , na verdade, adota um discurso "libertário" para defender ideias nem tão libertárias assim. E acaba defendendo uma "nova" concepção de folclore que soa muito estranha para o sentido realmente social do tema.

Afinal, sabemos que a intelectualidade etnocêntrica lança mão até de omissões para permitir o sentido de seu discurso. Daí que ela menospreza o controle das oligarquias midiáticas por trás do brega-popularesco claramente midiático.

Isso porque, para que ela possa convencer a opinião pública sobre sua concepção de "novas mídias", ela tem que omitir que o brega-popularesco é patrocinado pelos barões regionais da grande mídia, e, não obstante, pelos próprios barões de âmbito nacional.

Afinal, mídia envolve tecnologia, e por mais que rádios FM controladas por deputados, oligarquias empresariais e até latifundiários invistam nessa pretensa "cultura popular", sua estrutura tecnológica terá que se encaixar num discurso onde, neste caso, o controle midiático torna-se um processo explícito, mas "invisível".

Pode parecer patético, afinal a mesma emissora que tem comentaristas reacionários como Miriam Leitão e Merval Pereira é a que terá Gaby Amarantos como cantora do tema de uma nova novela. Mas a intelectualidade tem que fazer vista grossa, assim como fez com o Mr. Catra, invisível nas corporações da grande mídia, exceto na maior delas, as Organizações Globo.

Outro discurso é de caráter econômico. Afinal esquece-se identidades culturais em crise, contradições de classes sociais, conflitos de terras. Parecem dois Estados diferentes, o Pará dos conflitos de terra e o "Pará-Iso" do tecnobrega.

Relativizam demais a mediocrização cultural. As fracas identidades culturais são vistas como "intuição" e "mundialismo cultural". A submissão aos elementos estrangeiros impostos pela mídia são vistas como "conectividade com as novidades do planeta".

O comercialismo gritante de seus ídolos, tendenciosos e, em muitos casos, escravizados - como os grupos comandados por seus empresários, dos quais o maior exemplo é o É O Tchan, mas que existem em qualquer parte do país - , também é visto de forma eufemística, com vista grossa. A intelectualidade até "considera", gracejando, o termo "cultura de massa" e joga no lixo as questões estéticas, éticas, de gosto e de mercado que estão por trás.

Com isso, a intelectualidade vende a mediocridade cultural como se fosse a "salvação da lavoura" brasileira. Precisa manipular o discurso no sentido econômico e tecnológico, dissimulando contradições e problemas, equívocos e irregularidades. Por isso tenta criar um folclore "pop" - termo que, por eufemismo, transforma conceitos neoliberais e imperialistas em algo atraente - , "multimídia" e "hiperconectado".

Daí que palavras como "transbrasileira", "neo-pós-moderno" e outras coisas delirantes que a criançada adora surgem feito doces servidos de graça pela intelectualidade influente. Daí noções confusas lançadas num discurso sofisticado para parecerem "verdades indiscutíveis".

Tudo isso transforma a ideia de cultura popular num conceito em que a automatização tecnológica e a mercantilização voraz tornam-se seus maiores princípios, apesar da retórica usar de clichês "progressistas" como os que se vê em gente como Pedro Alexandre Sanches e Ronaldo Lemos. Mas, por trás desse discurso dócil e sedutor, há um processo perverso de controlar as massas transformando-as em multidões robotizadas, sem real percepção crítica do meio em que vivem.

E, desse modo, enquanto a cultura brasileira fica ao "deus dará", os gerentes de rádios FM e os barões da grande mídia dormem tranquilos. Afinal, os ídolos brega-popularescos, modernos "circenses" da grande mídia neoliberal, continuarão distraindo as classes populares enquanto a politicagem corre solta nos bastidores. E a intelectualidade fazendo guarida.

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