sexta-feira, 30 de março de 2012

A INTELECTUALIDADE CULTURAL COMO EXTENSÃO DA DITADURA MIDIÁTICA


O ANTROPÓLOGO BAIANO ROBERTO ALBERGARIA É CHEGADO A UMA BAIXARIA.

Por Alexandre Figueiredo

Qual é a missão da intelectualidade cultural? A de refletir criticamente os problemas referentes à nossa cultura, as relações com o mercado e suas contradições, e o conflito entre os interesses midiáticos e os interesses populares.

Não é isso que acontece. A elite intelectual brasileira que é relacionada à cultura, embora afirme, em tese, a defesa da reflexão crítica de nossa cultura, faz exatamente o contrário, desaconselhando a consciência crítica, classificada como "preconceito".

A alta reputação de muitos intelectuais desse porte não está à altura de suas posições a respeito de nossa cultura. O conhecimento que eles têm da verdadeira cultura popular do passado serve apenas de escudo para que eles defendam, até com arrogância e comentários mesquinhos, a mediocrização crescente que acontece na cultura brasileira tida como "popular".

Em muitos casos, são comentários nervosos, verdadeiros chiliques textuais, como os que até o ultrafestejado Pedro Alexandre Sanches, quando não gosta de ver críticas contra os chamados "sucessos do povão". Mas o nervosismo textual, geralmente atacando quem faz críticas à chamada "cultura de massa" brasileira, se encontra em qualquer intelectual.

Ontem mesmo, o antropólogo baiano Roberto Albergaria saiu em defesa das baixarias nas letras de música do "pagodão" local, mesmo com um gritante grau de machismo e de ofensas às mulheres. São letras que falam em "pancadinha", "tapa na cara" e chamam as mulheres de "cadelas".

Albergaria já é conhecido por posições altamente discutíveis. Num programa de pós-graduação da UFBA, o antropólogo praticamente expressou uma visão entreguista do povo baiano, afirmando que baiano "não gosta de acarajé, prefere hamburguer". Quanto à lei anti-baixaria da deputada estadual Luíza Maia (PT-BA), Albergaria afirmou que a lei é "contrária à liberdade de expressão" e definiu as baixarias como "brincadeira".

É essa a missão da intelectualidade mais influente desse país? Uma intelectualidade que, a pretexto de defender a "cultura do povo pobre", na verdade defende o poder midiático que está por trás desses sucessos.

O problema é que ninguém entende que essa "cultura popular" é condicionada pelo poderio de rádios FM e TV aberta. Afinal, esses veículos são controlados por oligarquias e grupos políticos, regionais ou nacionais, que às custas de uma taxa cobrada por fora, chamada "jabaculê", veiculam sucessos musicais e empurram as celebridades que devem ser vistas como "modelos de sucesso".

Por outro lado, muitos desses nomes "populares", como cantores, musas e "personalidades" (tipo jogadores de futebol inclinados às farras noturnas ou ex-integrantes do Big Brother Brasil) são empresariadas por gente rica, geralmente empresários de famosos ou donos de agências ou espaços de entretenimento.

Quando se tornam "medalhões", às custas do alto índice de visibilidade e prestígio, os ídolos "populares" chegam mesmo a ter as próprias redes de TV aberta como "sócias", às vezes com a participação dos investimentos de emissoras FM ou de revistas como Contigo e Caras.

Portanto, nenhum pobretão existe aí. A origem pobre pouco importa. Se fosse assim, qualquer especulador financeiro, qualquer grileiro seria "pobretão", porque nas situações da vida muitos humildes se tornam ricos, uns licitamente, outros não.

Mas a intelectualidade faz pegadinha e, nos seus malabarismos discursivos, feitos para arrancar, à guisa de persuasão, aplausos entusiasmados da plateia desinformada, equiparam os grandes empresários do entretenimento a qualquer miserável. Um homem rico como Cal Adan, empresário do É O Tchan, para essa intelectualidade é "tão pobre" quanto uma criança em serviços de engraxate.

VENDE-SE UM ÍDOLO "POPULAR" COMO SE VENDE UM AUTOMÓVEL

Essa intelectualidade acaba servindo de extensão para a ditadura midiática. É muito ingênuo pensar que o grosso da manipulação da opinião pública pela velha grande mídia esteja no noticiário político. Este, através de seus comentaristas e articulistas, apavoram muitos analistas da blogosfera progressista, mas esta é apenas uma parte, até pequena, do processo.

Afinal, a própria "cultura popular" que fascina intelectuais como Pedro Alexandre Sanches e Roberto Albergaria, é fruto justamente da manipulação midiática, que empurra referenciais confusos, alheios a princípios éticos, estéticos, a identidades regionais, à cidadania e à auto-estima do povo.

Apenas se fala que "o povo gosta", "o povo quer", quando sabemos que essa pretensa "cultura popular" é feita através de investimentos de persuasão publicitária. Vende-se um ídolo "popular" como se vende um automóvel, impondo-o como "padrão" de supostos desejos e anseios de uma população pobre que a mídia fez extinguir desejos e anseios próprios.

Portanto, essa "cultura popular" obedece princípios meramente comerciais que desprezam qualquer princípio que contribua para o progresso real da sociedade. E seus "valores" e "ídolos" não são transmitidos comunitariamente, mas de cima para baixo, via rádio e TV, mas sob o gancho inicial da Internet, recurso usado pelos empresários do entretenimento.

Só que a intelectualidade mais influente, mas pouco confiável, faz de tudo para promover uma relativização excessiva dessa visão, num discurso confuso, fantasioso e que deturpa conceitos originários de tendências como o Modernismo, o Concretismo e o Tropicalismo.

Isso faz com que qualquer visão obtusa sobre cultura popular, divulgada por um intelectual de nome, seja vista como "verdade indiscutível", por mais que apresente contradições profundas. Elas pouco importam, até porque a intelectualidade associada tenta intimidar as discussões estéticas, com chiliques histéricos dignos de madames de mansões milionárias.

QUANDO INTELECTUAIS CONDENAM O MILENAR DEBATE ESTÉTICO

O status da intelectualidade que, esperta, recorre logo a intelectuais pouco prestigiados de esquerda - para dar a falsa impressão de que seu discurso não compartilha com os interesses da velha mídia; só que compartilha, e muito - , que acabam se iludindo com a "simpatia" desses verdadeiros arautos da mediocridade cultural brasileira.

Desse modo, os arautos da mediocridade cultural fazem sua choradeira discursiva, tentando diferir sua retórica do mau humor habitual dos comentaristas políticos da grande imprensa. Isso não impede que Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, despeje "urubologias" dignas de um Merval Pereira, com muito medo de ver qualquer debate estético nos auditórios das faculdades.

Isto significa que uma prática natural que ocorre no primeiro mundo, que gente como Umberto Eco e Noam Chomsky, o debate estético, é desestimulado pela intelligentzia brasileira. Uma tradição milenar, feita pelos mais competentes e respeitados círculos intelectuais, é simplesmente condenada pela intelectualidade dominante do Brasil.

Ver Pedro Alexandre Sanches e companhia condenarem algo que vem sendo feito desde a Antiguidade Clássica, há milhares de anos, é algo de se envergonhar, em se tratando de uma intelectualidade dotada de visibilidade, prestígio e de uma popularidade fanática e quase cega entre muitos.

No entanto, eles podem falar mal da grande mídia e dizer que a "cultura popular" que eles defendem é "independente" e "alternativa". Quem perceber melhor o discurso vai saber que tudo isso é balela. Afinal, o que eles fazem é tão somente defender os ditos "valores culturais" da mesma velha grande mídia, da mesma velha grande indústria que dizem condenar.

Afinal, não adianta essa intelectualidade semi-jagunça condenar os seus mestres e mentores, ou dizer que nada têm a ver com eles. Eles têm, e muito, e precisam da velha grande mídia para obter visibilidade. Podem falar mal de seus mestres, mas se seguem suas lições fielmente é porque, no fundo, são seus maiores discípulos.

Querendo se passar por "independentes" da velha grande mídia, não conseguem evitar que seja provado, por A mais B, que a "ditabranda do mau gosto" que tanto defendem os faz colaboradores de fato dos interesses dos barões da grande mídia.

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