sábado, 3 de março de 2012

A INFANTILIZAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante quer que a cultura brasileira se infantilize. Eles falam, sem saudade, dos áureos tempos da MPB autêntica e, ainda que falem de forma positiva, dão a crer de que querem que ela seja coisa do passado.

Até para trazer tranquilidade aos tradicionalistas, a intelectualidade etnocêntrica trata com "carinho" nomes do passado como Itamar Assumpção, Sérgio Sampaio, Elis Regina, Wilson Simonal, e nomes presentes como Inezita Barroso, Quinteto Violado, Sérgio Ricardo, Zezé Motta, certos de que essa boa porção da música brasileira ficará confinada em museus ou na apreciação cada vez mais privada das elites.

Mas, declarado o "fim da História" para a Música Popular Brasileira, a intelectualidade etnocêntrica, a partir das pregações "seguras" de Pedro Alexandre Sanches, agora decreta que a música agora é só a de consumo, e nós é que finjamos que isso é "cultura de verdade".

A música brasileira predominante, aquela que atinge grandes públicos, é infantilizada e tola. O brega-popularesco é uma tolice, por excelência. Isso é comentário raivoso? Não. Trata-se mesmo de uma constatação. Afinal, são "artistas" sem vontade própria, crias do mercado e apenas, por alguma formalidade, são associados à "natural expressão das classes populares".

Há uma grande diferença entre a cultura popular autêntica, viva, atuante, vibrante e dotada de muito conhecimento, com o tendencioso brega-popularesco que só fica "mais inteligente" se o mercado deixar, e olhe lá.

Afinal, "inteligência", neste caso, é um ídolo brega-popularesco virar tese acadêmica, receber abraço de Caetano Veloso, ganhar verniz cult ou encher de covers de MPB no enésimo CD/DVD ao vivo, onde se nota mais pompa, mais pose, mais técnica e coreografia, e menos música.

Mas a intelectualidade festiva, para a qual há sempre um microfone aberto, não quer saber. O brega-popularesco é "nossa verdadeira cultura popular" e acabou. Quem reclamar é "higienista", "preconceituoso" e fica preso em "insuportáveis" questões de gosto e de estética.

No entanto, monografias, ensaios, artigos e documentários não conseguem desmentir o óbvio, que é a infantilização da cultura brasileira, pelo menos o que a intelectualidade dominante quer que seja a "cultura brasileira".

Afinal, são ídolos com sorrisos tolos, e que personificam os mais humilhantes preconceitos sociais das elites. Elas, querendo tirar o corpo fora, tentam se desculpar dizendo que "o que a gente vê como grotesco, para o povo das periferias, é felicidade". Criam um discurso "positivista" para exaltar as periferias, mas deixam latentes seus preconceitos elitistas.

Afinal, mostram que, para essa intelectualidade festiva - sim, aquela que é aplaudida por plateias deslumbradas - , a cidadania só serve para as classes mais abastadas, de preferência com algum diploma de nível superior.

Da periferia para baixo, a intelectualidade tenta manobrar o discurso. Julgam que os valores machistas, imorais, piegas, tolos e tudo o mais, quando presentes nas classes pobres, são "na verdade (sic) outros valores de superioridade sócio-cultural que nós não conseguimos (sic) compreender".

Sim, vai um antropólogo da moda dizer isso numa ciberconferência que receberá aplausos. Vai um crítico musical da moda dizer isso numa palestra de curso de jornalismo e será aplaudido. Mas são preconceitos cruéis, até mais elitistas do que o "refinamento" caricato das "Mulheres Ricas" (adaptação de The Real Housewives of Beverly Hills produzida pela TV Bandeirantes).

E o festival de (des)conversas é algo que desafia a qualquer um, com tantas desculpas, inverdades e até mentiras veiculadas sob palmas da plateia desavisada. Desmentem a infantilização que se vê nas verdadeiras tolices brega-popularescas, que "só são tolas para a gente, porque para a periferia aquilo é alegria de viver".

A glamourização da pobreza está por trás disso. A intelectualidade faz apologia da miséria, e tenta dizer que "o que é grotesco para nós, para o povo pobre é felicidade". Será que é isso mesmo que acontece? Não. Afinal, o drama de Pinheirinho não existe na música de Michel Teló, a violência do Pará não acontece no tecnobrega, e o máximo que os funqueiros exigem é que o policiamento nas favelas seja meramente decorativo.

Vejam os CDs da Gang do Eletro, Leandro & as Abusadas, Psirico, Saia Rodada, Pixote e outros. Qualquer nome brega, neo-brega e pós-brega. Os sorrisos tolos, a inocência piegas, tudo isso denuncia que algo está errado.

Não dá para creditar o brega-popularesco como algo à altura da boa e veterana cultura popular autêntica. E nem para arrumar desculpas para dizer, "positivamente", que "tudo está diferente". Algo está errado, sim, a intelectualidade sabe disso. E, a pretexto de defender a "verdadeira cultura popular", ela na verdade defende o "deus" mercado.

Por isso essa intelectualidade, desesperada, pede para que não sejam discutidas questões de gosto e de valor estético. Porque, a partir daí, surgirão problemas delicados em torno da cultura brasileira, até hoje escravizada pela mídia. E esses problemas comprometerão o que realmente interessa a essa intelectualidade, que é de zelar pelo mercado do entretenimento que enche as fortunas de barões da mídia, "coronéis" do entretenimento e latifundiários.

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