segunda-feira, 19 de março de 2012

EXTERMÍNIO SOB AS COSTAS DO CENSO



Por Alexandre Figueiredo

A violência que atinge parte da sociedade brasileira derruba ilusões que chegam mesmo a ser reforçadas pelos dados estatísticos. Tanto os homens "invisíveis" quanto as mulheres "visíveis" são vítimas, mesmo em processos aparentemente contraditórios, dessa tragédia mascarada pelas visões oficiais de país.

O Brasil não tem maioria feminina na população. Isso porque esse mito estatisticamente trabalhado, mas midiaticamente propagado, esconde as milhares de mulheres mortas pela violência, pelos acidentes de trânsito, pelas falhas no atendimento à saúde e mesmo pela opressão machista e pelo marketing alcoolista, entre outras armadilhas.

Se a tal Luíza conseguiu voltar do Canadá, muitas outras "Luízas" morreram no exterior, sem voltar para casa, mortas por namorados estrangeiros, algo que se tornou constante nos últimos dois anos. Jovens meninas são mortas em circunstâncias que variam de balas perdidas à truculência de pai irresponsável - como no caso de Isabella Nardoni - , e várias mulheres são mortas pela violência marital ou por outras violências de cunho machista.

Mas elas continuam vivas no Censo do IBGE, para reforçar o mito da "maioria feminina", da utopia do "país mulher" que vende um Brasil como um "paraíso sensual" para turista ver. Pouco importam quantas trabalhadoras morrem de problemas de parto ou à espera de atendimento nos hospitais públicos. Elas "continuam aí", "livres, leves e soltas" nos dados numéricos do IBGE.

E os homens, por outro lado, continuam "invisíveis" para evitar o aumento da dívida pública e o prejuízo no mercado turístico (sobretudo no setor hoteleiro). O êxoto rural nem sequer é estatisticamente considerado, na maioria dos dados. Se milhares de homens, nascidos no interior da Bahia, deixam as cidades natais para viverem em Salvador, eles continuam "vivendo" nas suas terras de origem.

Isso se deve porque as classes pobres enfrentam mil limitações legais para ter alguma vida nas capitais. Vivem em favelas, no subemprego, anônimas na "multidão solitária" das ruas. E isso envolve uma maioria considerável de homens, que, do contrário do mito caricato do "Jeca Tatu", defendido por tecnocratas estatísticos e barões da grande mídia, não se contentam com a vida na roça em condições miseráveis.

E, como muitos deles nem sequer conseguem ter casas em favelas, sobretudo numa época em que elas, convertidas em paisagens de consumo com potencial turístico, influem no aumento dos aluguéis de seus barracos, acabam vivendo nas ruas, à sorte de qualquer perigo.

E aí, haja gente queimada por jovens delinquentes de classes abastadas. Ou então a ação de grupos de extermínio ou de "justiceiros". E nem mulheres são poupadas nesse caso, como aliás em toda violência com vítimas coletivas, em que até crianças são exterminadas se estão no ambiente das chacinas cometidas.

Ou seja, é uma realidade muito cruel por trás de tanta ilusão. E, nas classes pobres, os jovens morrem mais, e é constrangedor quando a mídia, para "comemorar" a suposta supremacia populacional feminina, descreve a situação animadamente, deixando vazarem seus preconceitos elitistas e machistas, já que os mortos precoces pela violência são em sua maioria negros e índios.

Esse extermínio todo, garantido sobretudo pela impunidade dos criminosos e pelo Código Penal defasado, em muitos aspectos, em até 70 anos, lamentavelmente garante que os homens que nunca aparecem no Censo desapareçam sob a vista grossa de muitos, e que as mulheres que ainda estão vivas nos números censitários também desapareçam sem que deixem de existir nesses registros.

E tudo isso para camuflar problemas e atenuar aparentemente a gravidade de muitos dramas sociais, para o bem das ilusões do marketing e do mercado turísticos.

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