quarta-feira, 21 de março de 2012

A ESCANDALOSA CRISE DA TV CULTURA



Por Alexandre Figueiredo

A emissora que, nos anos 90, pretendia ser, e até conseguiu, se tornar um paradigma de TV educativa moderna, a TV Cultura de São Paulo, está no auge de sua crise institucional, agravada quando passou a entregar uma parte de sua programação ao poder privado da Folha de São Paulo, como primeira amostra do loteamento da grade da emissora a veículos privados que compartilham dos interesses políticos do PSDB, que governa o Estado.

A Folha - para puxar a brasa para sua sardinha - até festejou seu programa na TV Cultura, o TV Folha, dizendo que o programa garantiu mais audiência à emissora. Mas o que se via é o mau humor reacionário da urubologia jornalística querendo ter mais um espaço na mídia paulistana.

Nem Assis Chateaubriand - o antigo dono da TV Cultura, que pertencia aos herdeiros do "velho capitão" assim que este adoeceu em 1960, data do surgimento da emissora - faria pior. Até porque os tempos eram outros, e mesmo a mídia mais reacionária investia no mínimo respeito ao cidadão. E os troleiros não existiam, a garotada nervosinha e reaça teria que optar por grupos tipo Comando de Caça aos Comunistas ou a pequenas gangues de rua a aprontar nos cinemas e restaurantes das cidades.

E se a TV Cultura era emergente e promissora em 1960, a Folha de São Paulo, que havia surgido pouco antes como uma fusão de três jornais (Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite), dos quais só o FT foi ressuscitado pouco após, era apenas um periódico conservador mas pelo menos era mais profissional.

A TV Cultura, depois de seu breve brilho nos anos 90 - cujo sucesso fez até com que a apresentadora da revista eletrônica Metrópolis, a bela e sexy jornalista Lorena Calabria, fizesse comercial de absorventes - , que, entre outras coisas, fez o programa Rá-Tim-Bum uma espécie de "Novo Vila Sésamo" no sentido de formação da consciência infanto-juvenil através da linguagem televisiva, perdeu o seu caminho.

Obsessa em se adequar à "cultura de massa", a TV Cultura acolheu os mesmos astros popularescos que já apareciam nas emissoras comerciais da TV aberta. Sua proposta educativa deixou de ter criatividade e sucumbiu a um pragmatismo vago. Ainda havia bons programas, e eu pude ver, poucos anos atrás, até o novo Vila Sésamo, que era muito bom, mas mesmo o instigante programa Roda Viva estava entregue ao conservadorismo mais ranheta da grande imprensa.

E olha que, quando eu era ainda estudante de Jornalismo da UFBA, meu então professor, Fernando Conceição - um dos primeiros a denunciar o coronel-de-mídia baiano Mário Kertèsz, um genérico político de Paulo Maluf convertido a barão da mídia regional - , havia sido um dos entrevistadores do saudoso geógrafo Milton Santos que, no final da vida, ainda trabalhava como professor, escritor e orientador de pesquisas.

E era no Roda Viva, que durante muito tempo foi brilhantemente comandado por Paulo Markun, que foi amigo e colega do falecido Wladimir Herzog, escreveu livros brilhantes como 1961 (com Duda Hamilton) e é pai da deliciosa Ana Markun, atriz e ex-integrante do reality A Fazenda 4.

A TV Cultura perdeu tanto seu caminho que até o programa Viola, Minha Viola, apresentado por Inezita Barroso e dirigido por Fernando Faro (que em 1962 havia lançado o programa vanguardista Mobile na TV Paulista, a mesma que lançou Sílvio Santos e depois virou TV Globo São Paulo), perdeu a batalha contra a falsa música caipira e acolheu os usurpadores Chitãozinho & Xororó e Daniel, diluidores impiedosos mas tendenciosos parasitas do cancioneiro caipira, dependendo das circunstâncias.

Transformada em marionete do Governo do Estado de São Paulo - nas gestões do PSDB - , a TV Cultura deixou de cumprir seu papel com eficiência. Seu caráter faccioso irritou até mesmo o jornalista Heródoto Barbeiro, que é uma figura conservadora, embora dedicada a um jornalismo mais profissional e menos parcial. Ele havia sido demitido por fazer perguntas que não agradaram o então candidato à Presidência da República, José Serra, em 2010.

Há também a demissão de vários profissionais da emissora, mesmo com a sinalização de suas "grandes novidades", como o tão alardeado programa da Folha de São Paulo, de apenas meia hora de duração, mas certamente com muitas horas de vaidades nos bastidores.

A obsessão da TV Cultura pelo mercado, a pressão para que a emissora seja sustentada por anunciantes privados, que ideologicamente interferiam na programação, e a perda gradual de sua vocação educativa, é vergonhosa e grave, se levarmos em conta que se trata de uma emissora sediada na maior capital da América Latina. Trata-se de uma escandalosa crise envolvendo uma emissora de TV educativa.

Para piorar a situação, e torná-la ainda mais escandalosa, é que a TV Cultura estabelece parcerias de transmissão com outras emissoras educativas, incluindo a TV Brasil do Rio de Janeiro e a TVE de Salvador - cuja empresa, o IRDEB, é também dona da Rádio Educadora onde trabalhei como redator - , o que significa que o "vírus" da TV Cultura se espalha por outras plagas como se fosse uma "prática moderna".

Isso causará sérias consequências na televisão educativa brasileira. E isso é apenas um aspecto da violenta crise que passa a nossa televisão. A TV aberta está abertamente entregue à estupidez mais escancarada. A TV paga, com a ajuda do comércio ilegal dos milicianos (o famigerado "gatonet"), já assimila os mesmos vícios da TV aberta. E a TV educativa se atola na areia movediça do comercialismo vicioso.

É triste saber que o mais influente meio de comunicação, no Brasil, deixou se de comunicar, há tempos, com o interesse público.

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