terça-feira, 20 de março de 2012

"CULTURA" BREGA É O REQUIÉM DO BRASIL



Por Alexandre Figueiredo

A hegemonia do brega-popularesco faz com que a chamada "cultura" brega virasse um beco sem saída para a cultura brasileira. O peso da consciência das elites relativamente abastadas, como na chamada classe média intelectualizada, faz com que necessariamente qualquer um adote um "breguinha" de estimação, como se isso promovesse a inclusão social no país.

Uns adotam Waldick Soriano, outros Wando, outros José Augusto, outros Michael Sullivan, e há quem adote o "funk carioca" e o tecnobrega. Isso quando não surge, no meio do caminho, "coitados" do porte de Zezé di Camargo, Leandro Lehart ou mesmo Tati Quebra-Barraco e Mr. Catra.

Tudo isso é feito não porque eles realmente tenham um grande valor, mas porque eles, por sofrerem algum tipo de rejeição, passam a ser objetos de uma "misericórdia" com um quê de tendenciosa, mas na maioria das vezes ingênua, fruto de uma convicção de elite e sua visão etnocêntrica das classes populares.

Essa visão, paternalista e aparentemente generosa, ainda que insista em afirmar que é "ausente de qualquer preconceito", é dotada do mais puro preconceito elitista, que vê o povo como medíocre, tolo, ingênuo, condenado eternamente a fazer papel de vítima.

Pois o "fascínio" que alguns abastados, mesmo gente blogueira da esquerda mais "flexível" (ou não seria mais ingênua?), pelas músicas cafonas, pelos vocais fraquinhos e pela postura antiquada dos ídolos bregas e seus derivados, mesmo os mais "modernos" - como na axé-music, no "sertanejo universitário", no "funk" e no tecnobrega - , revela um elitismo que também expressa um grande desconhecimento histórico das elites "esclarecidas".

Isso porque a cultura das classes populares nada teve de fraca, cafona, debilitada. Ninguém era bom porque era "rejeitado", mas porque tinha um papel sócio-cultural a cumprir, e sua arte acrescentava conhecimento e valores ao estabelecido.

Não é o que acontece com a música brega e seus derivados. Ela nunca trouxe conhecimentos sócio-culturais de verdade, e mesmo sua associação à MPB, além de muito falsa, é tendenciosa e oportunista. Além disso, os hitmakers do brega só são "coitadinhos" quando estão temporariamente fora do rádio e da TV. Voltando a eles, eles voltam a ser os "todo-poderosos" que sempre indignou intelectuais realmente comprometidos em analisar nossa cultura.

O brega não faz o Brasil crescer. Nada acrescenta à nossa cultura, senão modismos e fetiches. Que apenas estão associados ao consumismo, e nada trazem de cidadania. Por isso, a defesa do brega-popularesco, mesmo com todo o mais sofisticado e mais moderno arsenal discursivo da intelectualidade, é um grande desperdício para quem quer ver o progresso da cultura brasileira.

Além do mais, chega a contrastar a preocupação que temos em desenvolver a cidadania social, econômica e midiática, numa postura claramente progressista, enquanto no âmbito cultural muita gente ainda adota posturas conservadoras, de manter o "estabelecido" na "cultura de massa".

A desculpa é que a cultura é algo que vai ao sabor do vento, ao "deus-dará", e temos apenas que fingir que a mediocrização cultural nos últimos 45 anos é "genial" e "faz parte" do patrimônio cultural brasileiro. Usamos o pretexto da "diversidade cultural", "expressão das periferias", "poesia da gente simples" para legitimar coisas que nem vale tanto a pena serem defendidas, assim.

Pelo contrário, sacrificamos as questões de gosto, de estética, e aceitamos o desagradável, o tosco, o medíocre, porque "é isso que o povo sabe fazer". E muitos têm medo quando alguém questiona a mediocridade cultural dominante, e classificam esse alguém de "preconceituoso" e "invejoso" conforme as circunstâncias.

Afinal, essa defesa do brega-popularesco acaba se tornando um inútil processo das classes médias intelectualizadas de esconder seus preconceitos para agradar ao povo pobre. Acham que estão agradando suas empregadas domésticas, seus porteiros, seus faxineiros, seus feirantes do dia-a-dia, mas no fundo só agradam mesmo são os gerentes de rádios e TVs, os mesmos barões da grande mídia que espalham terror nos noticiários políticos.

Elogiando o brega-popularesco, com sua brasilidade débil e esquizofrênica e sua mundialidade caricata e risível - é bom deixar claro que 90% da projeção de Michel Teló no exterior é através do estereótipo caricato do "moderno sertanejo brasileiro" - , o Brasil não está contribuindo para o progresso da cultura brasileira, mas pelo seu retrocesso.

Daí que o brega e todos os seus ritmos derivados, na verdade, são um requiém para o Brasil. Suas tendências foram historicamente condicionadas num cenário de prepotência e corrupção político-midiática e de miséria e carências do povo pobre. Achar que o Brasil vai se evoluir com a adoção de seus "coitadinhos" musicais é, no mínimo, uma credulidade lamentável.

Por isso, talvez seja melhor deixar o brega-popularesco no seu esquecimento. Ele já deu o que tinha que dar, se é que deu alguma coisa. Chorarmos por um ídolo "coitadinho" não vai melhorar a compreensão das elites em relação às classes populares, mas apenas mascarar seus preconceitos às custas da apreciação paternalista da suposta "cultura popular" midiática.

Apreciando o brega-popularesco, o Brasil fica atolado na mesmice da mediocrização cultural, impedindo que a cultura de qualidade tenha acesso às classes populares. No fim, o Brasil se torna mais brega, mais cafona e, por isso, culturalmente mais debilitado, mais cabisbaixo, mais piegas e muito mais conformado com sua inferioridade sócio-cultural.

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