quarta-feira, 14 de março de 2012

BREGA MASCARA A CRISE CULTURAL DO NOSSO PAÍS


WALDICK SORIANO, WANDO, JOSÉ AUGUSTO, MICHAEL SULLIVAN, MR. CATRA E GABY AMARANTOS - O brega e seus mil "coitados". Coitados de quem pensa assim!

Por Alexandre Figueiredo

Quem somos nós, afinal? Que identidade cultural temos? Os mais velhos são capazes de fazer análises pertinentes sobre a crise cultural em que vivemos, e as identidades culturais que a ditadura militar combateu e que o neoliberalismo globalizado deu seu golpe final.

Os mais jovens, ou seja, nascidos de 1962 para cá, nem sempre contam com essa visão coerente. Preferem, de forma bem piegas, cortejar a "cultura" brega, como se visse nela a esperança de evocar a "verdadeira cultura da gente simples".

O brega é uma ideologia que transforma o povo pobre num bando de coitados. Primeiro ela desenvolve toda a degradação social e toda a eliminação de identidades regionais, para depois serem forjadas "novas identidades sócio-culturais" a partir disso.

Quem é relativamente mais jovem, nos seus 33, 45, 49 anos, para não dizer menos, não tem ideia precisa do que é identidade cultural. Sua formação não ajuda muito, porque o pessoal, mesmo o "progressista", aprendeu a formar seus referenciais na televisão dos tempos da ditadura militar, sua visão de "cultura popular" é a da Globo, da Folha de São Paulo, da Veja, por mais que hoje esse pessoal diga odiar esses veículos.

Por isso, é de estarrecer que as manifestações mais piegas relacionadas a ídolos bregas é justamente nessa intelectualidade de boa-fé, que inocentemente vai de carona no que pessoas como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches dizem.

"VIA PRUSSIANA"

Me lembra muito bem o que o professor Carlos Nelson Coutinho, especialista em marxismo, fala do "intimismo à sombra do poder", em texto aqui reproduzido. Diante da "via prussiana" que marcou nossa política, ou seja, da solução de transformações brandas feitas com a aliança com o conservadorismo dominante - o que há muito manchou gravemente a história do PT - , temos a intelectualidade distanciada das ligações orgânicas com as classes populares.

Claro, boa parte da intelectualidade influente vive esse contexto. Se há cem anos atrás tivemos um Euclides da Cunha que, embora esforçado, misturava teses socialistas com preconceitos elitistas típicos da República Velha, os intelectuais de hoje não escapam a essa grande confusão.

Afinal, temos intelectuais que adotam posturas corretas quando se tratam de problemas trabalhistas, questões sindicais e pesquisas sociológicas. Isso vem da influência das faculdades, da militância sindical, da interpretação crítica do jornalismo político.

No entanto, é esse mesmo pessoal que sucumbe à adoração piegas dos ídolos bregas, a pretexto de que "eles falam para o povo", "representam o sentimento da gente simples". Dá no mesmo que dizer que, por gostar de beber Coca-Cola, acha sua empresa socialista, por ter até o "vermelho" de sua embalagem e na roupa do Papai Noel por ela criado para o consumo mundial.

Ignora-se, por exemplo, que muitos desses ídolos bregas tornaram-se populares às custas das rádios controladas por oligarquias e pela velha grande mídia que condena os movimentos sociais. Isso é fato e não é coincidência.

Afinal, muitos desses ídolos "admiráveis" são ideologicamente conservadores, apenas sua associação virtual às classes populares é que, sim, é uma coincidência que não fará um Waldick Soriano, um Wando ou José Augusto figuras "progressistas".

Em muitos aspectos, José Augusto, Wando e Michael Sullivan, só para citar alguns exemplos, assimilam com muito mais facilidade os mesmos elementos que essa intelectualidade, enojada, associa à MPB mais elitista, ou seja, uma MPB remodelada pela indústria fonográfica.

Todo o clima de pompa, de luxo e tecnologia que, nas mãos de músicos da MPB, horrorizam a intelectualidade etnocêntrica, nas mãos dos ídolos bregas é visto como "evolução artística" e "grandioso mérito cultural" que essa mesma intelectualidade dá aos bregas.

REFERENCIAIS CONFUSOS, CONTRADITÓRIOS

Mas a intelectualidade não percebe e nem quer saber. Sua confusa mistura de teses trabalhistas de esquerda e uma percepção positivamente elitista da "cultura popular" revelam a formação eclética dessa intelectualidade, voltada mais às classes médias urbanas e ainda influenciada pelo rádio e TV controlados por grupos oligárquicos.

De um lado, há a tardia formação universitária e profissional que as liga, em última hora, às classes populares. De outro, a formação, desde a mais tenra infância, de referenciais "culturais" ditados por rádios e TVs ideologicamente conservadores, que condicionaram a pieguice emocional, o deslumbramento e um sentimento paternalista com as classes populares.

Para piorar as coisas, essa intelectualidade ainda foi surpreendida por teorias globalizadas que liquidaram com qualquer ideia de identidade sócio-cultural. Se o Tropicalismo convertido no acomodado establishment da "máfia do dendê" já anunciava que a "cultura de massa é uma maravilha", a globalização neoliberal liquidou com qualquer noção do que é local ou não, substituindo visões objetivas e críticas pelo deslumbramento subjetivista.

Aí, pronto, o Brasil deixou de ter suas caras próprias. Agora possui apenas máscaras. Não somos mais Jackson tocando pandeiro, mas o Michael Jackson dublado em português rudimentar. O povo pobre não tem mais sambas, baiões, não podemos mais ser pernambucanos, baianos, paraenses, paulistas, gaúchos, cariocas. Agora somos "mundiais", com as supostas formas "locais" de pensar o "mundial".

É um conceito de globalização neoliberal, mas que seduz as esquerdas mais frágeis. E que tenta justificar o brega-popularesco das mil formas, sobretudo pelo sentimentalismo que faz certos intelectuais chorarem, literalmente, por Waldick Soriano, Wando, José Augusto, Michael Sullivan, para não dizer funqueiros e tecnobregas bancando os "coitadinhos".

A ALIENAÇÃO VIROU "NOSSA PRÓPRIA IDENTIDADE"

Isso faz com que a mediocrização cultural siga seu curso. Se seus ídolos são ruins, tem-se pena deles, porque "são gente simples". Não podemos dizer que eles são alienados, porque somos ridicularizados por essa classificação. Afinal, não sabemos o que somos, e para quem vê a alienação como sua própria identidade, não há como considerar coisa alguma como alienação, porque os conceitos confusos de "eu" e de "outro" já não são mais definidamente delimitados.

Se nossos "maiores gênios" são os "coitados" escorraçados por (parte da) crítica, então a mediocridade cultural é "nossa riqueza cultural", "nossa diversidade". Mas essa diversidade nunca existiu no brega-popularesco, e tudo é apenas uma mesma música brega temperada ou retemperada por imitações de ritmos regionais, ou por inserções de "novos ritmos" como o miami bass.

Afinal, que identidade cultural há nessas "diversidade"? Nenhuma. A pretexto de camuflarmos a incompreensão de muitos pela preguiça da abordagem eclética, sentimentalista e relativista demais, a intelectualidade mais influente renega as identidades culturais, mesmo quando as "defende" na confusa concepção de "culturas mais mundializadas" ou "leituras locais do que vem de fora", que, neste caso, nada tem a ver com a antropofagia cultural de Oswald de Andrade, porque esta não prescinde da prevalência da soberania cultural.

Mas o velho Oswald, falecido há 58 anos, anda sendo usado levianamente para a defesa da mais gratuita degradação cultural brasileira, de uma pseudo-antropofagia radiofônica e televisiva, de "velhas mídias" camufladas de "novas mídias" por gente que acha que pode escrever as mesmas ideias na Folha de São Paulo e na Caros Amigos.

Portanto, o brega não é mais do que essa camuflagem da crise cultural em que vivemos, como um "modelo de cultura popular" defendido pelo latifúndio e pelas oligarquias políticas, econômicas e midiáticas.

GLOBO DEFENDERÁ BREGA EM NOVELA E SERIADO

Só para usar uma metáfora brega, as tsunamis de lágrimas choradas em prol desses ídolos em nenhum momento irá enobrecer a cultura verdadeira do povo pobre ou da gente simples, porque as classes populares nunca bancaram as coitadinhas resignadas, que é a imagem tão comum dos ídolos bregas de todos os matizes.

A propósito, quem adora tanto a "cultura" brega e, contraditoriamente, diz defender a regulação da mídia, é bom deixar claro que a Rede Globo de Televisão, que tanto viola a ética midiática quanto apoia abertamente o brega, mais uma vez lançará programas dedicados ao gênero, como a nova temporada do seriado Tapas e Beijos e a novela Cheias de Charme.

Tudo isso com direito a Gaby Amarantos aparecendo abertamente na programação da Globo, lançando tema de novela nos mesmos palcos habituados com as performances machistas do funqueiro Mr. Catra, que certos incautos acreditavam estar ausente das corporações da grande mídia.

Ou seja, a emissora dos irmãos Marinho que têm, no elenco, gente como Merval Pereira e Miriam Leitão, e que havia recebido com muito carinho o cantor José Augusto (que até ganhou tema musical na novela Barriga de Aluguel), mais uma vez vai tentar nos convencer de que o brega é o máximo.

Depois vão dizer, aos prantos, que o brega não tem a ver com a velha grande mídia.

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