quinta-feira, 15 de março de 2012

A AMEAÇA "DÓCIL" DO "PODER BRANDO"



Por Alexandre Figueiredo

Uma ameaça menos dolorosa mas não menos perigosa põe em risco o desenvolvimento social da humanidade planetária. Como uma nova estratégia do poderio dominante do capitalismo dos EUA, ela ainda não é vista como um perigo por muitos, que ainda veem várias medidas associadas com deslumbramento quase infantil.

É o chamado "poder brando", conhecido em inglês como soft power. Esta estratégia, mais próxima do "New Deal" de Franklin Roosevelt do que do anterior "Big Stick" do seu tio Theodore Roosevelt, o "poder brando" pode ser identificado por várias atividades relacionadas direta ou indiretamente ao Brasil.

São elas: o "Jornalismo nas Américas" do Centro Knight, os investimentos "filantrópicos" da Soros Open Foundation (do magnata George Soros), Fundação Ford e Fundação Rockefeller, e mesmo iniciativas brasileiras como a teoria informática de Ronaldo Lemos e o Coletivo Fora do Eixo.

Todos eles seguem o mesmo trajeto ideológico que se vê no "poder brando". Essa estratégia se carateriza não mais pela repressão à chamada "ameaça comunista", mas pela cooptação de forças progressistas consideradas moderadas para atrair segmentos de centro-esquerda para o apoio a uma nova forma de neoliberalismo, já prevista com o fim do Muro de Berlim mas já cogitada desde meados dos anos 70.

Afinal, naquela época, os EUA e a economia mundial foram surpreendidos por várias crises. Nos EUA, as pressões do presidente francês, general Charles de Gaulle, contra o dólar, já em 1965, enfraqueceram o mercado norte-americano e abriram caminho para o enfraquecimento político do depois presidente Richard Nixon, que ainda por cima teve seu esquema de corrupção denunciado em 1972.

Mas foi o aumento do preço do petróleo no Oriente Médio que fez a geopolítica mundial buscar novos meios de dominação para evitar que o capitalismo do Primeiro Mundo entre em colapso. E isso se torna patente até hoje, quando no Oriente Médio, na Europa e nos EUA, crescem as manifestações populares contra os arbítrios das autoridades, dos banqueiros, empresários e até especuladores financeiros.

Aliás, um deles, George Soros, parece ser um dos principais capitães do "poder brando", se não o maior deles. Multimilionário, o megaempresário e especulador financeiro, "raposa velha" do processo político e econômico dos EUA, país em que vive este húngaro naturalizado, decidiu, ao ver as tensões mundiais aumentarem pelos quatro cantos do planeta, criar entidades "filantrópicas" e "institutos" que visassem cooptar o máximo de movimentos sociais possível para evitar qualquer revolução social.

O Brasil, país estratégico dos BRICs, é bastante cobiçado pelos artífices do "poder brando". E, infelizmente, parece que as estratégias do "poder brando" estão dando certo, na medida em que parte das chamadas forças progressistas aderem de corpo e alma para as armadilhas tramadas pela megaoperação.

O "poder brando", diferente do "poder brutal" (hard power) que nos trouxe como exemplo o patrocínio norte-americano do golpe militar de 1964, é uma espécie de moderno "cavalo de Tróia" internacional. Ou uma ratoeira que as pessoas, ingenuamente, contemplam por causa do queijo usado como isca. Seu processo, perigosíssimo, consiste em dividir as esquerdas cooptando a parte mais moderada delas para apoiar o pensamento neoliberal expresso sobretudo na visão de cultura e ativismo social.

Divide-se as esquerdas fazendo com que nelas prevaleça o pensamento mais brando, menos crítico, menos combativo. A agenda temática, então, se limita apenas a problemas pontuais, a questões sociais e econômicas que não ameaçassem o mercado dominante, ou, talvez, que representassem interesses estratégicos para as autoridades, tecnocratas e executios estadunidenses.

É o caso da supervalorização das questões sobre o Oriente Médio, como se, fora dele, tais problemáticas fossem de âmbito nacional. Por exemplo, superestima-se o caso da Líbia, da Síria, do Líbano e da questão palestina, mas se esquece, no caso brasileiro, dos "orientes médios" que existem ocultos no "paradisíaco" entretenimento brega-popularesco.

Claro, Belém do Pará é tida como uma "comunidade feliz", com uma "alegre periferia" supostamente próspera que oculta, nos quintais interioranos do Estado, toda uma sangrenta realidade de conflitos de terra e do poder tirânico dos latifundiários (que, vale lembrar, patrocina, mesmo que indiretamente, todo o entretenimento brega local).

CONFUSÃO COM O SOCIALISMO MODERNO

Para as pessoas com pouco senso crítico, o "poder brando", não reconhecido com este nome, é confundido com o novo socialismo contemporâneo, pós-queda da URSS. Com um discurso que evoca a suposta defesa dos movimentos sociais e do poder transformador das novas mídias, o "poder brando" se insere nos países pobres ou emergentes como uma força quase invisível que para muitos não desperta qualquer tipo de suspeita.

Até mesmo George Soros, mesmo com todo o seu caráter radicalmente neoliberal, é visto como "reinventor do socialismo", "protetor das esquerdas" e comparado até mesmo a Robin Hood. E a espantosa unanimidade no apoio da opinião pública média para o projeto Jornalismo nas Américas é o sinal de que o "poder brando" machuca sem causar dor.

Neste processo, o imperialismo faz que "reconhece" os movimentos sociais e as novas mídias alternativas, e até finge apoiar completamente qualquer rebelião de cunho social, cultural e político. No entanto, o que está por trás desse faz-de-conta é apenas a domesticação social das classes populares e a tentativa de evitar qualquer radicalismo nos movimentos ativistas.

Isso até tem um preço. O imperialismo, aparentemente, respeita as instituições e condena ações extremistas ligadas à tirania e à repressão social. Mas, por debaixo dos panos, o "poder brando" apoia iniciativas de deturpação das manifestações sociais regionais, como forma de deixar as expressões populares regionais reféns do mercado dominante, que aqui se desdobra em "novas instituições".

Por isso é que o discurso de "novas mídias" entra aqui. Ele entra não como forma de dar o poder revolucionário a um simples clique de mouse ou uma datilografia frente a um computador, mas como meio de criar divisões "alternativas" que na verdade são apenas subsidiárias ou dissidentes sem ruptura ideológica do velho mercado dominante.

Ou seja, são novos anéis, mas dedos podres de tão velhos. Só que os novos anéis brilham para desnortear a visão dos menos preparados. E os que se deslumbram com esses anéis do "poder brando" não têm a menor ideia dos riscos que estão sofrendo.

Ainda se falará muito do "poder brando". É um perigo por ser um processo sutil de dominação. Um processo aparentemente dócil e simpático, mas que pode simplesmente tirar todo o sentido real de nossas necessidades de progresso social no planeta.

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